O Evangelho segundo Marcos, o segundo dos canônicos e o mais conciso, com dezesseis capítulos, é amplamente reconhecido pelo consenso histórico-crítico como o mais antigo dos sinóticos, composto por volta de 70 d.C., logo após a destruição do Templo de Jerusalém. Escrito em um grego koiné direto, possivelmente em Roma ou na Síria para uma comunidade gentílica sob perseguição, apresenta Jesus como o Filho de Deus que anuncia a chegada do Reino, priorizando curas, exorcismos e ensinos que convergem para a Paixão. De acordo com a teoria das duas fontes, Marcos serviu de alicerce estrutural para Mateus e Lucas; seu Sondergut (material próprio) destaca o "segredo messiânico" — ordens de silêncio que sugerem que a identidade de Jesus só é plenamente revelada no alto da cruz.
A obra organiza-se em um prólogo (Marcos 1. 1-13), o ministério na Galileia com milagres e parábolas (Marcos 1. 14-8. 26), o caminho para Jerusalém focado no discipulado (Marcos 8. 27-10. 52), as atividades na cidade santa com o discurso escatológico (Marcos 11. 1-13. 37) e a narrativa da Paixão que culmina no túmulo vazio (Marcos 14. 1-16. 8). O estilo é dinâmico, marcado pelo uso do presente histórico e pela vivacidade dos episódios, retratando um Jesus profundamente humano — sujeito a emoções e fadiga — mas investido de autoridade divina. A teologia marciana privilegia a cruz em detrimento da glória, expondo as falhas dos discípulos em contraste com a fidelidade exigida pelo seguimento radical.
Embora a tradição patrística atribua a autoria a João Marcos, companheiro de Pedro, a exegese crítica tende a ver o autor como um helenista anônimo, familiarizado com tradições aramaicas. O chamado "final longo" (Marcos 16. 9-20) é considerado um acréscimo posterior, enquanto o encerramento abrupto em (Marcos 16. 8) reforça a ressurreição como um mistério a ser proclamado. Marcos representa a transição fundamental da tradição oral para o gênero literário "evangelho", exercendo profunda influência na cristologia centrada no sofrimento e na missão universal.
Na pesquisa contemporânea, debatem-se o contexto sociocultural — possivelmente comunidades em crise escatológica — e a crítica ao judaísmo institucional, sem que isso configure um antijudaísmo inerente. Sua influência persiste na liturgia e na teologia, ressaltando o valor redentor do sofrimento e o chamado ao discipulado mesmo diante da incompreensão.