O Livro de Zacarias é um texto judaico atribuído ao profeta Zacarias, que atuou no final do século VI antes de Cristo, e integra o conjunto dos Doze Profetas Menores na Bíblia hebraica. No cânon cristão, constitui um livro separado composto de catorze capítulos, sendo um dos mais extensos e teologicamente complexos entre os profetas menores. O nome do profeta, que em hebraico significa "Deus se lembrou", enuncia já o programa teológico fundamental do livro: a convicção de que Deus não abandonou o seu povo e que o retorno do exílio é sinal da sua fidelidade às promessas. Zacarias era provavelmente sacerdote além de profeta — a sua atenção constante ao Templo, ao sacerdócio e às questões de pureza ritual, bem como a menção do seu avô Ido como chefe de uma família sacerdotal que regressou com Zorobabel, apontam nessa direção.
O livro compõe-se de duas grandes partes de caráter muito distinto, e a maioria dos estudiosos modernos atribui a sua autoria a pelo menos dois autores diferentes. Os primeiros oito capítulos, conhecidos como Primeiro Zacarias, foram escritos no século VI antes de Cristo e contêm os oráculos do profeta histórico, contemporâneo de Ageu, cujas profecias se inscrevem no reinado de Dario I. Os capítulos nove a catorze, chamados Segundo Zacarias, não apresentam referências históricas datáveis e são situados pela maioria dos estudiosos no século V antes de Cristo, no período persa tardio ou nos primórdios da época ptolemaica. Alguns exegetas subdividem ainda esta segunda parte em Segundo e Terceiro Zacarias, dado que os capítulos doze a catorze iniciam com um cabeçalho oracular próprio. A influência do profeta Ezequiel sobre as visões de Zacarias é reconhecida pelos estudiosos: a fusão de cerimonial e visão que caracteriza Ezequiel marcou profundamente a linguagem e a imaginação do Primeiro Zacarias.
O contexto histórico que enquadra o livro é o mesmo do Livro de Ageu: a comunidade judaica que regressou do exílio babilônico enfrenta a tarefa de reconstruir o Templo destruído em 587 antes de Cristo e de reconfigurar a sua identidade religiosa e política sob domínio persa. Dario I havia reorganizado o império em províncias, e Zorobabel fora nomeado governador de Judá, agora designada oficialmente como província de Yehud. A política persa de manutenção de relações cordiais com os povos subjugados favorecia a reconstrução dos santuários locais, e o povo judaico interpretou essa abertura como bênção divina. É nesse ambiente de possibilidade e fragilidade simultaneamente que Zacarias emerge com uma palavra de encorajamento e orientação.
A primeira parte do livro abre-se com um prólogo que evoca a responsabilidade dos profetas anteriores e convida o povo à conversão genuína, não à mera repetição dos erros que levaram ao exílio. Segue-se uma sequência de oito visões noturnas que formam um conjunto literário de grande riqueza simbólica: cavalos patrulhando a terra, chifres e ferreiros, um homem com cordel de medir, o sumo sacerdote Jesua diante do anjo do Senhor, o candelabro de ouro e as duas oliveiras, o rolo voador, a mulher na efa e os quatro carros. Cada visão comunica, com linguagem simbólica densa, a mensagem central de que Deus voltou a agir em favor de Jerusalém e que a reconstrução do Templo está sob a sua proteção. A coroação simbólica de Jesua, descrita no sexto capítulo, aponta para a figura do Rebento que reunirá as funções real e sacerdotal — uma das passagens messiânicas mais ricas do Antigo Testamento. Dois capítulos de oráculos sobre o jejum e a qualidade da vida comunitária completam esta primeira seção, com promessas abundantes de bênção para Jerusalém restaurada.
A segunda parte do livro assume um registo profético e apocalíptico de maior abrangência. Os dois grandes oráculos que constituem os capítulos nove a catorze descrevem o curso providencial da história até à vinda do Messias, o julgamento das nações, o pastor rejeitado e os trinta siclos de prata, a efusão do Espírito sobre a casa de Davi, e a batalha final seguida da vitória definitiva do Senhor. Estas páginas tornaram-se fundamentais para a compreensão cristã da paixão, morte e ressurreição de Jesus: os evangelistas recorreram repetidamente a Zacarias para interpretar os últimos dias do Senhor — a entrada em Jerusalém sobre um jumento, os trinta dinheiros de prata de Judas, o pastor ferido e o rebanho disperso, o lado traspassado. Para a Igreja, Zacarias é um dos profetas que com maior densidade apontou para Cristo, e o Livro do Apocalipse absorveu largamente as suas imagens ao narrar o desfecho da história.