Oseias, cujo nome hebraico significa "o Senhor salvou", foi um profeta escriturário do reino do Norte de Israel, ativo aproximadamente entre 750 e 725 antes de Cristo. Filho de Beeri, segundo o testemunho do próprio livro, ele inaugura o chamado Livro dos Doze Profetas no cânon hebraico do Tanakh, constituindo uma das vozes mais apaixonadas e teologicamente densas de toda a profecia bíblica. Sua mensagem não se articula pela frieza da sentença jurídica, mas pela ardência de quem conhece o amor traído por dentro: é a experiência conjugal do próprio profeta que se torna o espelho privilegiado da relação entre Deus e Israel. O livro, em sua forma atual, estrutura-se em três grandes seções, enquadradas por uma abertura e um fecho de tom sapiencial, com a divisão em catorze capítulos introduzida apenas na Idade Média.
Os três primeiros capítulos formam um bloco coeso de extraordinária força simbólica. Oseias recebe a ordem divina de desposar Gômer, filha de Diblaim, mulher de conduta infiel, cuja trajetória tornará visível, na carne do próprio profeta, a infidelidade de Israel para com o seu Deus. O nascimento dos filhos transforma-se em ato profético: o primeiro recebe o nome de Jezreel, evocação do massacre que selou a dinastia de Jeú; a filha é chamada Lo-Ruhamá, "sem misericórdia"; e o segundo filho, Lo-Ami, "não é meu povo". Os nomes progridem como uma sentença que se fecha. No centro da seção, uma longa palavra divina expõe a lógica da infidelidade de Israel, que abandona o Senhor em busca dos favores de outros deuses, como uma esposa que deixa o marido pelos amantes. Mas essa palavra de julgamento é flanqueada, de ambos os lados, por anúncios de salvação que revertem os nomes de condenação: a sem-misericórdia será chamada de misericórdia, e o não-meu-povo voltará a ser meu povo. No terceiro capítulo, Oseias é instado a retomar uma mulher adúltera, e a abstinência que lhe impõe reflete o tempo de espera a que Israel será submetido antes de regressar ao seu Senhor. O versículo final abre uma perspectiva escatológica em que os filhos de Israel buscarão o Senhor seu Deus e Davi, seu rei, no fim dos dias. Esse acréscimo de horizonte mesiânico aponta para uma redação que amadureceu no ambiente do exílio, quando a esperança em um descendente davídico voltava a animar o povo disperso.
A segunda parte do livro, do quarto ao décimo primeiro capítulo, é a mais extensa e complexa. Uma grande acusação inaugural traça o panorama geral do mal: no país não há fidelidade, nem amor, nem conhecimento de Deus; ao contrário, imperam o perjúrio, a mentira, o homicídio, o roubo e o adultério. As infrações às demais leis decorrem diretamente do rompimento do primeiro mandamento, que impõe a Deus um amor exclusivo. O restante da seção desdobra-se em dois blocos bem compostos, cada um com cinco subdivisões. O primeiro bloco expõe as duas grandes culpas de Israel: o esquecimento de Deus no culto e o esquecimento de Deus na política. Os sacerdotes figuram como os primeiros responsáveis pela ruína do povo, pois se alimentam do pecado alheio e corrompem o santuário com práticas de fertilidade herdadas de Canaã. A crítica política não é menos severa: as alianças oscilantes entre a Assíria e o Egito são denunciadas como a face exterior de uma religiosidade fundamentalmente falsa. O profeta vai longe nessa denúncia: não apenas o culto aos deuses estrangeiros, mas o próprio culto sacrificial oferecido ao Senhor nas formas herdadas de Canaã constitui idolatria, pois reduz Deus a garantidor de fertilidade e prosperidade. A frase de Oseias que Jesus retomará séculos depois sintetiza a exigência divina: "Quero o amor e não o sacrifício, o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos". O segundo bloco remonta à história das origens para contrastar a ternura da condução divina com a ingratidão persistente do povo. A seção culmina em um dos textos mais impressionantes do Antigo Testamento: Deus fala como pai que carregou seu filho nos braços, que o ensinou a caminhar e que, diante da iminência do castigo, sente o coração revolver-se de compaixão. "Como poderia eu abandonar-te, Efraim? Como entregar-te, Israel?". A decisão de não executar o furor da ira funda-se na diferença radical entre Deus e o homem: "Sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti". Teólogos como Jürgen Moltmann viram nessa passagem uma correção profética de qualquer teologia que reduzisse Deus a impassibilidade absoluta: o julgamento, a dor, o arrependimento e o novo abraço são momentos inseparáveis e reais do amor divino revelado na história de Israel.
A terceira parte, dos capítulos doze a catorze, funciona como síntese e remate. Retomando os grandes eixos da proclamação profética após a queda de Samaria, esses capítulos encerram-se com um convite à conversão — "Volta, Israel, ao Senhor teu Deus" — e com uma promagem de restauração em que Deus promete amar o povo espontaneamente e ser para ele como orvalho que faz florescer o lírio. Na prática sinagogal, esse convite à conversão, lido no Shabat entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, batizou aquele dia com o nome de Shabat Shuvá, o Sábado do Retorno, inserindo Oseias no coração do ciclo penitencial judaico. Na tradição cristã, o profeta é recebido como voz que antecipa a lógica da nova aliança: a misericórdia que supera o sacrifício, o amor que atravessa a infidelidade e o Deus que, pelo caminho do sofrimento, reconduz à vida aqueles que havia eleito.