O Evangelho de Marcos é o segundo livro do Novo Testamento na ordem canônica, mas é considerado pela grande maioria dos exegetas contemporâneos o mais antigo dos quatro evangelhos. Com seus dezesseis capítulos e seiscentos e sessenta e um versículos, é também o mais breve, e essa brevidade não é apenas quantitativa: ela corresponde a um estilo narrativo de extraordinária intensidade, marcado pela urgência, pelo movimento contínuo e pela centralidade da ação sobre o discurso. O título grego original, euangelion kata Markon, "Boa Nova segundo Marcos", foi acrescentado posteriormente ao texto, que circulou inicialmente de forma anônima, como era comum na literatura cristã primitiva.
A tradição eclesiástica mais antiga, transmitida por Papias de Hierápolis por volta do ano 100, identifica o autor com Marcos, que teria sido intérprete de Pedro e teria consignado por escrito os ensinamentos do apóstolo com fidelidade, ainda que sem ordem cronológica estrita. As fontes posteriores — Tertuliano, Clemente de Alexandria, Jerônimo — dependem de Papias e não constituem testemunhos independentes. A investigação histórico-crítica contemporânea tende a ver na figura de João Marcos, companheiro de Barnabé e Paulo mencionado nos Atos dos Apóstolos, o candidato mais plausível para a autoria, embora nenhum consenso definitivo tenha sido alcançado. O nome Marcos é romano, não judaico, o que levou alguns estudiosos a associar o autor a um ambiente helenístico ou romano. A tradição aponta Roma como local de composição, sustentada pelos numerosos latinismos presentes no texto, mas outros exegetas propõem a Síria, a Galileia ou a Decápolis, com base em considerações geográficas e temáticas. O que parece mais claro é que o evangelho foi composto pouco depois da destruição do Templo de Jerusalém em 70, evento que a maioria dos especialistas vê referenciado veladamente em Marcos 13. 2.
A comunidade destinatária era provavelmente de origem mista, com cristãos vindos do paganismo, o que explica as frequentes explicações de costumes judaicos e a tradução sistemática de expressões aramaicas. Ao mesmo tempo, certas discussões sobre o sábado, o jejum e as leis de pureza sugerem que também havia membros de origem judaica na assembleia. A comunidade parece ter vivido sob pressão e perseguição, o que confere ao evangelho o seu acento particular sobre a disponibilidade para o sofrimento e o seguimento de um Messias que caminha para a cruz.
A apresentação de Jesus em Marcos distingue-se das dos outros evangelhos por uma dupla ênfase: a plena humanidade do protagonista e a centralidade absoluta da paixão e da morte. Jesus tem fome, cansa-se, irrita-se, fica perturbado diante da morte e clama da cruz sentindo-se abandonado. Esse realismo não é ingenuidade teológica, mas um recurso deliberado: o Filho de Deus revelado na fraqueza, no serviço e no sofrimento. O próprio evangelho foi descrito como uma narrativa da paixão com um longo prólogo. Os milagres e as curas não são fins em si mesmos, mas sinais do irromper do Reino de Deus, e cada confronto com demônios, doenças ou forças da natureza prefigura a vitória definitiva que se consumará na cruz e na ressurreição.
Um dos elementos teológicos mais debatidos do evangelho é o chamado segredo messiânico, analisado sistematicamente por William Wrede no início do século XX. Jesus proíbe repetidamente os beneficiários dos seus milagres e os próprios discípulos de revelar a sua identidade messiânica. A exegese contemporânea tende a interpretar esse recurso não como um disfarce histórico, mas como um instrumento narrativo que reserva a plena revelação de quem é Jesus para o momento da morte e da ressurreição. É significativo que o único personagem que o reconhece explicitamente como Filho de Deus durante a vida pública seja o centurião romano que assiste à crucifixão, um pagão diante da aparente derrota. Essa cena condensa a teologia da cruz que percorre todo o evangelho.
A figura dos discípulos em Marcos é notavelmente ambivalente: chamados por Jesus com autoridade, partilham a sua missão, mas incompreendem repetidamente o sentido do que testemunham, e o seu fracasso durante a paixão é apresentado com uma franqueza desconfortável. Esse traço não é depreciação gratuita, mas pedagogia narrativa: o seguimento autêntico implica acolher a lógica do servo sofredor, e não projetar sobre Jesus as expectativas de um messianismo glorioso. O final abrupto do evangelho, no versículo oitavo do capítulo dezasseis, com as mulheres fugindo do túmulo em silêncio e temor, é para a maior parte dos estudiosos o final original, uma conclusão propositalmente aberta que convida o leitor a continuar a história com a própria vida.