Uma oração em meio à aflição.
¹Ó Senhor, não me repreendas na Tua ira,
Nem me castigues no Teu ardente desagrado.
²Tem misericórdia de mim, ó Senhor,
Porque estou fraco; Ó Senhor, cura-me,
Porque os meus ossos estão perturbados.
³A minha alma também está profundamente perturbada;
Mas Tu, ó Senhor, até quando?
⁴Volta-Te, ó Senhor, Livra a minha alma;
Salva-me por causa das Tuas misericórdias.
⁵Pois na morte não há lembrança de Ti;
Na sepultura, quem Te dará graças?
⁶Estou cansado com os meus gemidos;
Toda a noite faço nadar a minha cama;
Molho o meu leito com as minhas lágrimas.
⁷O meu olho está consumido pela tristeza;
Envelhece por causa de todos os meus inimigos.
⁸Afastem-se de mim, todos vocês que praticam a iniquidade,
Porque o Senhor ouviu a voz do meu choro.
⁹O Senhor ouviu a minha súplica;
O Senhor receberá a minha oração.
¹⁰Que todos os meus inimigos sejam envergonhados
E profundamente perturbados;
Que voltem atrás
E sejam repentinamente envergonhados.
O sexto Salmo do Livro dos Salmos (designado Domine ne in furore tuo arguas me na Vulgata Latina) atua como o primeiro dos sete Salmos Penitenciais da tradição cristã — conforme sistematizado por Cassiodoro no século VI —, composto por dez versículos no Texto Masorético. Atribuído ao rei Davi e executado sobre a oitava (al-hashminith, possivelmente uma escala de oito notas ou instrumento de oito cordas), o poema traduz o clamor de uma alma profundamente abatida sob o peso da disciplina e da enfermidade, rogando pelo livramento do Altíssimo. Sob a perspectiva da engenharia literária e teológica veterotestamentária, a perícope sobressai-se como um modelo categórico da estrutura de lamentação individual, articulando a angústia psicossemântica e física com o abrupto e vitorioso brado de confiança final.
O desenvolvimento poético organiza-se em três cenas bem delineadas pelo ponto de vista enunciativo. Na primeira seção (versículos um a três), o salmista suplica para não ser repreendido na ira de Deus, expõe a fraqueza de seus ossos abalados e clama com a clássica interrogação existencial: "Até quando, Senhor?". Na seção intermediária (versículos quatro a sete), o poema aprofunda o esgotamento do penitente, que alaga o seu leito de lágrimas e desgasta os seus olhos de dor, apelando à misericórdia (chesed) divina com o argumento de que na morte (sheol) não há memória do Criador. Por fim (versículos oito a dez) — cuja exortação "Afastai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade" é citada por Jesus em Mateus 7:23 —, ocorre uma dramática reviravolta: o salmista declara que o Senhor ouviu a voz do seu pranto, assegurando que todos os seus inimigos serão envergonhados e subitamente repelidos.
A recepção litúrgica, teológica e artística do Salmo seis é vasta e influente, integrando as preces penitenciais do Tachanun no judaísmo e as orações das Quarta-feiras de Cinzas na tradição anglicana e ocidental, além do ofício de Prime no Agpeya copta e na Regra de São Bento. Historicamente estimado no período da Reforma Protestante — sendo traduzido por Margarita de Navarra (1532) e pela rainha Isabel I de Inglaterra (1544) em sua juventude —, o poema inspirou o hino métrico Straf mich nicht in deinem Zorn de Johann Georg Albinus, harmonizado por Johann Sebastian Bach (BWV 338), bem como arranjos hínicos de Heinrich Schütz (SWV 24 e 102), o grand motet de Henry Desmarest (1713), e a fantasia de coral para órgão (Op. 40) de Max Reger. Sob o prisma do desígnio salvífico, o Salmo seis antecipa o agonizante clamor do Messias, que assume as dores humanas para transmutar a aflição da morte na vitória da restauração divina.
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