O Livro de Malaquias encerra o conjunto dos Doze Profetas Menores no Tanakh e, nas tradições cristãs que dispõem os livros proféticos como seção final do Antigo Testamento, constitui o último texto antes do Novo Testamento. Essa posição de fronteira não é apenas topográfica: o livro aponta deliberadamente para o futuro, anuncia um mensageiro que preparará o caminho e promete o retorno de Elias antes do grande e terrível Dia do Senhor, fazendo da profecia de Malaquias uma espécie de soleira entre os dois Testamentos. O nome do profeta, em hebraico Malaquias, significa simplesmente "meu mensageiro" ou "meu anjo", e tanto a Septuaginta quanto estudiosos modernos debatem se se trata de um nome próprio ou de um título descritivo que acabou sendo atribuído ao livro como se fosse o nome do seu autor. O Talmude, no tratado Meguilá, apresenta a tradição segundo a qual o livro teria sido escrito por Esdras, e essa identificação encontrou ampla aceitação tanto na tradição judaica quanto em parte da cristã.
A composição do livro é situada pela maioria dos estudiosos no período persa, com as porções mais antigas datando de aproximadamente 500 antes de Cristo e com modificações posteriores no período helenístico. Um indício precioso de datação encontra-se no primeiro capítulo, onde o autor emprega um termo aramaico imperial para designar o governador — o que pressupõe o período pós-exílico, após 538 antes de Cristo, quando Judá não tinha mais um rei próprio mas um governador nomeado pelo poder persa. Como o mesmo versículo menciona o Templo reconstruído, o livro não pode ser anterior a 515 antes de Cristo, data da sua dedicação. O horizonte histórico que o texto pressupõe é, portanto, o de uma comunidade que já completou as grandes obras de restauração — o retorno do exílio, a reconstrução do Templo, a reorganização do culto — mas que começa a mostrar sinais de cansaço espiritual e de relaxamento moral.
É precisamente esse diagnóstico que estrutura toda a proclamação de Malaquias. O livro organiza-se como uma série de seis disputas ou diálogos entre o Senhor e os seus interlocutores, num estilo característico que formula a acusação divina, antecipa a objeção da audiência e responde a ela com crescente clareza. A primeira disputa responde à pergunta implícita do povo — "Em que nos amaste?" — invocando a eleição de Jacó em detrimento de Esaú e a ruína de Edom como prova histórica do amor preferencial de Deus por Israel. Já nessa abertura se percebe o estado de espírito da comunidade: um povo que não vê nas circunstâncias presentes a confirmação do amor de que foi objeto e começa a questionar a justiça e a fidelidade do Senhor.
As disputas seguintes expõem a negligência dos sacerdotes, que oferecem animais cegos, mancos e doentes no altar, economizando nos sacrifícios porque julgam que Deus não percebe a diferença. Para Malaquias, esse comportamento é uma afronta direta à majestade divina: se um governador persa não aceitaria tal oferta, quanto menos o Senhor dos Exércitos. O profeta denuncia ainda a dissolução de matrimônios com as esposas da juventude em favor de uniões com mulheres estrangeiras — comportamento que lê simultaneamente como infidelidade social e como metáfora da apostasia religiosa —, a retenção dos dízimos devidos ao Templo, e a tentação crescente de uma geração desiludida que observa os ímpios prosperar e começa a concluir que o serviço a Deus não compensa.
Na tradição cristã, Malaquias adquiriu uma importância messiânica de primeira ordem. O anúncio do mensageiro que preparará o caminho diante do Senhor foi aplicado pelos evangelistas a João Batista: Marcos abre o seu evangelho citando precisamente esse versículo. Jesus, nas tradições sinóticas, identifica explicitamente João com o Elias cuja vinda Malaquias havia anunciado. A promessa de que o Senhor virá de repente ao seu Templo, como refino e purificação, ressoou nas primeiras comunidades cristãs como anúncio da presença de Cristo. E a afirmação de que o nome do Senhor será grande entre todas as nações, com oferendas puras em todo o lugar, foi interpretada pela patrística como profecia da eucaristia celebrada em todo o mundo. Assim, o livro que encerra a profecia hebraica tornou-se, na consciência cristã, a abertura que prepara o Evangelho, a última voz que clama no deserto antes de o Verbo se fazer carne.