O Livro de Neemias compõe, junto com o Livro de Esdras, o capítulo conclusivo da narrativa histórica do Antigo Testamento. Durante séculos, os dois textos circularam como um único volume nas tradições hebraica e cristã primitiva. A separação definitiva consolidou-se apenas com as Bíblias impressas do século XVI, sendo as traduções protestantes reformadas de Genebra as primeiras a introduzir o título autônomo "Livro de Neemias" para o texto que até então era chamado de Segundo Livro de Esdras. Antes disso, os comentaristas medievais citavam suas passagens sempre como palavras de Esdras, jamais de Neemias, o que revela a profunda identificação das duas obras na consciência eclesial. O núcleo original do livro assume a forma de uma memória pessoal em primeira pessoa, e esse caráter memorialístico confere ao relato uma imediatidade e uma concretude pouco comuns na literatura bíblica, aproximando o leitor de um homem que escreve a partir de suas próprias experiências, decisões e fracassos.
Os acontecimentos narrados situam-se na segunda metade do século V antes de Cristo, quando Judá era uma entre várias províncias de uma satrapia maior dentro do Império Aquemênida, cuja capital ficava em Susa. Neemias ocupa ali um posto de considerável relevo: é copeiro do rei Artaxerxes I, função que implicava proximidade e confiança pessoal junto ao monarca. A notícia de que Jerusalém permanece sem muros, com suas portas destruídas pelo fogo, abala-o profundamente. Antes de agir, Neemias ora, confessa os pecados do povo de Israel e invoca a fidelidade divina às promessas feitas aos antepassados. Essa oração inaugural traça o perfil de um homem que não dissocia a iniciativa humana da dependência de Deus: age com determinação, mas reconhece que o êxito não lhe pertence. O rei, ao perceber a tristeza do copeiro enquanto este serve o vinho, abre espaço para o pedido, e Neemias solicita autorização para retornar a Jerusalém e reconstruir seus muros. Obtém não apenas a licença, mas também cartas de salvo-conduto, permissão para retirar madeira das florestas reais e uma escolta militar, o que mostra até que ponto a providência divina opera por meio das estruturas e das disposições de poderes humanos.
Chegando a Jerusalém, Neemias inspeciona secretamente as muralhas arruinadas antes de revelar seus planos aos líderes locais. Quando anuncia sua missão, convoca as famílias e os dirigentes da cidade a assumir cada um um trecho ou uma porta, transformando a reconstrução num esforço coletivo de extraordinária organização. A oposição não tarda: Sambalate, Tobias e Gesém, representantes de povos vizinhos que viam na restauração de Jerusalém uma ameaça ao seu próprio poder regional, valem-se do escárnio, da acusação de rebeldia e, por fim, da conspiração aberta para frustrar a obra. Neemias responde com igual medida de oração e vigilância: os trabalhadores constroem com uma mão e seguram as armas com a outra. O muro é concluído em cinquenta e dois dias, tempo que os próprios adversários reconhecem como sinal da ação de Deus.
A atuação de Neemias vai além da reconstrução material. Ao deparar com a opressão econômica que os nobres exerciam sobre os mais pobres, ele convoca uma assembleia e exige o cancelamento das dívidas e a restituição dos bens penhorados, comprometendo-se a dar ele próprio o exemplo de um governo justo e desinteressado. Depois da obra, reúne o povo e, com a colaboração de Esdras, promove uma solene leitura pública da Lei de Moisés, da qual nasce a celebração da Festa das Tendas e um ato coletivo de arrependimento e renovação da aliança. A comunidade compromete-se a separar-se dos povos vizinhos, a guardar o sábado, a prover o Templo e a respeitar as leis sociais e religiosas. Essa cena de renovação pactual situa Neemias numa linhagem de líderes que, como Moisés e Josué, constituem o povo pela Palavra e pela obediência.
Após doze anos à frente do governo de Judá, Neemias retorna a Susa, mas volta a Jerusalém ao constatar que as reformas foram abandonadas durante sua ausência. A obra legislativa precisa ser reimposta, e o livro encerra-se sem um desfecho triunfal, mas com a oração simples e reiterada do protagonista: "Lembra-te de mim, ó meu Deus, para bem." Para a tradição cristã, Neemias é figura do zelador da cidade de Deus, daquele que reconstrói as fronteiras espirituais de um povo chamado à santidade, antecipando o pastor que vigia e defende o rebanho que não lhe pertence, mas ao qual se consagra inteiramente.