O Livro de Esdras pertence ao cânon das Escrituras hebraicas e formou, durante séculos, uma unidade literária com o Livro de Neemias. Os dois textos constituíam um único rolo no hebraico, e somente a tradição cristã latina medieval, consolidada nas Bíblias impressas do início do século XVI, consagrou definitivamente a separação entre eles. Redigido em hebraico e aramaico, o livro narra o retorno dos exilados à terra de Israel após o encerramento do cativeiro na Babilônia, representando, junto com Neemias, o capítulo conclusivo da grande narrativa histórica do Antigo Testamento. Sua estrutura interna divide-se em duas partes bem distintas: a primeira abrange os capítulos um a seis e acompanha o regresso dos primeiros exilados no ano inaugural do reinado de Ciro, o Grande, até a conclusão e dedicação do Segundo Templo em Jerusalém, no sexto ano de Dario I; a segunda parte, dos capítulos sete a dez, narra a missão de Esdras em Jerusalém e seu empenho na pureza da comunidade judaica diante das uniões matrimoniais com povos estrangeiros.
A arquitetura narrativa do livro segue um padrão recorrente e teologicamente significativo: o Deus de Israel move o coração de reis persas para que estes comissionem líderes judeus a cumprir missões específicas. Zorobabel recebe a incumbência de reconstruir o Templo; Esdras, a de purificar a comunidade; e Neemias, cuja atuação pertence ao livro seguinte, a de erguer os muros que separarão a cidade santa do mundo exterior. Essa progressão não é meramente cronológica, mas obedece a uma lógica teológica precisa: primeiro o santuário, depois o povo, e por fim a proteção do espaço sagrado. Os capítulos iniciais são narrados em terceira pessoa e incluem documentos em aramaico inseridos como peças de arquivo: decretos reais, correspondências entre autoridades persas e cartas de oponentes à reconstrução. Os capítulos finais, centrados em Esdras, alternam entre a primeira e a terceira pessoas, conferindo ao relato um caráter memorialístico de maior imediatidade.
O contexto histórico que envolve o livro remonta ao início do século VI antes de Cristo, quando o reino de Judá, ao rebelar-se contra o Império Neobabilônico, foi destruído. A corte real, os sacerdotes, os profetas e os escribas foram deportados para a Babilônia, onde uma profunda renovação intelectual e religiosa teve lugar. Os exilados interpretaram a catástrofe como consequência da desobediência a Deus e cultivaram a esperança de um regresso futuro a Jerusalém. Esse horizonte tornou-se realidade em 539 antes de Cristo, quando Ciro II conquistou a Babilônia e inaugurou uma política de tolerância religiosa que permitiu às populações deportadas retornar às suas terras de origem. O decreto de Ciro, citado no próprio livro, autorizou os judeus a regressar e a reconstruir o Templo, devolvendo-lhes os vasos sagrados que Nabucodonosor havia levado. A questão sobre a autenticidade desses documentos persas inseridos no texto permanece em aberto entre os estudiosos: alguns os consideram genuínos na forma atual; outros admitem um fundo histórico real, ainda que elaborado posteriormente; e há quem os julgue inteiramente composições tardias.
A figura de Esdras, sacerdote e escriba versado na Lei de Moisés, concentra a segunda metade do livro. Ele chega a Jerusalém munido de uma carta do rei Artaxerxes que lhe confere autoridade para ensinar a Lei, nomear juízes e regular a vida religiosa da comunidade. Ao descobrir que muitos judeus, incluindo sacerdotes e levitas, haviam contraído matrimônio com mulheres de povos vizinhos, Esdras rompe as vestes em sinal de consternação e dirige a Deus uma oração de confissão coletiva de profundo alcance teológico: reconhece a culpa do povo, invoca a misericórdia divina e constata que apenas um resto sobreviveu ao julgamento da história. A dissolução desses casamentos, consumada apesar da resistência de uma parte da assembleia, encerra o livro de maneira austera, sem celebração nem reconciliação fácil, como convém a um texto que toma a sério o peso das escolhas humanas diante da aliança.
Do ponto de vista da crítica histórica, a existência e a missão de Esdras como figura histórica continuam sendo objeto de debate, dada a escassez de fontes extrabíblicas que o corroborem. As discussões giram em torno da autenticidade do rescrito de Artaxerxes e da datação precisa da missão de Esdras, que poderia ter ocorrido no reinado de Artaxerxes I, em 458 antes de Cristo, ou no de Artaxerxes II, em 398. A composição final do livro é situada pela maior parte dos estudiosos no período persa tardio, por volta de 370 a 350 antes de Cristo, com acréscimos do período helenístico. Para a tradição cristã, o livro testemunha a providência divina que conduz a história por meio de reis pagãos e líderes fiéis, preparando o povo de Deus para receber, em plenitude de tempo, a Palavra definitiva que o próprio Esdras, homem da Escritura, anunciava ao ler e interpretar a Lei diante da assembleia reunida.