Uma oração de confiança.
¹Ouve-me quando clamo, ó Deus da minha justiça;
Tu me aliviaste quando eu estava em angústia.
Tem misericórdia de mim
E ouve a minha oração.
²Ó filhos dos homens, até quando converterão a minha glória em vergonha?
Até quando amarão a vaidade
E buscarão a mentira?
Selá.
³Mas saibam que o Senhor separou para Si aquele que é piedoso;
O Senhor ouvirá quando eu clamar a Ele.
⁴Tremam e não pequem;
Falem com o próprio coração sobre a cama
E fiquem em silêncio.
Selá.
⁵Ofereçam sacrifícios de justiça
E confiem no Senhor.
⁶Muitos dizem:
“Quem nos mostrará algum bem?”
Senhor, levanta sobre nós
A luz do Teu rosto.
⁷Puseste alegria no meu coração,
Mais do que no tempo em que o trigo e o vinho deles aumentaram.
⁸Em paz me deitarei e dormirei,
Porque Tu, Senhor, somente Me fazes habitar em segurança.
O quarto Salmo do Livro dos Salmos (designado Cum invocarem na Vulgata Latina) atua como a primeira oração vespertina e cântico de confiança individual no Saltério, composto por oito versículos. Atribuído tradicionalmente ao rei Davi e dirigido ao mestre de música para instrumentos de cordas (binginot), o poema vincula-se contextualmente ao impacto do levante de Absalão, exortando os opositores a abandonarem a vaidade para abraçarem o verdadeiro arrependimento. Sob a perspectiva da engenharia literária e hermenêutica veterotestamentária, a perícope introduz o contraste entre o culto estéril dos pecadores e os "sacrifícios de justiça", articulando-se intimamente com a oração matutina do Salmo 3 através do termo meditativo Sela e da temática do repouso noturno amparado pela providência divina.
O desenvolvimento poético organiza-se através de uma gradação de exortação e paz interior. Na primeira seção (versículos 1 a 3), o salmista clama ao Deus de sua justiça, recordando os livramentos passados em meio à tribulação e advertindo os homens nobres (bene ish) a não converterem a sua glória em infâmia nem buscarem a mentira, visto que o Senhor separou para Si o piedoso (chasid). Na seção central (versículos 4 e 5) — citada pelo apóstolo Paulo em Efésios 4. 26 —, adverte-se: "Irai-vos e não pequeis", convidando os opositores à meditação silenciosa no leito e à confiança no Altíssimo. Por fim (versículos 6 a 8), o salmista responde ao ceticismo da multidão suplicando a luz do rosto divino, declarando possuir no coração uma alegria superior à das fartas colheitas de trigo e vinho, e selando a perícope com a célebre profissão de fé vespertina: "Em paz me deito e logo adormeço, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança".
A recepção litúrgica e artística do Salmo 4 sobressai-se nas tradições judaica e cristã, figurando as suas passagens no Shemá ao deitar e na oração pelas provisões nos Dias Aterrorizantes. Na tradição litúrgica Ocidental, o poema tornou-se o pilar do ofício das Completas (oração da noite) na Regra de São Bento e na Liturgia das Horas, enquanto na liturgia copta do Agpeya integra as horas de Prime e do Véu. Sua mensagem de repouso confiante inspirou produções da hinologia e da música erudita, como o primeiro hino publicado por Fanny Crosby ("An Evening Hymn", 1853), o hino Erhör mich, wenn ich ruf zu dir (SWV 100) de Heinrich Schütz, a moteta Cum invocarem exaudivit me (H. 198) de Marc-Antoine Charpentier, bem como os grands motets de Michel-Richard Delalande (S.41), Henry Desmarest, Nicolas Bernier e André Campra para a Capela Real. Sob o prisma do desígnio salvífico, o Salmo 4 consolida a certeza de que a paz da alma e a salvação verdadeira não repousam na prosperidade material, mas na plena comunhão com o Deus da redenção.
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