Segundo Concílio de Niceia.
O Segundo Concílio de Niceia, realizado em 787 por iniciativa da imperatriz Irene e presidido pelo Patriarca Tarásio de Constantinopla, foi o sétimo e último concílio ecumênico reconhecido em comum pelas Igrejas Católica e Ortodoxa. Reunido na cidade de Niceia, o mesmo local do primeiro concílio ecumênico de 325, seu principal objetivo foi restaurar a veneração das imagens sagradas no Império Bizantino e encerrar a primeira fase da controvérsia iconoclasta, que havia levado à proibição dos ícones por determinação de alguns imperadores.
A origem dessa crise estava na política iniciada por Leão III e intensificada por seu filho, Constantino V, que promoveram a destruição de imagens religiosas e perseguiram aqueles que defendiam seu uso. Os partidários da iconoclastia consideravam que a veneração de ícones se aproximava da idolatria. Além disso, a oposição às imagens foi utilizada como instrumento para reforçar a autoridade imperial sobre a vida religiosa do Império. Após a morte de Leão IV, a imperatriz Irene assumiu a regência em nome de seu filho Constantino VI e passou a trabalhar pela restauração da paz religiosa. Com o apoio do Patriarca Tarásio, dos representantes do Papa Adriano I e de delegados das Igrejas orientais, reuniu cerca de trezentos e cinquenta bispos para examinar a questão.
Do ponto de vista teológico, os defensores dos ícones argumentavam que a veneração das imagens estava diretamente ligada ao dogma da Encarnação. Se o Filho de Deus assumiu uma natureza humana verdadeira e tornou-Se visível aos homens, então Sua representação em imagens não poderia ser considerada ilegítima. Assim, o concílio ensinou que a honra prestada a uma imagem não se dirige ao objeto material em si, mas à pessoa representada por ele.
Para esclarecer essa questão, os bispos estabeleceram uma distinção fundamental. A veneração respeitosa das imagens, denominada timētikē proskynēsis, pode ser prestada legitimamente aos ícones de Cristo, da Virgem Maria, dos anjos e dos santos. Entretanto, a adoração propriamente dita, chamada alēthinē latreia, pertence exclusivamente a Deus. Dessa forma, o concílio rejeitou tanto a destruição dos ícones quanto a ideia de que os cristãos adorariam imagens.
Ao longo de sete sessões, os participantes revogaram as decisões do concílio iconoclasta de Hieria, realizado em 754, e determinaram que os ícones fossem novamente expostos nas igrejas, residências e lugares públicos de culto. As imagens passaram a ser consideradas instrumentos de instrução e devoção, ajudando os fiéis a recordar os mistérios da fé e os exemplos dos santos.
Além das definições doutrinárias, o concílio aprovou vinte e dois cânones disciplinares destinados à reforma da vida eclesiástica. Entre outras medidas, determinou a presença de relíquias de mártires nos altares, proibiu a compra e venda de cargos eclesiásticos, reforçou as exigências morais para os monges e incentivou o estudo das Sagradas Escrituras por parte dos bispos e do clero.
A recepção do concílio no Ocidente encontrou algumas dificuldades. Uma tradução latina imperfeita das atas levou os teólogos da corte de Carlos Magno a interpretar equivocadamente que os bispos orientais defendiam a adoração das imagens. Essa interpretação resultou na elaboração dos Libri Carolini e na rejeição inicial das decisões conciliares pelo Sínodo de Frankfurt, em 794. O Papa Adriano I, porém, defendeu a correta compreensão dos decretos, e, com o passar do tempo, o concílio acabou sendo plenamente aceito também no Ocidente.
O Segundo Concílio de Niceia exerceu profunda influência sobre a espiritualidade, a arte e a liturgia cristãs. Sua principal contribuição foi afirmar que a veneração das imagens é compatível com a fé cristã quando corretamente compreendida, pois a honra prestada ao ícone é dirigida à pessoa nele representada. Ao mesmo tempo, reafirmou que a adoração pertence somente a Deus.
Desse modo, o concílio consolidou a doutrina tradicional sobre os ícones e reforçou a relação entre a Encarnação de Cristo e a possibilidade de representar visualmente os mistérios da fé. Seu ensinamento permanece até hoje como um dos fundamentos da arte sacra e da devoção cristã nas tradições católica e ortodoxa.