O Evangelho de Lucas, o terceiro dos canônicos, forma com os Atos dos Apóstolos uma obra em dois volumes (Lucas-Atos) que abrange quase um quarto do Novo Testamento. Embora o texto seja anônimo, a tradição o atribui a Lucas, companheiro de Paulo — um helenista culto, mestre no grego koiné e profundo conhecedor da Septuaginta. A maioria dos estudiosos data sua composição entre 80 e 90 d.C. Lucas adotou o Evangelho de Marcos como base, integrando-o à hipotética fonte de ditos Q e a um vasto conteúdo próprio, que compõe mais de um terço da obra. Esse material foi lapidado com rigor estilístico, alternando entre um grego refinado e uma imitação intencional do estilo bíblico grego para enfatizar a continuidade com a história de Israel.
Como evangelho sinótico, Lucas compartilha muito com Mateus e Marcos, mas ostenta marcas singulares: relatos detalhados sobre a infância de Jesus, uma longa seção sobre a viagem a Jerusalém (Lucas 9. 51–19. 27) repleta de parábolas exclusivas — como a do Bom Samaritano e a do Filho Pródigo — e uma narrativa da paixão com contornos próprios. Tais elementos reforçam temas como a misericórdia divina, a acolhida aos marginalizados (pobres, mulheres, pecadores e gentios) e a universalidade da salvação. Lucas apresenta Jesus como o salvador compassivo, unido ao Pai pela oração e obediência, destacando o Espírito Santo como guia para a comunidade cristã.
A teologia desta obra dupla interpreta a vida de Jesus como o cumprimento das promessas do Antigo Testamento, agora estendidas a todos os povos. A história da salvação é organizada em eras: o tempo de Israel, o tempo de Jesus e o tempo da Igreja, atenuando a expectativa de uma parusia iminente em prol de um Reino de Deus já presente, mas com consumação escatológica futura. Sob o aspecto político-apologético, Lucas ressalta que o cristianismo não representava uma ameaça ao Império Romano, enquanto propõe uma ética de inversão de valores e partilha, onde a solidariedade com os pobres é a marca do verdadeiro discipulado.
Na exegese atual, a teoria das duas fontes continua predominante, ainda que hipóteses como a de Farrer (que sugere o uso direto de Mateus por Lucas, sem a fonte Q) ganhem espaço. O Evangelho de Lucas permanece essencial para a compreensão do cristianismo primitivo, unindo sensibilidade narrativa e densidade teológica ao anunciar a graça de Deus como uma mensagem destinada a toda a humanidade.