Que os povos louvem ao Senhor.
1Louvai ao Senhor, todas as nações;
Louvai-O, todos os povos.
2Pois Sua misericórdia é grande para conosco;
E a verdade do Senhor dura para sempre.
Louvado seja o Senhor!
O centésimo décimo sétimo salmo, conforme a ordenação do Texto Massorético hebraico, representa uma peça singular no saltério bíblico, distinguindo-se formalmente como o capítulo mais breve de todas as Escrituras. Na contagem preservada pela Septuaginta grega e pela Vulgata Latina, a composição recebe a numeração de Salmo oitenta e sete, sendo amplamente reconhecida na tradição eclesial ocidental pelo seu incipit latino Laudate Dominum. Constituído por apenas dois versículos que somam dezessete palavras no idioma original, o hino possui uma identidade teológica tão definida que, embora alguns manuscritos antigos de eruditos hebraístas o fundissem com os poemas adjacentes, ele se estabelece como o ponto culminante do Hallel, a solene sequência de louvor recitada nas grandes solenidades judaicas. A estrutura literária do poema reflete um paralelismo poético rigoroso e equilibrado, articulando dois chamados universais à adoração dirigidos a todas as nações no primeiro versículo, seguidos pelas duas razões fundamentais da aclamação no versículo subsequente: a fidelidade e a misericórdia eternas do Senhor.
Sob a ótica da exegese cristã e da eclesiologia neotestamentária, a brevidade do texto contrasta com a amplitude de seu alcance profético, interpretado como o anúncio antecipado da difusão universal do Evangelho. Na Epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo cita expressamente este salmo para fundamentar tecnicamente a inclusão dos gentios na aliança divina, demonstrando que a redenção operada em Jesus Cristo estende a glorificação a todos os povos, cumprindo a promessa abraâmica de que a descendência patriarcal abençoaria a terra inteira. Esse caráter soteriológico conferiu ao salmo um lugar de destaque na liturgia católica, integrando historicamente o ofício de vésperas na Regra de São Bento e mantendo-se na moderna Liturgia das Horas. No rito romano, a peça é tradicionalmente concluída com a doxologia trinitária e entoada de maneira solene após a bênção com o Santíssimo Sacramento, prática igualmente partilhada por comunidades anglicanas e reformadas que enxergam na proclamação um estímulo para o zelo apostólico e a conversão universal.
A concisão e a força lírica do texto exerceram um impacto profundo na musicologia sacra, motivando releituras de compositores de variadas épocas e tradições eclesiásticas. No período renascentista e barroco, o salmo recebeu arranjos polifônicos e instrumentais de William Byrd e Heinrich Schütz, além de sete tratamentos distintos compostos por Marc-Antoine Charpentier e do motete alemão Lobet den Herrn, alle Heiden de Johann Sebastian Bach. A adaptação mais difundida no repertório clássico ocidental constitui o quinto movimento das Vésperas Solenes para um Confessor de Wolfgang Amadeus Mozart, peça em que a melodia é conduzida por um solo de soprano apoiado pelo coro. A expressividade do hino estendeu-se ainda ao gradual da Missa de Coroação Húngara de Ferenc Liszt, a arranjos ecumênicos contemporâneos da Comunidade de Taizé e até a incursões na música popular, evidenciando a perenidade deste convite universal à exaltação da verdade divina.
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