A Carta de Paulo aos Romanos é um dos textos mais influentes da história do pensamento cristão ocidental e pertence ao grupo das sete cartas cuja autenticidade paulina é amplamente aceita pela exegese contemporânea. Escrita em grego, a língua franca do Mediterrâneo oriental, a carta foi composta provavelmente no inverno de 55 ou 56, durante uma estadia de Paulo em Corinto, pouco antes de ele partir para Jerusalém com a coleta destinada à comunidade-mãe. Ao contrário das suas outras cartas, a de Romanos não responde a situações ou conflitos específicos de uma comunidade que ele próprio fundou. Paulo não conhecia pessoalmente a maioria dos cristãos de Roma, e o escrito tem por isso um caráter mais sistemático e expositivo: é uma apresentação ampla e cuidadosamente estruturada do Evangelho que ele proclamava, dirigida a uma comunidade com a qual queria estabelecer laços para financiar a futura missão na Hispânia.
A carta abre com um prólogo que apresenta Paulo e enuncia o tema central nos versículos dezesseis e dezessete do primeiro capítulo: o Evangelho é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, para o judeu primeiro e também para o grego, e nele se revela a justiça de Deus, de fé em fé, conforme está escrito que o justo viverá pela fé. Essa frase, tirada do profeta Habacuque, tornou-se uma das mais debatidas de toda a história da interpretação bíblica. O significado de "justiça de Deus" divide os exegetas entre os que a entendem como atributo divino — a fidelidade de Deus às suas promessas — e os que a leem como dom concedido ao crente. A Reforma protestante inclinou-se para a segunda interpretação, e Lutero relata que foi através dessa compreensão que ele experimentou o que chamou de uma espécie de renascimento espiritual.
A estrutura argumentativa da carta pode ser dividida em quatro grandes blocos. O primeiro expõe a situação de perdição em que se encontra toda a humanidade sem o Evangelho: tanto os gentios, que recusaram reconhecer o Deus visível na criação, quanto os judeus, que possuem a Lei mas não a cumprem integralmente. A conclusão é que ninguém pode apresentar perante Deus uma justificação baseada nas próprias obras. O segundo bloco desenvolve a resposta divina: pela fé em Jesus Cristo, cuja morte na cruz é o gesto pelo qual Deus tornou a sua misericórdia eficaz, os crentes são justificados gratuitamente. Paulo recorre à figura de Abraão, pai da fé antes mesmo de ser circuncidado, para mostrar que a salvação pela fé não é uma novidade absoluta mas o cumprimento da promessa mais antiga da história de Israel. O terceiro bloco tira as consequências existenciais desse Evangelho: o batismo é descrito como participação na morte e na ressurreição de Cristo, como ruptura com o domínio do pecado e abertura a uma vida nova animada pelo Espírito. O capítulo oitavo culmina com uma das afirmações mais líricas de toda a carta: nada, absolutamente nada, pode separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus.
Os capítulos nove a onze formam um bloco teologicamente delicado e exegeticamente muito disputado, no qual Paulo enfrenta a questão do povo de Israel, maioritariamente incrédulo ao Evangelho. Paulo recusa com veemência a ideia de que Deus teria abandonado o seu povo. A eleição de Israel permanece irrevogável. A incredulidade da maioria dos judeus tem, na perspectiva de Paulo, um papel providencial: abriu o caminho para que os gentios acolhessem o Evangelho, e isso por sua vez provocará no final a salvação de todo Israel. A promessa que Paulo vislumbra como desfecho escatológico é inclusiva: não há substituição de Israel pela Igreja, mas convergência final de ambos na misericórdia de Deus. Essa interpretação foi frequentemente ignorada ou distorcida na exegese cristã posterior, com consequências dramáticas para a relação entre cristãos e judeus ao longo dos séculos.
A quarta seção da carta desenvolve a ética cristã. Paulo parte do princípio de que a vida inteira do crente pode e deve ser um culto racional a Deus, expressão de uma transformação interior que não se confunde com a adaptação aos padrões da sociedade circundante. Recomenda humildade no uso dos dons espirituais, amor concreto ao próximo, atenção aos mais fracos, respeito pelas autoridades civis e acolhida das diferentes sensibilidades dentro da comunidade. Para a Igreja, a Carta aos Romanos continua a ser um texto normativo e inexaurível, ponto de referência para a teologia da graça, da justificação, da eleição e da esperança escatológica, e ao mesmo tempo um testemunho da riqueza e das tensões que acompanharam o nascimento do cristianismo no seio do judaísmo do primeiro século.