Os dois caminhos.
1Bem-aventurado o homem
Que não anda no conselho dos ímpios,
Nem se põe no caminho dos pecadores,
Nem se assenta com zombadores.
2Mas o seu prazer está na lei do Senhor;
E em Sua lei ele medita dia e noite.
3E será como uma árvore
Plantada junto aos rios de água,
Que produz o seu fruto na sua estação;
A sua folha também não murchará;
E tudo o que ele fizer prosperará.
4Os ímpios não são assim:
São como a palha que o vento afasta.
5Portanto, os ímpios não permanecerão no juízo,
Nem os pecadores na congregação dos justos.
6Porque o Senhor conhece o caminho dos justos,
Mas o caminho dos ímpios perecerá.
O primeiro Salmo do Livro dos Salmos (designado Beatus vir na Vulgata Latina) atua como o prólogo poético e sabedórico de todo o Saltério, introduzindo em seis versículos a antítese fundamental entre a vereda dos justos e o destino dos ímpios. Preservado no Texto Masorético e na tradição dos Setenta, o poema abre a primeira das cinco seções do livro (Salmos um a quarenta e um) e encontra-se estruturalmente pareado ao Salmo dois — com o qual compartilha a moldura inclusiva do termo "bem-aventurado" (ashrei), levando o Talmude (Berakhot 10a) a considerá-los originalmente uma única composição. Sob a perspectiva da engenharia literária veterotestamentária, a perícope atua como um pórtico hermenêutico para os Ketuvim (Escritos), espelhando o mandato de Josué um versículo oito ao exortar à meditação contínua na Lei do Senhor (Sefer HaTorah) dia e noite.
O desenvolvimento poético organiza-se mediante um nítido contraste analógico. O homem bem-aventurado é caracterizado negativamente pela recusa em andar no conselho dos ímpios, deter-se no caminho dos pecadores ou assentar-se na roda dos escarnecedores; positivamente, seu prazer reside na Lei do Altíssimo, meditando nela sem cessar. Esta fidelidade traduz-se na metáfora da árvore plantada junto a correntes de águas — imagem paralela a Jeremias dezessete —, que frutifica no tempo certo e cujas folhas não murcham. Em contrapartida, os ímpios são comparados à palha dispersa pelo vento: incapazes de subsistir no juízo ou na congregação dos justos, sua vereda conduz inevitavelmente à perdição, pois o Senhor conhece e guarda apenas o caminho dos retos.
A recepção litúrgica e artística do Salmo primeiro estende-se da tradição judaica — onde integra as orações noturnas de Yom Kippur e é citado na Mishná (Pirkei Avot 3:2) — à hinologia e iconografia cristãs. Na iluminura medieval, o termo inicial Beatus deu origem às célebres letras capitulares historiadas (Beatus initials) que ocupavam páginas inteiras em saltérios manuscritos, enquanto na liturgia copta do Agpeya abre a hora de Prime. Sua profundidade lírica inspirou versões métricas de John Milton e Robert Burns, além de célebres arranjos musicais como a antífona de Thomas Tallis (1567), o hino Wer nicht sitzt im Gottlosen Rat (SWV 079) de Heinrich Schütz, a cantata Beatus vir qui non abiit (H.175) de Marc-Antoine Charpentier e a Vigília de Toda a Noite de Sergei Rachmaninoff. Sob o prisma do desígnio salvífico, o Salmo primeiro apresenta o arquetípico Homem Justo — plenamente personificado no Messias —, cujas raízes na verdade divina asseguram a vida eterna contra a efemeridade do mal.
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