O Livro de Sofonias é o nono dos Doze Profetas Menores no Antigo Testamento e no Tanakh, situado entre os livros de Habacuque e Ageu. Os seus três capítulos constituem uma das proclamações mais contundentes sobre o Dia do Senhor em toda a literatura profética bíblica, tema que o livro desenvolve com uma consistência e uma profundidade que o distinguem dos demais. O nome do profeta, em hebraico Tsefaniá, é geralmente interpretado como "o Senhor escondeu" ou "o Senhor protege", e Jerônimo de Estridão, ao comentá-lo, preferiu a tradução "sentinela do Senhor", leitura que ressoa com a missão profética de vigiar e advertir. O texto original foi composto em hebraico bíblico, e os manuscritos mais antigos que o preservam pertencem à tradição do Texto Massorético, com fragmentos adicionais encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto.
A inscrição do livro apresenta uma genealogia invulgarmente extensa para um texto profético: Sofonias é identificado como filho de Cusi, neto de Gedalias, bisneto de Amarias e trisavô de Ezequias, no tempo do rei Josias, filho de Amom, rei de Judá. A profundidade dessa genealogia sugere, para alguns estudiosos, uma tentativa de ligar o profeta à linhagem real de Ezequias, o que lhe conferiria uma origem nobre e acesso aos círculos do poder em Jerusalém. O nome do pai, Cusi, que significa "cuxita" ou "etíope", levou alguns a especular sobre uma possível ascendência africana do profeta, mas a maioria dos exegetas prefere entendê-lo como simples nome próprio sem implicações étnicas. Quanto à datação, a maior parte dos estudiosos contemporâneos situa o núcleo do livro nos anos do reinado de Josias, na segunda metade do século VII antes de Cristo, possivelmente antes das grandes reformas religiosas de 622, o que tornaria o profeta uma das vozes que prepararam o terreno para essa renovação. Outros estudiosos identificam acréscimos de período exílico ou pós-monárquico, quando a experiência da queda de Jerusalém em 586 antes de Cristo teria motivado novas leituras e ampliações do texto original.
O contexto histórico que encadeia a mensagem de Sofonias é o de uma Judá que testemunhou a deportação do reino do Norte por parte da Assíria uma ou duas gerações antes, sem tirar daí as conclusões que a aliança com o Senhor exigia. A infidelidade cultual, a assimilação de práticas religiosas estrangeiras, a corrupção dos dirigentes e a indiferença religiosa de uma classe que já não esperava bem nem mal do Senhor compõem o quadro que o profeta diagnostica com olhar severo. É nesse ambiente que o anúncio do Dia do Senhor adquire toda a sua urgência: não como abstração escatológica, mas como consequência iminente e concreta da ruptura da aliança.
O livro abre-se com uma declaração de abrangência cósmica que ecoa deliberadamente a linguagem da criação e do dilúvio no Génesis. A afirmação tripla "varrei tudo" inverte a ordem da criação descrita no primeiro livro da Bíblia — primeiro os seres humanos e os animais, depois as aves e os peixes —, sinalizando que o julgamento anunciado não é uma punição parcial mas uma potencial descriação. A alusão à expressão "da face da terra", partilhada com o relato do dilúvio, reforça essa dimensão de catástrofe radical. O Dia do Senhor é descrito como dia de ira, dia de angústia, dia de tormento, dia de ruína e desolação, dia de trevas e de névoa — uma acumulação de imagens que influenciou profundamente a tradição cristã medieval e deu origem, através da tradução latina da Vulgata, ao célebre hino litúrgico Dies Irae, cujo título e primeiras palavras procedem diretamente de Sofonias 1. 15.
Contudo, o livro não termina no julgamento. O seu encerramento é um dos textos de maior ternura e alegria de todo o Antigo Testamento. Depois da purificação, o Senhor promete reunir os dispersos, restaurar os humilhados, transformar a vergonha em louvor e celebrar o seu povo com júbilo. O versículo que descreve Deus exultando sobre Israel com cânticos de alegria tornou-se parte da liturgia judaica pela sua nota de consolação e esperança. Na tradição cristã, esses mesmos versículos são lidos como antecipação da alegria messiânica, e a palavra de Sofonias ao "resto humilde" que busca refúgio no Senhor ressoa como convite permanente à confiança que atravessa o julgamento e encontra, do outro lado, a misericórdia que restaura.