A Segunda Carta de Paulo aos Coríntios é uma epístola paulina do Novo Testamento, endereçada à comunidade cristã de Corinto e aos crentes de toda a província da Acaia. O texto menciona Timóteo como coautor, e Jerônimo identificou Tito como o secretário responsável pela sua redação. De todas as cartas do corpus paulino, a Segunda aos Coríntios é aquela em que a personalidade de Paulo se revela com maior transparência e intensidade: a fraqueza humana e a força espiritual, a ternura profunda e a mágoa ferida, a ironia e o vigor da autoapologia, a humildade e o sentido justo da própria dignidade apostólica entrelaçam-se ao longo de treze capítulos que constituem um dos documentos mais vivos e complexos de toda a literatura cristã primitiva.
A questão da integridade literária da carta é um dos problemas mais debatidos da introdução ao Novo Testamento. Embora a autoria paulina seja aceita com amplo consenso, a unidade do texto como correspondência originalmente única tem sido questionada desde o século XIX. A mudança abrupta de tom entre os capítulos um a nove, de caráter relativamente sereno e afetivo, e os capítulos dez a treze, marcados por uma autodefesa apaixonada e por uma linguagem de combate, levou muitos estudiosos a propor que os últimos capítulos pertencem a uma carta diferente, possivelmente àquela que Paulo chamou de "carta das lágrimas" em dois momentos da correspondência, e que teria sido enviada entre a Primeira e a Segunda aos Coríntios. Os que rejeitam essa hipótese admitem que a carta das lágrimas foi perdida e que os capítulos dez a treze derivam de uma comunicação posterior integrada ao texto atual. Há ainda quem identifique nos capítulos oito e nove uma terceira unidade originalmente independente, relacionada à coleta para os pobres de Jerusalém. A discussão permanece aberta, e nenhuma hipótese alcançou o consenso definitivo.
Para compreender a carta é necessário reconstituir o complicado histórico das relações de Paulo com a comunidade de Corinto. Depois da fundação da comunidade durante a segunda viagem missionária, Paulo escreveu pelo menos uma carta hoje perdida, depois a Primeira aos Coríntios, depois fez uma visita dolorosa à comunidade, escreveu a carta das lágrimas e finalmente compôs o texto que chegou até nós como Segunda aos Coríntios, expressando o desejo de uma terceira visita. Os contornos dessa sequência são reconstituíveis a partir das próprias cartas, mas com inevitáveis margens de incerteza. O que é claro é que a relação entre Paulo e a comunidade coríntia foi atravessada por tensões reais, em que a sua autoridade apostólica foi contestada por alguns e em que ele se viu na necessidade de defender tanto a sua pessoa quanto o Evangelho que proclamava.
Os primeiros sete capítulos da carta têm um tom de reconciliação e reafirmação da relação afetuosa entre Paulo e a comunidade. Paulo começa por agradecer a Deus o consolo recebido nas tribulações, apresentando o sofrimento apostólico como participação no sofrimento de Cristo e fonte de consolação para os outros. Reflete sobre a sua mudança de planos de viagem para mostrar que não age com frivolidade, e convida ao perdão de alguém que havia sido sancionado. Um dos momentos teologicamente mais ricos da carta surge quando Paulo descreve o ministério apostólico como serviço de uma nova aliança: não de letra que mata, mas de Espírito que dá vida. A imagem do tesouro guardado em vasos de barro para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós é uma das sínteses mais memoráveis da teologia paulina da fraqueza e da graça.
Os capítulos oito e nove tratam da coleta organizada por Paulo nas comunidades da Macedônia e da Acaia para os cristãos pobres de Jerusalém. Paulo apresenta a generosidade dos macedônios como exemplo e convida os coríntios a completarem o que tinham começado. A argumentação não é de obrigação legal mas de graça: quem semeia em bênçãos colherá em bênçãos, e Deus ama quem dá com alegria.
Os capítulos finais, dez a treze, constituem uma apologia de tom mais agudo. Alguns opositores em Corinto acusavam Paulo de ser fraco em presença mas corajoso à distância, de falar mal e de não ter credenciais apostólicas suficientes. Paulo responde com a ironia da "loucura": se é preciso vangloriar-se, ele se vangloriará das suas fraquezas, das perseguições, dos naufráfios, do espinho na carne que Deus não removeu mas para o qual disse: "a minha graça te basta." Para a Igreja, essa teologia da fraqueza apostólica como espaço privilegiado da ação divina permanece um critério insubstituível de discernimento espiritual e ministerial.