Segundo Concílio de Constantinopla.
O Segundo Concílio de Constantinopla, convocado pelo imperador Justiniano I em 553 e realizado na capital do Império Bizantino, foi o quinto concílio ecumênico reconhecido pelas Igrejas Católica e Ortodoxa. Participaram dele cento e cinquenta e dois bispos, em sua maioria provenientes do Oriente, enquanto a representação ocidental foi relativamente pequena. O principal objetivo da assembleia era superar as divisões que permaneciam na Igreja desde o Concílio de Calcedônia e reafirmar a unidade da fé cristã em torno da correta compreensão da pessoa de Jesus Cristo.
O tema central do concílio foi a chamada controvérsia dos Três Capítulos. Essa expressão se referia a determinados escritos e autores ligados à tradição teológica de Antioquia que eram considerados suspeitos de favorecer interpretações próximas ao nestorianismo. Entre eles estavam os escritos de Teodoro de Mopsuéstia, alguns textos de Teodoreto de Ciro e uma carta de Ibas de Edessa. Ao condenar esses documentos, Justiniano e os bispos conciliares pretendiam demonstrar que a doutrina definida em Calcedônia não continha qualquer traço de nestorianismo e permanecia plenamente fiel aos ensinamentos dos Concílios de Nicéia e Éfeso. Dessa forma, reafirmava-se também a legitimidade do título Theotokos ("Mãe de Deus") dado à Virgem Maria.
Do ponto de vista teológico, o concílio reforçou a doutrina da Encarnação ao declarar que Jesus Cristo é uma única pessoa divina, o Verbo eterno de Deus, em quem subsistem inseparavelmente a natureza divina e a natureza humana. As definições de 553 não alteraram os ensinamentos de Calcedônia, mas procuraram explicá-los de forma mais precisa à luz da tradição de Cirilo de Alexandria. Os bispos insistiram que todas as ações e experiências de Cristo pertencem a um único sujeito, o Filho de Deus. Assim, pode-se afirmar que o próprio Verbo sofreu na carne e morreu pela salvação da humanidade, sem que Sua divindade deixasse de permanecer imutável.
Os trabalhos do concílio ocorreram em um contexto de forte tensão entre o imperador e a Sé de Roma. O Papa Vigílio encontrava-se em Constantinopla, mas inicialmente recusou-se a participar das sessões e se opôs à condenação dos Três Capítulos, temendo que essa medida enfraquecesse a autoridade do Concílio de Calcedônia. Diante desse impasse, os bispos reunidos sob a presidência do Patriarca Eutíquio prosseguiram seus trabalhos sem a participação efetiva do pontífice. Após longas negociações e intensa pressão política, Vigílio acabou aceitando as decisões do concílio e confirmou a condenação dos escritos contestados.
A recepção dessas decisões provocou novas tensões, especialmente no Ocidente. Em algumas regiões do norte da Itália, como Milão e Aquileia, surgiram movimentos de resistência que acusavam Roma de ter cedido às pressões do imperador e de ter comprometido a herança doutrinária de Calcedônia. Esse conflito ficou conhecido como Cisma dos Três Capítulos e perdurou por várias décadas. Críticas semelhantes também apareceram em partes da África e da Espanha visigótica, onde muitos bispos viam com preocupação a forte interferência do poder imperial nos assuntos da Igreja.
Apesar das controvérsias e de não ter conseguido reunificar definitivamente todas as correntes cristãs do Oriente, o Segundo Concílio de Constantinopla exerceu influência duradoura na teologia cristã. Suas definições ajudaram a esclarecer a doutrina sobre a pessoa de Cristo e prepararam o terreno para os debates posteriores sobre a existência de vontade e operação humanas em Jesus, questões que seriam tratadas nos concílios seguintes.
Ao reafirmar a herança doutrinária de Nicéia, Éfeso e Calcedônia, a assembleia de 553 contribuiu para consolidar a compreensão cristã de que Jesus Cristo é uma única pessoa divina que possui plenamente tanto a natureza humana quanto a natureza divina. Dessa forma, o concílio fortaleceu a coerência interna da cristologia tradicional e deixou um legado importante para o desenvolvimento da teologia bizantina e da doutrina cristã em geral.