Uma oração por proteção e direção.
¹Dá ouvidos às minhas palavras, ó Senhor;
Considera a minha meditação.
²Atende à voz do meu clamor,
Meu Rei e meu Deus,
Pois a Ti orarei.
³Senhor, pela manhã ouvirás a minha voz;
Pela manhã apresentarei a Ti a minha oração
E aguardarei.
⁴Porque Tu não és um Deus que Se agrada da impiedade;
Nem o mal habitará contigo.
⁵Os insensatos não permanecerão diante dos Teus olhos;
Tu odeias todos os que praticam a iniquidade.
⁶Destruirás os que falam mentira;
O Senhor abominará o homem sanguinário e enganador.
⁷Mas eu entrarei na Tua casa Pela grandeza da Tua misericórdia;
E, no Teu temor, adorarei Voltado para o Teu santo templo.
⁸Guia-me, Senhor, na Tua justiça,
Por causa dos meus inimigos;
Endireita diante de mim O Teu caminho.
⁹Porque não há fidelidade na boca deles;
O seu interior é pura maldade;
A sua garganta é um sepulcro aberto;
Lisonjeiam com a sua língua.
¹⁰Destrói-os, ó Deus;
Que caiam por causa dos seus próprios conselhos.
Expulsa-os por causa da multidão das suas transgressões,
Pois se rebelaram contra Ti.
¹¹Mas alegrem-se todos os que confiam em Ti;
Que cantem de júbilo para sempre,
Porque Tu os defendes;
E exultem em Ti também os que amam o Teu nome.
¹²Pois Tu, Senhor, abençoarás o justo;
Tu o cercarás de favor como de um escudo.
O quinto Salmo do Livro dos Salmos (designado Verba mea auribus percipe Domine na Vulgata Latina) constitui a primeira oração matutina individual de lamentação do Saltério, composto por doze versículos (treze na contagem massorética). Atribuído ao rei Davi e dirigido ao mestre de música para acompanhamento de flautas (al-hanechiloth ou nehiloth — termo traduzido na Septuaginta e na Vulgata como "aqueles que recebem a herança"), o poema atua como um clamor por orientação e proteção contra a iniquidade dos opressores. Sob a perspectiva da engenharia literária veterotestamentária, a perícope inaugura uma série de cinco salmos consecutivos (Salmos 5 a 9) centrados na revelação do "Nome de Deus", introduzindo formalmente a metáfora dos ímpios cuja garganta é um "sepulcro aberto" (gever patuach), imagem posteriormente incorporada pelo apóstolo Paulo na sua compilação teológica sobre a depravação humana (Romanos 3:13).
O desenvolvimento poético e espiritual do salmo estrutura-se na transição da angústia matutina para a certeza da bênção divina. Na primeira seção (versículos 1 a 3), o salmista apresenta a sua oração ao alvorecer, declarando que pela manhã o Senhor ouve a sua voz e contempla a sua expectativa. Na seção central (versículos 4 a 10), o texto estabelece a absoluta incompatibilidade entre a santidade de Deus e a permanência do mal, denunciando os arrogantes, os mentirosos e os homens sanguinolentos; em contrapartida, o salmista afirma que entrará no Templo pela grandeza da misericórdia (chesed) divina, suplicando que o Altíssimo endireite o seu caminho e julgue os opositores, fazendo-os cair pelos seus próprios conselhos. O poema conclui (versículos 11 e 12) em tom de exultação, convidando os que se refugiam no Senhor a cantarem de alegria sob a Sua proteção, assegurando que o Altíssimo abençoa o justo e o cerca do Seu favor como com um escudo (tzinnah).
A recepção litúrgica e artística do Salmo 5 é de notável relevância nas tradições judaica e cristã. No judaísmo, o versículo sete ("Eu, porém, entrarei em tua casa pela grandeza da tua misericórdia") constitui a abertura da oração matutina Ma Tovu ao ingressar na sinagoga. Na tradição litúrgica Ocidental, a Regra de São Bento (530 d.C.) consagrou o Salmo 5 para o ofício das Laudes de segunda-feira, uso preservado na Liturgia das Horas, enquanto na Igreja Copta integra as orações de Prime do Agpeya. A profundidade de sua súplica inspirou obras da música sacra, como o coral An geystlich Bitlied (1537) de Caspar Othmayr, o hino Herr, hör, was ich will bitten dich (SWV 101) de Heinrich Schütz, o moteto Lord, hear the voice de Felix Mendelssohn (1839) e o ofertório Intende voci orationis meæ de Edward Elgar, composto para a coroação do rei Jorge V em 1911. Sob o prisma do desígnio salvífico, o Salmo 5 pré-figura a perfeita oração do Justo que se abriga na graça do Pai contra as mentiras do mundo.
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