O Livro de Obadias é o mais breve de toda a Bíblia hebraica, composto de vinte e um versículos sem divisão em capítulos, e integra o conjunto dos Doze Profetas Menores no Tanakh. O nome do profeta, Obadias, significa em hebraico "servo do Senhor", designação que aparece em outras doze figuras bíblicas distintas, sem que qualquer uma delas possa ser identificada com segurança ao autor deste livro. Sobre o profeta Obadias, a única informação disponível é a que se depreende do próprio texto: era proveniente de Judá, e sua palavra foi suscitada por uma situação histórica de humilhação e traição que marcou profundamente a memória coletiva de seu povo. A ausência de dados biográficos é, neste caso, quase programática — o texto não se interessa pelo mensageiro, mas pela mensagem, e esta é de uma clareza implacável.
O livro articula-se em três movimentos distintos. O primeiro, nos versículos iniciais, pronuncia um oráculo de julgamento contra Edom, anunciando sua humilhação e ruína vindouras apesar de toda a sua arrogância e da ilusão de segurança que as suas fortalezas montanhosas lhe inspiravam. O segundo movimento, nos versículos intermediários, expõe as razões concretas desse julgamento: a conduta de Edom diante da queda de Jerusalém. O povo irmão, descendente de Esaú como Israel era de Jacó, não apenas se manteve indiferente ao sofrimento de Judá, mas colaborou ativamente com os conquistadores, impediu a fuga dos refugiados e saqueou as posses dos vencidos. O terceiro e último movimento projeta o horizonte da restauração de Israel: o monte Sião será lugar de salvação, os exilados retornarão às suas possessões, e o domínio do Senhor se estabelecerá sobre todas as nações.
A questão da datação do livro permanece em aberto entre os estudiosos. A maioria dos exegetas histórico-críticos situa o núcleo original do texto nos anos imediatamente posteriores à conquista de Jerusalém por Nabucodonosor II, em 587 ou 586 antes de Cristo. A acusação de Obadias contra Edom — de ter ficado à margem no dia da desgraça do povo irmão, de ter se alegrado com a destruição, de ter bloqueado as estradas por onde fugiam os sobreviventes e de ter entregado os refugiados ao inimigo — pressupõe um acontecimento traumático ainda vivo na memória, e a queda de Jerusalém é o único evento da história de Israel ao qual esses detalhes se ajustam com plena coerência. Outros exegetas, como Jörg Jeremias, preferem uma datação mais tardia e caracterizam Obadias como representante de uma profecia de cunho escriturístico, que trabalha sobre textos anteriores e os atualiza, tal como se observa também em Joel e no Dêutero-Zacarias. De fato, o livro apresenta extensas coincidências verbais com o capítulo quarenta e nove de Jeremias, e o debate sobre qual texto é o anterior continua sem consenso definitivo.
O pano de fundo histórico ilumina a teologia do livro. A relação entre Israel e Edom era, na tradição bíblica, uma relação de fraternidade originária — os dois povos descendiam dos gêmeos Jacó e Esaú — e por isso a traição de Edom carregava uma dimensão de ruptura especialmente grave: não era apenas um ato político entre nações rivais, mas uma violação do laço mais primordial. O profeta interpreta esse comportamento à luz do princípio da retribuição correspondente: o que Edom fez recairá sobre ele mesmo, e o Dia do Senhor, que já alcançou Israel por suas próprias transgressões, alcançará igualmente todas as nações que agiram com violência e injustiça. Sião, porém, será lugar de refúgio, e a casa de Jacó recuperará o que perdeu.
Na recepção cristã, Obadias foi lido como imagem do julgamento que recai sobre os poderes mundanos que perseguem o povo de Deus, enquanto a promessa de salvação no monte Sião foi interpretada à luz da redenção trazida por Cristo. Paulo, na Carta aos Romanos, retoma a história dos gêmeos Jacó e Esaú para refletir sobre o mistério da eleição divina, que não se apoia em mérito humano mas na liberdade soberana de Deus. A identificação medieval do topônimo Sefarad, mencionado no versículo vinte, com a Hispânia, originou o nome pelo qual as comunidades judaicas da península ibérica passaram a se designar — os sefarditas —, conferindo ao texto uma projeção histórica e identitária que vai muito além de suas dimensões físicas. Breve em extensão, o livro de Obadias é denso em sua teologia: o Senhor não é indiferente à injustiça entre os povos, e a história caminha para um desfecho em que o direito dos humilhados será restabelecido.