Jonas, filho de Amitai, é apresentado na Bíblia hebraica como profeta originário de Gate-Hefer, no reino do Norte de Israel, ativo provavelmente no século VIII antes de Cristo. Uma breve menção no Segundo Livro dos Reis o situa no reinado de Jeroboão II, onde teria anunciado a restauração das fronteiras de Israel. Essa referência histórica é o único ponto de contato seguro entre o profeta como figura real e o livro que leva seu nome, pois a maioria dos estudiosos contemporâneos considera o Livro de Jonas uma composição literária tardia, provavelmente redigida no período persa, com influências linguísticas do aramaico e características culturais que apontam para os séculos V ou IV antes de Cristo. Integra o conjunto dos Doze Profetas Menores no Tanakh e distingue-se de todos os demais livros proféticos por uma característica fundamental: não é uma coleção de oráculos, mas uma narrativa em prosa sobre o próprio profeta, suas resistências, sua fuga e seu desconcertante encontro com a misericórdia de Deus.
A história é conhecida em sua estrutura essencial, mas sua densidade teológica merece atenção cuidadosa. Deus ordena a Jonas que vá à grande cidade de Nínive, capital do Império Neoassírio, e proclame contra ela um oráculo de julgamento. Em vez de obedecer, Jonas embarca num navio em Jope rumo a Társis, na direção oposta. Uma tempestade violenta ameaça a embarcação, e os marinheiros, ao lançarem sortes, descobrem que a causa do perigo é o próprio Jonas. Ele mesmo admite a culpa e pede que o atirem ao mar. Os marinheiros resistem, tentam remar com todas as forças, mas finalmente cedem — e ao fazê-lo, reconhecem a soberania do Deus de Israel e lhe oferecem sacrifícios. Jonas é engolido por um grande peixe, permanece em seu ventre por três dias e três noites, ora a Deus numa salmodia de profunda intensidade poética e é vomitado em terra firme. A segunda chamada divina chega sem comentários: vai a Nínive. Desta vez Jonas obedece.
A pregação em Nínive produz um efeito que nenhum outro profeta bíblico obteve em sua própria nação: toda a cidade, do maior ao menor, se arrepende. O próprio rei desce do trono, cobre-se de saco e cinza e promulga um decreto de jejum e conversão que inclui, num traço de deliberado humor literário, até os animais. Deus vê a conversão dos ninivitas, arrepende-se do mal que havia anunciado e poupa a cidade. É então que a verdadeira crise do livro se revela: Jonas fica indignado. Sabia desde o início que Deus era misericordioso e que acabaria por perdoar a cidade — foi exatamente por isso que fugiu. Preferia a destruição de Nínive à confirmação de uma misericórdia que considerava indevida para com um povo inimigo. A cena final, com a planta que cresce e murcha, e com a pergunta divina sem resposta registrada — "Não deveria eu ter compaixão de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir a direita da esquerda?" —, encerra o livro em suspenso, convidando o leitor a concluir o que Jonas recusou.
A questão do gênero literário é central para a compreensão do livro. Vários estudiosos identificam nele elementos de paródia e sátira: a cidade de Nínive é descrita com dimensões fantásticas, o rei assírio converte-se com uma facilidade que contrasta ironicamente com a obstinação de Israel diante dos seus próprios profetas, e o protagonista — cujo nome significa pomba, símbolo de paz — é o personagem mais resistente à mensagem que porta. O livro parece questionar, com ironia fina, certas atitudes exclusivistas que restringiam a misericórdia de Deus ao círculo de Israel, e apresenta estrangeiros — marinheiros, ninivitas, um rei pagão — como modelos de disposição religiosa genuína.
Na tradição cristã, Jonas ocupa um lugar tipológico privilegiado. O próprio Jesus invocou o sinal de Jonas como anúncio da sua ressurreição: assim como o profeta esteve três dias no ventre do grande peixe, o Filho do Homem estaria três dias no coração da terra. Os Padres da Igreja desenvolveram amplamente essa tipologia, vendo na descida de Jonas ao abismo e no seu retorno à luz uma prefiguração da descida de Cristo à morte e do triunfo da ressurreição. Nos evangelhos de Mateus e Lucas, Jesus acrescenta ainda que os ninivitas, que se converteram à pregação de Jonas, se levantarão no julgamento para condenar a geração que recusou acolher aquele que é maior do que Jonas. Na liturgia judaica, o Livro de Jonas é lido integralmente no Yom Kipur, o Dia da Expiação, como lição central sobre a capacidade de conversão e o alcance universal do perdão divino — memória viva de que a misericórdia de Deus não conhece fronteiras étnicas nem geográficas.