O Livro de Joel pertence ao conjunto dos Doze Profetas Menores no cânon hebraico do Tanakh e ocupa o segundo lugar nessa coleção, situado entre Oseias e Amós. Composto de quatro capítulos de densa elaboração poética, o livro orbita em torno de um único eixo teológico: o Dia do Senhor, aquele momento em que Deus intervém na história com poder soberano para julgar e purificar. O nome do profeta, Joel, filho de Petuel, constitui em si mesmo uma confissão de fé — significa "o Senhor é Deus" —, e a ausência de qualquer enquadramento histórico preciso na abertura do livro não é descuido literário, mas escolha deliberada: o texto quer falar a todas as gerações, e a indeterminação cronológica serve a essa universalidade. A investigação histórico-crítica contemporânea situa a composição do livro predominantemente no período pós-exílico tardio, entre o início e meados do século IV antes de Cristo, na época persa avançada ou nos primórdios da era helenística, com base no vocabulário tardio, na densa intertextualidade com outros escritos bíblicos já consolidados e em referências históricas implícitas como a destruição de Jerusalém e as relações comerciais com os gregos.
A primeira metade do livro, os dois primeiros capítulos, tem caráter predominantemente histórico e litúrgico. Tudo começa com uma catástrofe agrícola de proporções sem precedentes: uma invasão de gafanhotos que devasta as colheitas, arruína os vinhedos e esgota as reservas de grãos, vinho e azeite que sustentavam o culto no Templo. Joel não interpreta essa calamidade natural como mero acidente, mas como sinal divino, como limiar do Dia do Senhor já a irromper no presente. A força literária da descrição é notável: os gafanhotos são comparados a um exército poderoso e disciplinado que avança como aurora, devora como fogo e não conhece obstáculo. Sacerdotes, lavradores, viticultores e anciãos são convocados, cada qual por razões próprias, à prantos e à penitência. O profeta exige um jejum solene, uma assembleia sagrada, uma liturgia de lamentação que mobilize toda a comunidade em torno do santuário. O apelo culmina num dos textos mais densos do Antigo Testamento: "Rasgai os vossos corações e não os vossos vestidos." A conversão exigida não é gestual nem superficial; ela pressupõe um Deus que é misericordioso e compassivo, lento para a ira e rico em benevolência, capaz de se arrepender do mal anunciado. A possibilidade de que o julgamento seja suspenso existe — mas o texto preserva a sobriedade teológica de não transformar essa possibilidade em certeza automática: "Quem sabe se ele não voltará e se não arrependerá?"
Quando a conversão encontra resposta divina, a narrativa vira. Deus promete restituir o que os gafanhotos destruíram, fazer brotar de novo os pastos, encher as eiras de trigo e as dornas de vinho e azeite, e habitar no meio do seu povo como jamais antes. A promessa de restauração não é apenas econômica: é teológica. O Deus que castiga é o mesmo que cura, e a sua presença no meio de Israel — reiterada com o soberano "nunca mais vos envergonhareis" — constitui o horizonte último da salvação. No interior dessa promessa de recuperação material, brota a palavra que definirá o destino do livro na história da revelação: Deus derramará o seu Espírito sobre toda a carne. Filhos e filhas profetizarão, os anciãos terão sonhos, os jovens verão visões, e mesmo os servos e as servas receberão a efusão do Espírito. Essa abertura radical do dom profético a toda a comunidade, independentemente de sexo, idade ou condição social, representa uma das antecipações mais ousadas do Antigo Testamento. Sinais cósmicos — o sol escurecido, a lua tornada sangue — acompanharão o grande e terrível Dia do Senhor, e todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
A segunda metade do livro, os capítulos três e quatro, move-se no registo escatológico. O Dia do Senhor, que nos capítulos anteriores ameaçava Israel, volta-se agora contra as nações que espalharam o povo de Deus, que dividiram a sua terra e venderam seus filhos como escravos. Todas as nações serão reunidas no vale de Josafá para o julgamento divino. A linguagem inverte a famosa imagem de Isaías: enquanto o profeta da consolação anuncia a transformação das espadas em arados, Joel convoca à guerra de Deus — que os fracos digam que são fortes, que as enxadas sejam forjadas em espadas. A inversão não é glorificação da violência, mas expressão da seriedade do julgamento que se aproxima. O livro encerra com uma visão de fertilidade paradisíaca para Israel e de desolação definitiva para os seus opressores históricos, e com a afirmação de que o Senhor habita em Sião para sempre.
Na tradição cristã, o Livro de Joel adquiriu uma centralidade litúrgica inconfundível. A promessa da efusão do Espírito sobre toda a carne foi citada pelo apóstolo Pedro no dia de Pentecostes, conforme os Atos dos Apóstolos, como chave interpretativa para o que a comunidade reunida estava a testemunhar. Paulo, na Carta aos Romanos, retoma a promessa de salvação para todo aquele que invocar o nome do Senhor, identificando esse nome com o de Jesus Cristo. Na liturgia católica, o apelo de Joel à conversão sincera é proclamado na Quarta-Feira de Cinzas, abrindo o tempo quaresmal, enquanto a promessa do Espírito é lida na vigília de Pentecostes. Poucas páginas do Antigo Testamento foram tão profundamente assimiladas pelo culto cristão como instrumento de discernimento espiritual e de esperança escatológica.