Uma oração por justiça e livramento.
¹Ó Senhor, meu Deus, em Ti ponho a minha confiança;
Salva-me de todos os que me perseguem
E livra-me,
²Para que ele não despedace a minha alma como um leão,
Rasgando-a em pedaços,
Sem que haja quem me livre.
³Ó Senhor, meu Deus, se fiz isto;
Se há iniquidade nas minhas mãos;
⁴Se retribuí o mal àquele que estava em paz comigo
— Sim, eu que livrei aquele que, sem causa, é meu inimigo —;
⁵Que o inimigo persiga a minha alma e a alcance;
Sim, que pise a minha vida por terra
E deite a minha honra no pó.
Selá.
⁶Levanta-Te, ó Senhor, na Tua ira;
Ergue-Te contra o furor dos meus inimigos
E desperta por mim para o julgamento Que ordenaste.
⁷Assim, a congregação dos povos Te cercará;
Por causa deles, portanto, volta ao alto.
⁸O Senhor julgará os povos;
Julga-me, ó Senhor, segundo a minha justiça
E segundo a integridade que há em mim.
⁹Que a maldade dos ímpios chegue ao fim,
Mas estabelece o justo;
Pois o Deus justo prova os corações e os rins.
¹⁰O meu escudo está em Deus,
Que salva os retos de coração.
¹¹Deus é um justo juiz,
E Deus Se ira contra o ímpio todos os dias.
¹²Se ele não se converter,
Ele afiará a Sua espada;
Já armou o Seu arco e o preparou.
¹³Também preparou para ele instrumentos de morte;
Ordena as Suas flechas contra os perseguidores.
¹⁴Eis que ele concebe a iniquidade,
Está grávido de malícia
E dá à luz a falsidade.
¹⁵Abriu uma cova,
Cavou-a e caiu na própria cova que fez.
¹⁶A sua malícia cairá sobre a sua própria cabeça,
E a sua violência descerá sobre o seu próprio crânio.
¹⁷Louvarei o Senhor segundo a Sua justiça
E cantarei louvores ao nome do Senhor Altíssimo.
O sétimo Salmo do Livro dos Salmos (designado Domine Deus meus in te speravi na Vulgata Latina) constitui uma oração individual de lamentação e um cântico de júbilo e justiça, composto por dezessete versículos (dezoito na contagem massorética). Atribuído ao rei Davi no sobrescrito sob a designação técnica Shiggayon — termo hebraico que sugere uma composição poética e musical de forte intensidade emotiva —, o texto vincula-se às acusações caluniosas efetuadas por Cuxe, benjamita. Sob a perspectiva da engenharia literária e teológica veterotestamentária, a perícope atua como um recurso judiciário em que o fiel, injustamente perseguido, apela da falsa acusação humana para o tribunal celeste do Altíssimo, Aquele que examina os corações e os rins (bochen libot ukelayot).
O desenvolvimento poético organiza-se através de um rigoroso protesto de inocência e da invocação do justo juízo divino. Na primeira seção (versículos um a cinco), o salmista busca refúgio no Senhor para não ser despedaçado como por um leão, estabelecendo uma fórmula de imprecação condicional caso haja iniquidade em suas mãos. Na seção central (versículos seis a dez), o texto eleva-se à escala de um julgamento cósmico: o salmista clama para que o Senhor se levante em Sua ira e convoque a assembleia dos povos, julgando o autor da prece segundo a sua integridade e pondo fim à maldade dos ímpios. Por fim (versículos onze a dezessete), o poema descreve a retribuição natural e inevitável do pecado — o ímpio que abre uma cova cai na própria armadilha que cavou —, encerrando-se com a solene promessa de render graças e cantar louvores ao nome do Senhor Altíssimo (Yahweh Elyon).
A recepção litúrgica, homilética e artística do Salmo sete possui ampla ressonância nas tradições judaica e cristã. No judaísmo, a perícope é tradicionalmente recitada na festividade de Purim, enquanto na tradição monástica católica a Regra de São Bento (530 d.C.) a destinou ao ofício de Prime das terças-feiras, figurando atualmente na Liturgia das Horas na oração do meio-dia da primeira semana. Na história da pregação protestante, a imagem assustadora do versículo doze sobre a espada afiada e o arco armado de Deus serviu de fundamento conceitual para o famoso sermão de Jonathan Edwards, Pecadores nas Mãos de um Deus Irado (1741). Na música sacra, o poema inspirou o hino métrico Auf dich trau ich, mein Herr und Gott (SWV 103) de Heinrich Schütz. Sob o prisma do desígnio salvífico, o Salmo sete pré-figura o Justo Perfeito — o Messias —, que sofre a perseguição imerecida e entrega a Sua causa ao Deus que julga com perfeita equidade.
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