A Carta aos Efésios é o décimo livro do Novo Testamento e uma das chamadas cartas da prisão, assim designadas porque o autor se apresenta como prisioneiro. A questão da autoria é uma das mais debatidas da introdução ao Novo Testamento: a tradição atribui a carta a Paulo de Tarso, e o primeiro versículo confirma essa identificação, mas a partir do final do século XVIII um número crescente de estudiosos levantou objeções com base no estilo, no vocabulário e na teologia do texto. Estudos contemporâneos mostram que aproximadamente oitenta por cento da investigação crítica considera a carta deuteropaulina, isto é, redigida por um discípulo de Paulo que escreve em seu nome e sob a autoridade do seu pensamento. Os que defendem a autoria paulina situam a composição por volta de 62, durante o primeiro encarceramento romano; os que a atribuem a um autor posterior datam-na entre 70 e 100, provavelmente como carta circular destinada a várias comunidades.
A ausência da expressão "em Éfeso" nos manuscritos mais antigos e mais fidedignos, incluindo o papiro 46 e as versões utilizadas por Tertuliano e Orígenes, reforça a hipótese de que o texto não foi originalmente endereçado à comunidade específica de Éfeso mas circulou por diversas igrejas da Ásia Menor. A isso se acrescenta o tom marcadamente impessoal da carta, desprovida dos cumprimentos e referências pessoais que Paulo habitualmente incluía quando escrevia a comunidades que conhecia bem — e ele havia passado mais de dois anos em Éfeso, cidade da qual partiu com profundo laço afetivo, como atesta o discurso de despedida em Mileto nos Atos dos Apóstolos. A hipótese de uma carta circular, com espaço em branco destinado a receber o nome da comunidade destinatária em cada cópia, tem sido avançada por vários comentadores.
Do ponto de vista literário, a carta apresenta frases gregas de extraordinária extensão e complexidade — a secção inicial, do versículo terceiro ao vigésimo terceiro do primeiro capítulo, constitui no original apenas duas longas orações —, além de um vocabulário com termos raros ou ausentes nas cartas paulinas indiscutíveis. Esses traços estilísticos, associados à semelhança estrutural com a Carta aos Colossenses, que a carta aos Efésios parece retomar e ampliar para um contexto mais universal, sustentam a tese da autoria posterior. Ao mesmo tempo, a profundidade teológica e a coerência interna do texto garantiram-lhe um lugar de relevo no cânon desde os primeiros séculos, e a Igreja reconheceu-a como paulina independentemente das questões de autoria direta.
O conteúdo da carta organiza-se em duas partes que se complementam: uma doutrinária e uma exortativa. A parte doutrinária expõe o plano eterno de Deus de reunir toda a criação sob o senhorio de Cristo, a incorporação dos gentios ao povo de Deus, a derrubada do muro de separação entre judeus e gregos e a constituição de um único povo novo, e a missão apostólica de proclamar este mistério anteriormente oculto e agora revelado. O texto apresenta a Igreja como corpo de Cristo, templo do Espírito Santo e esposa do Senhor — imagens que sublinham simultaneamente a sua origem divina, a sua unidade orgânica e a sua dimensão universal. A Igreja não é apenas um conjunto de comunidades locais mas a manifestação histórica de um projeto que abrange toda a humanidade e toda a criação.
A segunda parte da carta tira as consequências éticas dessa visão teológica. O crente é exortado a viver de acordo com a vocação que recebeu, a preservar a unidade no vínculo da paz, a renovar-se no espírito da mente e a revestir-se do homem novo criado segundo Deus. As instruções práticas estendem-se às relações domésticas — esposos e esposas, pais e filhos, patrões e servos —, configurando o que os estudiosos designam por código doméstico, que a carta enquadra na lógica do amor de Cristo pela Igreja. A secção final recorre à metáfora da armadura do soldado para descrever os recursos espirituais do crente no combate contra as forças das trevas.
Para a tradição cristã, a Carta aos Efésios é talvez o texto mais elaborado sobre a natureza e a missão da Igreja. A sua afirmação de que Cristo é a cabeça que comunica vida e crescimento ao corpo, de que a Igreja une em si povos de todas as nações, de que o mistério da redenção foi preparado antes da criação do mundo e revelado na plenitude dos tempos, constitui uma das sínteses eclesiológicas mais ricas do Novo Testamento. João Crisóstomo, Agostinho e Tomás de Aquino dedicaram-lhe comentários extensos, e a liturgia continua a recorrer aos seus textos para articular a consciência que a Igreja tem de si mesma perante Deus e perante o mundo.