O Evangelho de Lucas é o terceiro dos quatro evangelhos canônicos do Novo Testamento e constitui, junto com os Atos dos Apóstolos, uma obra literária unitária conhecida como dupla obra lucana. O autor não se identifica no texto, e o título com o nome de Lucas foi acrescentado posteriormente, associando o livro a um companheiro de Paulo mencionado em algumas epístolas do Novo Testamento como médico e colaborador fiel. Embora essa identificação seja debatida, a exegese contemporânea adotou por convenção o nome Lucas para designar o evangelista. O que se pode afirmar com relativa segurança é que o autor possuía sólida formação helenística, dominava o grego com elegância e versatilidade, e conhecia profundamente a Septuaginta a ponto de imitar o seu estilo quando o material narrativo o exigia. A datação da obra é situada pela maioria dos estudiosos entre os anos 70 e 90 do primeiro século, após a destruição do Templo de Jerusalém, que parece refletida em certas formulações do texto.
Para a composição do seu evangelho, Lucas recorreu ao Evangelho de Marcos como base narrativa da vida pública de Jesus, e à chamada Fonte Q, uma coleção de ditos de Jesus partilhada com o Evangelho de Mateus, mas da qual não se conservou nenhum manuscrito independente. Mais de um terço do conteúdo do evangelho é, porém, material próprio de Lucas — o seu chamado material especial —, que inclui algumas das narrativas e parábolas mais conhecidas da tradição cristã: a Anunciação a Maria, a Visitação, a história do nascimento de Jesus com o anúncio aos pastores, a parábola do Bom Samaritano, a parábola do Filho Pródigo, os episódios de Zaqueu e dos discípulos de Emaús. Esse material especial é de extraordinária riqueza teológica e literária, e revela as prioridades do evangelista: os pobres e excluídos, as mulheres, os pecadores, os estrangeiros, o louvor e a oração como atitudes fundamentais do crente.
O prólogo do evangelho, nos quatro versículos iniciais, é escrito num grego quase clássico e declara explicitamente o método do autor: ele investigou tudo com cuidado desde os primórdios e decidiu redigir um relato ordenado para Teófilo, a fim de que este pudesse reconhecer a solidez das tradições em que havia sido instruído. Esse prólogo distingue Lucas dos demais evangelistas pela consciência literária e histórica que evidencia, próxima à das obras históricas helenísticas e judaicas do período. Imediatamente a seguir, o estilo muda de forma marcante: os dois capítulos da infância são escritos num grego fortemente impregnado do estilo da Septuaginta, evocando intencionalmente a linguagem das narrativas do Antigo Testamento. Essa mudança não é descuido, mas recurso deliberado: ao narrar os eventos em torno do nascimento de João Batista e de Jesus nessa linguagem bíblica, Lucas sinaliza que está escrevendo história sagrada, continuação da história de Israel.
A estrutura do evangelho organiza-se em torno de uma progressão geográfica e teológica: a atividade de Jesus começa na Galileia, atravessa uma longa secção de caminho rumo a Jerusalém — o chamado relato da viagem, que ocupa quase um terço do evangelho —, e culmina em Jerusalém com a paixão, a morte, a ressurreição e a ascensão. Essa progressão não é puramente geográfica: Jerusalém é o centro teológico do evangelho de Lucas, o lugar onde a história da salvação atinge o seu ponto decisivo e de onde partirá, nos Atos dos Apóstolos, a missão ao mundo inteiro. O paralelo entre o evangelho, que começa no Templo de Jerusalém com a cena de Zacarias, e os Atos dos Apóstolos, que terminam em Roma com Paulo a anunciar o Reino de Deus, define a arquitetura da dupla obra como história da expansão da palavra de Deus desde o centro sagrado do judaísmo até os confins do Império Romano.
A Cristologia de Lucas apresenta Jesus como Senhor, Messias, Filho de Deus, profeta e Salvador, com particular ênfase nas cenas de oração: Jesus ora no batismo, antes do confessar de Pedro, na Transfiguração, no Getsêmani, e a sua última palavra na cruz é uma oração de abandono confiante ao Pai. A ética do evangelho privilegia a misericórdia concreta, a generosidade com os pobres, a abertura às figuras marginalizadas pela sociedade, e a alegria como tonalidade fundamental da existência cristã. Na tradição litúrgica e devocional da Igreja, Lucas exerceu uma influência excepcional: os cânticos da infância — o Magnificat, o Benedictus e o Nunc Dimittis — tornaram-se parte integrante da liturgia das horas; a narrativa do Natal conformou para sempre a piedade cristã; e parábolas como a do Filho Pródigo e a do Bom Samaritano continuam a ser textos de referência incontornável para a reflexão sobre a graça e a fraternidade humana.