Terceiro Concílio de Constantinopla.
O Terceiro Concílio de Constantinopla, realizado entre 680 e 681 por iniciativa do imperador Constantino IV, foi o sexto concílio ecumênico reconhecido pelas Igrejas Católica e Ortodoxa. As sessões ocorreram no Trullo, uma sala do palácio imperial em Constantinopla, e contaram com a participação de mais de cento e cinquenta bispos e representantes das principais sedes cristãs. O objetivo da assembleia era resolver uma longa controvérsia teológica relacionada à pessoa de Jesus Cristo, especialmente sobre a existência de uma ou duas vontades em Cristo.
A origem dessa controvérsia remonta ao século VII. Na época, os imperadores Heráclio e Constante II procuravam restaurar a unidade religiosa do Império Bizantino, que enfrentava graves desafios externos, como as invasões persas e a expansão islâmica. Para aproximar os cristãos que aceitavam o Concílio de Calcedônia daqueles ligados à tradição miafisita, foram propostas fórmulas de compromisso. Primeiro surgiu o monoenergismo, segundo o qual Cristo teria uma única energia ou modo de agir. Mais tarde, desenvolveu-se o monotelismo, que afirmava haver em Cristo apenas uma vontade. Embora essas propostas tenham obtido apoio em parte do Oriente, encontraram forte resistência em Roma e Jerusalém.
Os opositores dessas doutrinas argumentavam que elas comprometiam a verdadeira humanidade de Cristo. Entre os principais defensores da fé tradicional destacaram-se o Papa Martinho I e São Máximo, o Confessor. Ambos sustentavam que, se Jesus assumiu plenamente a natureza humana, deveria possuir também uma vontade humana verdadeira. Por defenderem essa posição, sofreram perseguição, foram exilados e se tornaram símbolos da resistência às tentativas de impor uma solução teológica por meio da autoridade imperial.
Quando o concílio se reuniu, a questão central era determinar se Cristo possuía apenas uma vontade ou duas vontades correspondentes às suas duas naturezas. Após examinar as Escrituras, os escritos dos Padres da Igreja e as cartas do Papa Ágato, os bispos concluíram que Jesus Cristo possui duas naturezas completas, divina e humana, e que, por isso, possui também duas vontades e duas operações naturais: uma divina e outra humana.
O concílio ensinou que essas duas vontades não estão em conflito. A vontade humana de Cristo permanece perfeitamente harmonizada com Sua vontade divina e age em plena obediência a ela. Dessa forma, preserva-se tanto a realidade de Sua humanidade quanto a unidade de Sua pessoa. Essa definição foi considerada essencial para a doutrina da salvação, pois aquilo que Cristo não assumiu plenamente não poderia ser plenamente redimido.
Durante os debates, o principal defensor do monotelismo foi o Patriarca Macário de Antioquia. Por se recusar a abandonar seus ensinamentos, ele foi deposto e excomungado juntamente com seus seguidores. O concílio também condenou diversas autoridades eclesiásticas que haviam apoiado o monotelismo ao longo das décadas anteriores, entre elas alguns patriarcas de Constantinopla. Além disso, censurou o Papa Honório I por ter contribuído para a difusão da controvérsia ao utilizar expressões consideradas ambíguas e por não ter combatido o erro com a necessária firmeza. Posteriormente, as decisões do concílio foram aprovadas pelo Papa Leão II, o que confirmou sua autoridade ecumênica.
As definições do Terceiro Concílio de Constantinopla consolidaram a cristologia desenvolvida nos concílios anteriores de Nicéia, Éfeso e Calcedônia. Ao afirmar que Cristo possui duas vontades e duas operações correspondentes às Suas duas naturezas, o concílio completou a explicação doutrinária sobre a união entre a divindade e a humanidade em Jesus.
Além de resolver uma controvérsia que durava havia décadas, o concílio contribuiu para restaurar a comunhão entre Roma e grande parte do Oriente cristão. Seu ensinamento tornou-se um marco da teologia cristã, ao reafirmar que Jesus é plenamente Deus e plenamente homem, possuindo todas as características próprias de cada natureza. Assim, o Terceiro Concílio de Constantinopla deixou um legado duradouro para a compreensão do mistério da Encarnação e da Redenção, confirmando que a obra salvadora de Cristo envolve a totalidade da natureza humana assumida pelo Verbo de Deus.