Oração em meio ao desespero.
¹Ó Senhor Deus da minha salvação,
Dia e noite clamo diante de Ti.
²Chegue à Tua presença a minha oração;
Inclina os Teus ouvidos ao meu clamor.
³Pois a minha alma está cheia de angústias,
E a minha vida se aproxima da sepultura.
⁴Sou contado com os que descem à cova;
Sou como um homem sem forças,
⁵Abandonado entre os mortos,
Como os mortos que jazem na sepultura,
Dos quais já não Te lembras,
E que foram cortados da Tua mão.
⁶Tu me colocaste na cova mais profunda,
Nas trevas, nas profundezas.
⁷A Tua ira pesa sobre mim,
E Tu me afligiste com todas as Tuas ondas. Selá.
⁸Afastaste de mim os meus conhecidos;
Fizeste-me abominável para eles.
Estou encerrado e não posso sair.
⁹Os meus olhos definham por causa da aflição.
Senhor, tenho clamado a Ti todos os dias;
A Ti tenho estendido as minhas mãos.
¹⁰Mostrarás maravilhas aos mortos?
Levantar-se-ão os mortos para Te louvar? Selá.
¹¹Será a Tua misericórdia anunciada na sepultura?
Ou a Tua fidelidade na perdição?
¹²Serão conhecidas as Tuas maravilhas nas trevas?
E a Tua justiça na terra do esquecimento?
¹³Mas eu clamo a Ti, ó Senhor;
E pela manhã a minha oração chegará diante de Ti.
¹⁴Senhor, por que rejeitas a minha alma?
Por que escondes de mim a Tua face?
¹⁵Estou aflito e prestes a morrer desde a minha juventude;
Enquanto sofro os Teus terrores, estou perturbado.
¹⁶O furor da Tua ira passou sobre mim;
Os Teus terrores me destruíram.
¹⁷Eles me cercam continuamente como águas;
Todos juntos me rodeiam.
¹⁸Afastaste de mim amigo e companheiro;
Os meus conhecidos estão em trevas.
O octogésimo oitavo salmo constitui uma das peças mais singulares e comoventes do saltério bíblico, destacando-se pela densidade de seu tom elegíaco e pela ausência quase absoluta de transições para o otimismo. Na contagem adotada pela tradição do Texto Massorético hebreu, a composição ocupa a octogésima oitava posição, enquanto na Septuaginta grega e na Vulgata Latina recebe a numeração de Salmo oitenta e sete, sendo identificada formalmente pelas palavras iniciais de sua súplica. O cabeçalho institucional atribui a obra tanto aos filhos de Corá quanto a Hemã, o ezraíta, classificando-a sob o gênero técnico de masquil, que denota um poema de instrução ou meditação sapidíssima. A crítica literária e a exegese patrística costumam caracterizar o hino como uma oração de profunda aflição física e moral, sugerindo que o salmista padecia de uma enfermidade aviltante e segregadora, como a lepra, ou de uma calamidade existencial profunda que o isolava do convívio comunitário e eclesial.
A estrutura poética desenvolve-se em dezoito versículos permeados por metáforas de sepultamento, trevas e abandono, nas quais o suplicante expõe o seu sofrimento contínuo, dia e noite, perante o Trono da Graça. Diferente de outras lamentações do saltério que encerram com cânticos de libertação, este poema culmina estritamente na escuridão, sendo a própria palavra trevas o fecho do manuscrito original hebraico. Sob a perspectiva da liturgia eclesiástica, a gravidade e o caráter sacrificial desta peça motivaram sua inclusão em momentos de profunda sobriedade espiritual, como no ofício de matinas do rito bizantino, nas completas de sexta-feira da Liturgia das Horas ocidental e nas vésperas da Sexta-feira Santa do Livro de Oração Comum anglicano. A recepção do salmo na hinódia protestante e reformada processou-se também por meio de versões métricas adaptadas, como o Saltério Escocês de meados do século dezessete.
No âmbito da criação artística e da musicologia sacra, a expressividade dramática do texto inspirou importantes composições polifônicas e instrumentais ao longo da história da Igreja. Durante o período barroco, o compositor alemão Heinrich Schütz transpôs os versículos para uma versão metrificada em seu saltério de meados do século dezessete, enquanto o mestre francês Marc-Antoine Charpentier concebeu uma sofisticada versão em latim destinada a solistas, coro e orquestra de cordas. No repertório romântico, excertos da indagação sobre as maravilhas operadas entre os mortos foram incorporados ao célebre oratório Elias, de Felix Mendelssohn. Na produção musical contemporânea, o salmo manteve sua relevância técnica e espiritual através de releituras complexas para formações corais e instrumentais modernas, demonstrando que o clamor do crente em meio ao silêncio divino permanece como uma das expressões mais autênticas da condição humana sob a providência do Altíssimo.
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