O Livro dos Salmos, conhecido também como Saltério, reúne 150 composições poéticas originariamente em hebraico que ocupam lugar central na Bíblia. Essa coletânea traça um caminho espiritual marcante, que parte da lamentação inicial para culminar no louvor universal de tudo o que tem vida, conforme se vê especialmente no salmo final. Do indivíduo que medita a Torá ao culto grandioso que envolve toda a criação, o Saltério reflete a experiência de fé diante de Deus, com forte ligação ao Templo de Jerusalém, embora a exegese contemporânea prefira vê-lo como literatura produzida no ambiente cultual em vez de libretos litúrgicos diretos.
Muitos salmos trazem superscrições que os atribuem a Davi, algumas conectando-os a episódios de sua vida narrados em Samuel. Essa associação se intensificou na Septuaginta e, com o tempo, levou à leitura do Saltério inteiro como diário espiritual do rei. A tradição judaica e cristã soube unir a figura do guerreiro e estadista com a do suplicante perseguido e frágil que emerge nos poemas. No cristianismo, essa dimensão encontrou eco profundo na oração de Jesus e na compreensão da Igreja como corpo que continua a rezar com os mesmos sentimentos.
Quanto à formação, a maioria dos salmos, em sua redação atual, pertence ao período do Segundo Templo, entre os séculos VI e II a.C., embora alguns preservem núcleos mais antigos, possivelmente pré-exílicos. Pesquisadores como Hossfeld e Zenger identificam camadas redacionais sucessivas: coleções davídicas, elohísticas, asafitas e coraítas que foram reunidas gradualmente. O processo culminou com a adição de molduras como os salmos 1 e 2 no início e o grande Hallel final, conferindo ao conjunto uma unidade teológica que celebra a Torá, o reinado de Deus e a esperança messiânica. A divisão em cinco livros, ecoando o Pentateuco, reforça essa intenção canônica.
Literariamente, os salmos exemplificam a poesia hebraica, marcada pelo paralelismo dos membros — sinônimo, antitético, sintético ou climático — que cria ritmo e profundidade de sentido. Ausente uma métrica fixa como na lírica ocidental, o texto se sustenta na sonoridade, na repetição e nos jogos de palavras, elementos que a transmissão consonantal torna parcialmente reconstruíveis. As superscrições mencionam instrumentos e termos musicais como “selá”, “ao mestre de canto” ou “sobre alamote”, sugerindo execução cultual, embora permaneçam ambíguos. O conjunto não constitui um hinário do Templo, mas conserva forte ressonância litúrgica.
Do ponto de vista teológico, os salmos oferecem a resposta de Israel ao Deus da aliança. Apresentam um antropologia realista: o ser humano como néfesh vital, coração sede de pensamento e vontade, exposto à ameaça do caos, da morte social e da hostilidade. As lamentações individuais — o gênero mais numeroso — articulam clamor, confiança e súbita passagem ao louvor, movimento que a tradição cristã interpreta como prefiguração da Páscoa. Os hinos celebram a bondade e fidelidade divinas; os salmos reais e de Sião apontam para o reinado de Deus realizado em Cristo. A sabedoria penetra especialmente nos salmos 1, 37, 73 e 119, onde a meditação da Lei se torna caminho de intimidade com o Senhor.
A recepção cristã foi imediata e intensa. O Novo Testamento cita o Saltério mais que qualquer outro livro do Antigo Testamento, especialmente na Paixão. Os Pais da Igreja o viam como espelho da alma e compêndio de toda a Escritura. Atanásio afirmava que nele se encontram todos os estados espirituais do cristão. No monasticismo antigo, a recitação contínua do Saltério moldou a oração diária; na liturgia latina, as versões romana, galicana e hebraica de Jerônimo conviveram por séculos, com o Saltério galicano dominando até a Idade Média. Reformadores como Lutero e Calvino o tornaram ainda mais acessível: o primeiro via nele a voz de Cristo e da Igreja; o segundo encontrou em Davi o modelo do crente perseguido.
Até hoje, o Saltério permanece oração comum a judeus e cristãos. Na sinagoga, o Hallel pascal e os salmos sabáticos mantêm viva a memória do Templo; na Igreja, ele estrutura o Ofício Divino, enriquece a Missa e alimenta a piedade pessoal. Sua linguagem universal permite que cada geração nele reconheça sua própria experiência de abandono, súplica e gratidão, sempre orientada para Aquele que, crucificado e ressuscitado, rezou com estes mesmos versos.
Com pouco mais de setecentas palavras, esta síntese busca preservar a riqueza histórica, literária e teológica do Saltério, destacando sua permanente atualidade na vida da Igreja e sua capacidade de formar o coração do crente em diálogo constante com a Palavra de Deus.