A glória de Deus e a dignidade do homem.
¹Ó Senhor, nosso Senhor,
Quão excelente é o Teu nome em toda a terra!
Tu, que puseste a Tua glória acima dos céus.
²Da boca das crianças e dos que mamam
Tu ordenaste força, por causa dos Teus inimigos,
Para fazer cessar o inimigo e o vingador.
³Quando considero os Teus céus,
Obra dos Teus dedos,
A lua e as estrelas Que estabeleceste;
⁴Que é o homem, para que Te lembres dele?
E o filho do homem, para que o visites?
⁵Pois Tu o fizeste um pouco menor que os anjos
E o coroaste de glória e honra.
⁶Tu o fizeste dominar sobre as obras das Tuas mãos;
Puseste todas as coisas debaixo dos seus pés:
⁷Todas as ovelhas e bois,
Sim, e os animais do campo;
⁸As aves do céu,
Os peixes do mar
E tudo o que passa pelas veredas dos mares.
⁹Ó Senhor, nosso Senhor,
Quão excelente é o Teu nome em toda a terra!
O oitavo Salmo do Livro dos Salmos (designado Domine Dominus noster na Vulgata Latina) constitui um hino de exaltação à majestade do Criador e de reflexão sabedórica sobre a dignidade do ser humano na criação, composto por nove versículos (dez na contagem massorética). Atribuído ao rei Davi e dirigido ao mestre de música sobre Gittith (gatith — termo associado a um instrumento de Gate, a um hino da vindima ou ao cântico de vitória sobre Golias), o poema abre e encerra com a solene aclamação: "Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico é o teu nome em toda a terra!". Sob a perspectiva da engenharia literária e teológica veterotestamentária, a perícope atua como uma meditação cosmológica e criacional que se articula com o grupo dos salmos do Nome divino (Salmos cinco a nove) e antecede os salmos acrósticos nove e dez.
O desenvolvimento poético organiza-se através do contraste entre a imensidão dos céus e a pequenez humana elevada à glória por graça. Na primeira seção (versículos um e dois), o salmista contempla a glória do Altíssimo estabelecida acima dos céus, ressaltando que da boca das crianças e dos lactentes o Senhor suscitou força para confundir os Seus adversários — passagem citada por Jesus durante a entrada triunfal no Templo (Mateus 21:16). Na seção central e clímax do poema (versículos três a oito), ao contemplar a lua e as estrelas, a obra dos dedos de Deus, o autor formula a célebre interrogação existencial: "Que é o homem para que te lembres dele? E o filho do homem para que o visites?". O poema responde revelando a vocação real da humanidade: feita um pouco menor do que os anjos (elohim), coroada de glória e honra e constituída para ter domínio sobre as obras das mãos divinas, sujeitando o gado, as feras do campo, as aves e os peixes do mar.
A recepção litúrgica, teológica e cultural do Salmo oito possui extraordinária amplitude. No judaísmo, integra a Kedushah do Mussaf nas festividades e a liturgia de Simchat Torah, enquanto no cristianismo a Epístola aos Hebreus (2:6–8) e as cartas paulinas (1 Coríntios 15:27; Efésios 1:22) aplicam messianicamente os seus versículos à Encarnação, Paixão e Exaltação de Cristo. O salmo inspirou célebres hinos universais como "For the Beauty of the Earth" e "How Great Thou Art", arranjos de Heinrich Schütz (SWV 104) e Marc-Antoine Charpentier (H.163), além de influenciar a literatura de William Shakespeare (Hamlet) e Mark Twain. No âmbito histórico contemporâneo, os versículos quatro e cinco foram citados pelo Papa Paulo VI no disco de boa vontade da missão Apollo 11 e recitados pelo astronauta Buzz Aldrin em seu regresso à Terra após a primeira caminhada na Lua.
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