Os Atos dos Apóstolos constituem o segundo volume da dupla obra lucana e o único livro do Novo Testamento consagrado exclusivamente à história da Igreja primitiva. Enquadrado entre os quatro evangelhos e as cartas de Paulo na disposição canônica, o livro preenche um espaço narrativo insubstituível: narra o período que vai da ascensão de Jesus até a chegada de Paulo a Roma, cobrindo aproximadamente três décadas de expansão do cristianismo pelo Mediterrâneo. O prólogo do livro remete explicitamente ao "primeiro livro" — o Evangelho de Lucas —, confirmando que os dois textos formam uma unidade literária e teológica deliberada. Ambos são dedicados ao mesmo destinatário, Teófilo, e partilham o mesmo estilo elevado de grego helenístico, com a capacidade característica do autor de modular o registo linguístico conforme os contextos narrados.
A autoria é convencionalmente atribuída a Lucas, companheiro de Paulo mencionado em três cartas paulinas, embora a exegese histórico-crítica reconheça que a identificação precisa do autor com esse personagem histórico enfrenta dificuldades consideráveis. As discrepâncias entre a biografia de Paulo nos Atos e a que se depreende das suas próprias cartas, em particular a sequência das viagens a Jerusalém e a ausência do título de apóstolo para Paulo, levaram muitos estudiosos a concluir que o autor, seja quem for, mantinha uma relação mais distante com o círculo paulino do que a tradição sugere. O período de composição continua em debate, com propostas que variam dos anos sessenta do primeiro século até meados do segundo, embora a grande maioria dos exegetas se incline para uma datação entre 80 e 100, posterior à destruição do Templo de Jerusalém. O local de composição é igualmente incerto, com propostas que incluem Antioquia do Orontes, Éfeso, Corinto e Roma.
O livro organiza-se em torno de um eixo geográfico e teológico que parte de Jerusalém e avança progressivamente em direção a Roma, cumprindo o programa enunciado no primeiro capítulo: "sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra." Esse eixo não é apenas topográfico, mas encena a abertura universal do Evangelho a todos os povos. A primeira metade do livro centra-se na comunidade de Jerusalém sob a liderança dos Doze, com Pedro como figura principal. A segunda metade desloca progressivamente o protagonismo para Paulo e narra as suas três grandes expedições missionárias pelo Mediterrâneo oriental, até à sua chegada a Roma como prisioneiro aguardando julgamento imperial.
Os episódios centrais da primeira parte incluem o derramamento do Espírito Santo em Pentecostes, narrado com uma cena de intensidade dramática que Lucas interpreta à luz do texto do profeta Joel, e o surgimento de uma comunidade que partilha os seus bens, se reúne para a fração do pão e anuncia publicamente a ressurreição de Jesus no Templo, entrando em conflito crescente com a aristocracia sacerdotal saduceia. O martírio de Estêvão, narrado com paralelos explícitos à paixão de Jesus, e a conversão de Paulo diante de Damasco são os dois pontos de inflexão que reorientam a narrativa: a partir daí, o Evangelho ultrapassa as fronteiras do judaísmo e começa a alcançar samaritanos, um funcionário etíope, o centurião Cornélio e comunidades por toda a bacia mediterrânea.
A figura de Paulo domina os capítulos treze a vinte e oito com uma presença que a crítica literária designou frequentemente como o protagonismo de um herói de romance antigo. As suas viagens são narradas com riqueza de detalhes geográficos, episódios de perseguição e libertação miraculosa, discursos adaptados a diferentes auditórios — judeus, filósofos gregos em Atenas, cristãos em Mileto, autoridades romanas em Cesareia — e uma cena de naufrágio de grande vivacidade literária. O relato da viagem marítima de Paulo como prisioneiro até Roma, com a tempestade e o naufrágio em Malta, é reconhecido pelos classicistas como uma das narrativas de viagem mais vívidas da Antiguidade. O livro encerra de forma deliberadamente aberta: Paulo em Roma, em prisão domiciliária, pregando o Evangelho a todos que o visitam, "com toda a liberdade e sem impedimento".
Para a tradição cristã, os Atos dos Apóstolos são fundamentais por múltiplas razões. Fundamentam teologicamente a missão como dimensão essencial da Igreja, narram a origem dos principais ritos e estruturas comunitárias, e oferecem o primeiro testemunho da relação entre o movimento cristão e o poder romano. A teologia lucana da história, com a sua convicção de que o Espírito Santo guia o desdobramento da missão apesar das oposições humanas, tornou-se um recurso permanente da reflexão eclesiológica. Na liturgia católica, os Atos são lidos ao longo do tempo pascal, sublinhando a ligação entre a ressurreição de Cristo e o nascimento da Igreja animada pelo Espírito.
O autor é Lucas, que escreveu o evangelho de Lucas. Fatos a seu respeito podem ser encontrados no capítulo vinte e sete. Ele escreveu este livro por volta de 63 ou 64 d.C.
Foi dirigido a um indivíduo como uma espécie de continuação da tese anterior e tem como objetivo narrar o crescimento e o desenvolvimento do movimento inaugurado por Jesus, tal como foi realizado pelos apóstolos após a ressurreição e ascensão de Jesus. É amplamente abordada na história da obra cristã entre os gentios e apenas fornece o suficiente da história da igreja de Jerusalém para autenticar a obra entre os gentios. O principal objetivo, portanto, parece ser o de relatar a expansão do cristianismo entre os gentios. Essa visão é reforçada ainda mais pelo fato de que o próprio Lucas era um gentio e que era companheiro de Paulo (Colossenses 4), e da seção “nós” de Atos. O livro não afirma, portanto, ser um relato completo dos trabalhos dos primeiros apóstolos. Mas, de uma maneira simples, definitiva e impressionante, conta como a religião de Jesus foi propagada após sua morte e como foi recebida por aqueles a quem foi pregada pela primeira vez.
No “Deus do Antigo Testamento”, o Pai era o agente ativo. Nos evangelhos, Deus, o Filho (Jesus), foi o agente ativo. Em Atos (e para sempre), Deus, o Espírito Santo, é o agente ativo. Ele é mencionado cerca de setenta vezes em Atos. O Salvador havia dito aos apóstolos que esperassem em Jerusalém pelo poder do Espírito Santo. Até serem dotados de Seu poder, eram homens muito comuns. Posteriormente, eram puros em seus propósitos e ideais e sempre triunfavam em sua causa. O livro é um registro do grande poder espiritual visto em ação em todos os lugares.
(J. B. Tidwell)