Habacuque é um profeta do Tanakh cuja escrita integra o conjunto dos Doze Profetas Menores. O seu nome é de etimologia incerta — possivelmente de origem acádica, onde uma palavra semelhante designa uma espécie de planta não identificada, com possível parentesco com o árabe que nomeia o manjericão. A tentativa de derivá-lo de uma raiz hebraica que significa "abraçar" é considerada pela maioria dos estudiosos pouco convincente. O livro que lhe é atribuído compõe-se de três capítulos e foi provavelmente composto em torno de 600 antes de Cristo, com acréscimos posteriores no período exílico e pós-exílico. Sobre a biografia do profeta o texto nada revela diretamente, mas a marca litúrgica da linguagem e a referência a uma função de sentinela no segundo capítulo levaram estudiosos como Sigmund Mowinckel a identificá-lo como profeta cultual a serviço do Templo de Jerusalém, proposta que encontrou ampla acolhida na investigação histórico-crítica.
O livro articula-se em três partes de caráter e tom distintos. A primeira constitui um diálogo tenso entre o profeta e Deus, inaugurado pela queixa de Habacuque diante da violência e da injustiça que presencia sem ver nenhuma resposta divina. A pergunta que abre o livro — "Até quando, Senhor, pedirei socorro e não ouvirás? Clamarei a ti por causa da violência e não salvarás?" — não é uma pergunta retórica nem um ato de desafio, mas a expressão autêntica de um homem que leva a sério tanto o sofrimento à sua volta quanto a fidelidade de Deus. A resposta divina anuncia o instrumento do julgamento: os caldeus, povo veloz e terrível, que avança pela terra como tempestade. Mas a resposta não resolve a crise teológica — antes a aprofunda. Se Deus é demasiado puro para contemplar o mal, como pode servir-se de um povo ainda mais cruel para punir outro? Habacuque retira-se ao seu posto de guarda e aguarda a resposta. O que recebe é uma ordem para escrever a visão em tábuas, de modo que possa ser lida mesmo por quem passa correndo, pois ela ainda aguarda o seu cumprimento. E o oráculo que segue tornou-se um dos mais citados de toda a profecia bíblica: "O justo viverá pela sua fidelidade."
A segunda parte reúne cinco lamentos fúnebres contra os opressores, pronunciados na forma de elegias que denunciam a rapacidade, a crueldade, a ambição sem limites e a idolatria dos poderosos. São imagens de julgamento construídas com precisão poética: quem acumula o que não é seu será devorado pelos seus próprios devedores; quem edifica a cidade com sangue e iniquidade verá o seu trabalho consumido pelo fogo; quem embriaga o próximo para contemplar a sua nudez será coberto de ignomínia. O clímax desta seção é a afirmação solene que prepara a visão final: "O Senhor está no seu santo templo; que toda a terra guarde silêncio diante dele."
A terceira parte é um salmo de teofania, encabeçado com indicações musicais que atestam o seu uso litúrgico — shiguionote, como título, e selá como anotação de pausa —, o que confirma a hipótese de que Habacuque estava ligado ao culto do Templo. O salmo descreve a aparição de Deus em grandiosidade cósmica: o seu esplendor cobre os céus, os montes se dissolvem, as nações se assustam, o profeta treme até aos ossos. Mas do horror nasce a confiança. Mesmo que a figueira não floresça, que a vinha não produza uvas, que o olival falhe e o campo não dê colheita, que os rebanhos desapareçam dos campos — ainda assim o profeta exultará no Senhor, o Deus da sua salvação. É uma das profissões de fé mais elevadas do Antigo Testamento: a confiança em Deus desvinculada de qualquer garantia material, sustentada unicamente pela fidelidade reconhecida na história.
Na tradição cristã, nenhum versículo do livro exerceu influência comparável à de Habacuque 2. 4, citado tanto por Paulo na Carta aos Romanos e na Carta aos Gálatas quanto na Carta aos Hebreus. Para Paulo, a afirmação de que "o justo viverá pela fé" torna-se pedra angular da sua teologia da justificação: a salvação não advém das obras da Lei, mas da fé que acolhe a graça de Deus em Cristo. A Carta aos Hebreus utiliza o mesmo versículo para exortar à perseverança na tribulação, aguardando o cumprimento da promessa. Lutero, ao redescobrir esse texto no contexto da sua própria crise espiritual, encontrou nele o fundamento da Reforma. O Talmude de Babilônia, por sua vez, vê em Habacuque o profeta que condensou os seiscentos e treze preceitos da tradição judaica num único princípio. A Igreja Católica comemora-o a dois de dezembro, e a tradição apócrifa, dramatizada por Bernini numa famosa escultura em Roma, narra que o profeta transportou milagrosamente alimento ao profeta Daniel na cova dos leões — imagem de solidariedade profética que a arte cristã jamais esqueceu.