17.março.2026
O sobrenatural diante da consciência.
O cristianismo deve legitimar-se diante da consciência; só a esse preço existe convicção séria; toda crença que não repousa sobre uma adesão da alma ao Evangelho não tem base sólida. É precisamente aí que está o traço característico da grande apologética, em primeiro lugar a do Mestre; ao declarar que o homem que faz a vontade de Deus reconhecerá que Sua doutrina é divina, não invocou Ele a consciência como Sua primeira testemunha? São Paulo em Atenas, São João em suas cartas não falaram de outro modo, e a teologia evangélica de nossa época se honrou ao pôr de novo em plena luz esse testemunho da alma naturalmente cristã, isto é, chamando o cristianismo por todas as suas aspirações superiores. Coube a nossos dias conturbados desnaturar essa grande prova e opô-la ao cristianismo sobrenatural, ao único que é de linhagem apostólica. Partindo desta ideia verdadeira de que a religião deve satisfazer a consciência, procura-se primeiro eliminar dela tudo o que ultrapassa um pouco nossas concepções naturais, como se a sede infinita que devora nossa alma e que é a própria sede de Deus não reclamasse precisamente uma satisfação infinita, que só podemos pressentir. Pretende-se em seguida que tudo o que é propriamente milagroso é inteiramente estranho às necessidades da consciência e que ela obteve tudo o que pedia quando se lhe apresentou no Evangelho o código de uma pura moral e a revelação da bondade divina. Assim que se insiste no caráter sobrenatural tão profundamente marcado em cada uma de suas páginas, protesta-se e se diz: “Vocês abandonam a grande apologia moral; vocês retornam aos desvios de uma teologia envelhecida”. Eis o que contestamos energicamente. Pensamos, ao contrário, que, se a consciência se apega ao cristianismo, é porque nele encontra esse elemento sobrenatural que lhe faltava nas mais nobres escolas filosóficas. É ele, afinal, o elemento verdadeiramente novo e original do Evangelho, pois, do ponto de vista da teoria, a sabedoria antiga havia entrevisto o amor divino e o amor dos homens. Apenas era uma ideia incompleta, e não passava de uma ideia. Aqui há a ideia viva, a ideia realizada, cumprida por um grande milagre. Queremos estabelecer que é precisamente esse milagre que a consciência reclama e que, em consequência, a grande prova moral conclui não pelo naturalismo deísta, mas pelo sobrenatural mais nítido.
Antes de tudo pedimos uma coisa: que seja realmente a consciência que se interrogue, e não apenas a inteligência, pois constantemente vemos os dois termos serem trocados na polêmica. Pedimos em seguida que seja a consciência reta e despertada. Que uma tal consciência seja verdadeiramente colocada diante de Jesus Cristo, e tenho certeza de antemão de que a fé vai desabrochar e desenvolver-se. Infelizmente, o que mais frequentemente falta é essa consciência reta. Quando ela está ausente, todos os raciocínios e todas as pesquisas não farão a questão religiosa avançar um passo no espírito de alguém.
Estas poucas páginas são apenas um esboço desse grande assunto. Eu as publico para afastar uma reprovação feita à nossa tendência nas últimas conferências de Paris, mostrando que se pode insistir na importância capital do sobrenatural sem renegar a apologia moral.
Assim, querendo mostrar claramente o que entendo por essa primeira condição da formação normal de nossas convicções, tomo um dos tipos mais puros e mais elevados da história evangélica; tomo João Batista na hora em que uma nuvem passou sobre sua fé e em que ele manda perguntar a Jesus, por meio de dois de seus discípulos, se Ele é de fato Aquele que deve vir.
Vocês podem ficar tranquilos quanto ao desfecho de uma crise semelhante. Quando é a consciência reta que interroga e Jesus que responde, uma grande luz deve irromper, e vocês logo reconhecerão que ela incide plenamente sobre o cristianismo sobrenatural.
Talvez alguém se admire de atribuirmos ao precursor uma dúvida, ainda que passageira. Pretendeu-se que, ao enviar dois de seus discípulos ao Salvador para Lhe perguntar se Ele era de fato o Messias, ele apenas quis fortalecer a fé deles, colocando-os em contato direto com o divino Mestre. Calvino chega mesmo a acusar de frivolidade os que pensam de outra maneira. Apesar do meu respeito pelo ilustre reformador, não posso admitir sua interpretação. Antes de tudo, ela não está de acordo com o texto. O primeiro sentido que se apresenta ao espírito é muito decididamente o nosso. Os discípulos de João Batista falam, sim, em nome de seu mestre. Se sua intenção fosse unicamente dissipar a incerteza deles, não entendo por que ele simularia a dúvida, o que era o meio mais seguro de tornar a hesitação deles mais grave. Ele deveria ter começado por se mostrar convencido ele mesmo e depois lhes dizer: “Dirijam-se Àquele que é maior do que eu e vejam com os próprios olhos”. Confesso que a ideia que faço desse grande servo de Deus seria diminuída se eu supusesse que ele empregou um meio indireto, digno dessa educação à Rousseau, toda feita de surpresas, em que o mestre representa seriamente uma comédia para instruir seu aluno. Seus discípulos sabem muito bem que falam em seu nome: “João Batista nos enviou para Lhe dizer: ‘O Senhor é Aquele que deve vir?’”.
Opõe-se à nossa interpretação o firme testemunho prestado pelo precursor a Jesus Cristo, no início de Seu ministério. Mas isso é esquecer a estranha mobilidade da natureza humana, que passa tão facilmente de uma impressão a outra e que não está presa às regras inflexíveis da lógica. Os grandes servos de Deus estavam sujeitos às mesmas fraquezas que nós. A Escritura tem uma santa imprudência, uma sublime candura, ao nos revelar suas misérias e suas quedas. Por que eu me espantaria com uma hora de dúvida naquele que é chamado o segundo Elias, quando vejo o profeta do Carmelo, o homem que tão bem merecia ser chamado a força de Deus, deitar-se no deserto debaixo de um zimbro, exclamando: “Basta, tira a minha vida.” Vocês querem lógica na vida dos santos! Certamente não a encontram nesse abatimento de Elias. É no momento em que ele desdobrou a maior energia que ele solta esse grito de aflição. É que nossa alma tem reações súbitas; ora está no sétimo céu, ora no pó. Reconheçamos também que é um mandato terrível ser a testemunha de Deus num mundo iníquo, entrar numa luta sem trégua com todas as potências do mal e ver tantas vezes secar e murchar a colheita de almas que se regou com suor e lágrimas. Um só pôde, sem vacilar, carregar esse fardo; mas também Ele era maior do que Elias e do que João Batista. E, contudo, foi no meio de muita angústia que Ele cumpriu Seu ministério; houve até uma hora em que Ele esteve mais abatido do que Elias, quando um suor de sangue banhava Sua fronte. Ele também quase disse em Getsêmani: “Basta!”. Ele clamou: “Que este cálice se afaste de Mim...” É verdade que, embora tenha atravessado o sofrimento extremo, Ele não conheceu a dúvida e se levantou todo radiante do puro esplendor de Sua santa obediência; mas, enfim, Ele gemeu, Ele chorou. Portanto, não se espantem se a fé de João Batista teve seu eclipse, mesmo depois de sua gloriosa visão do Jordão. Seu testemunho permanece; não é enfraquecido por essa crise, porque a verdade é maior do que nós e, se podemos tudo por ela, nada podemos contra ela.
A dúvida de João Batista, aliás, explica-se muito facilmente. O precursor ainda era um homem da antiga aliança; ele não havia ultrapassado seus limites; sua fé era admirável, mas seu conhecimento era imperfeito. Era um novo Moisés, que não devia transpor as fronteiras da terra da promessa. Eis por que Jesus Cristo declara que o menor no reino dos céus é maior do que ele, ao menos quanto ao conhecimento. Observem que essa declaração foi feita precisamente por ocasião da mensagem de João Batista, nova prova de que nossa interpretação é bem fundada. Observem também a conclusão do discurso: “Feliz aquele que não se escandalizar de Mim”; essas palavras contêm certa censura à hesitação de João Batista, censura que não dura mais do que a própria incerteza do precursor. Impregnado do espírito da antiga aliança, ele esperava, como os apóstolos naquela época, uma manifestação solene do Messias, precedida, sem dúvida, pela pregação do arrependimento e acompanhada pelo derramamento do Espírito de santidade, mas, ainda assim, triunfante e irresistível; em vez disso, o que ele viu? A missão do Mestre prossegue humildemente. Os chefes iníquos da nação ainda estão de pé, seu poder está intacto, e ele, o pregador da justiça, definha numa sombria prisão. Sua voz poderosa é condenada ao silêncio, e as multidões atentas já não podem mais acorrer às margens do Jordão para receber o batismo. O que abate esse coração heroico não é o cativeiro, não são as longas horas solitárias, essas correntes pesadas, essas frias trevas, essa perspectiva de morte. Não; o que o abate é o reino de Deus comprometido a seus olhos, é a interrupção súbita desse grande movimento que arrastava as massas, é a esperança que ele depositava em Jesus indefinidamente adiada. Ele é consumido pelo zelo da casa de Deus; não há nada de pessoal e egoísta em sua hesitação.
Essas últimas reflexões nos mostram que, mesmo na hora em que duvida, João Batista permaneceu o homem do dever. Vejam-no nesse obscuro calabouço: ele só tem uma palavra a dizer ou a fazer chegar a Herodes; basta até que prometa seu silêncio, basta que pareça aprovar o amor incestuoso do príncipe, e imediatamente suas correntes caem; em troca, ele encontra a liberdade, o favor real e os sorrisos de Herodias. O homem de Deus não hesitou um instante; ele permanece a testemunha inflexível da lei; do fundo de sua prisão úmida e obscura, ele faz ecoar a consciência de Herodes, e, quando o rei empalidece no leito de púrpura preparado para seus banquetes, é porque a lembrança do profeta cativo passou, como uma sombra, sobre sua fronte. Tais homens não são suportados por muito tempo. João Batista não aguardará a morte, se está decidido a cumprir até o fim a vontade de Deus.
Não há, portanto, nenhuma analogia entre a dúvida de João Batista e a dúvida frívola, que não passa de um divertimento do espírito ou que revela o desejo orgulhoso de libertar-se de toda crença. Há também uma dúvida que é um exercício culpável e perigoso da inteligência, brincando com o infinito, como “esses acrobatas insensatos” que estendem uma corda retesada sobre o Niágara e desfilam sobre o abismo. Nós conhecemos essa análise dissolvente das grandes noções do absoluto e do divino, que se assemelha, em tudo, a essas loucas temeridades. A dúvidas desse tipo, Jesus não responde. A verdade nada tem a ensinar também ao profano que tem medo da luz, porque suas obras são más. Nada de semelhante no precursor; ele é um filho da luz, que a quer mais viva e mais pura, e que caminha corajosamente na vereda da justiça. Ele não tem nada a esconder; ele quer claridades mais completas. João Batista, interrogando o Mestre, é, pois, de fato a consciência diante de Jesus Cristo. Como a harmonia que existe entre eles não apareceria com esplendor? O prisioneiro de Maqueronte não saberia repelir o crucificado do Calvário; o mártir da justiça foi feito para compreender a santa vítima da caridade. É, de fato, a grande voz da consciência que fala nele. Tal é o pedido, tal será a resposta, e vocês verão que essa resposta não poderia ser outra senão o cristianismo sobrenatural, com toda a sua grandeza. Pois a consciência só será satisfeita se a razão for infinitamente ultrapassada; o que ela quer é algo tão grande que não pôde subir ao espírito do homem.
Releiamos as próprias palavras do Salvador. “Então Ele respondeu aos discípulos de João: ‘Vão e relatem a João o que vocês viram e ouviram: que os cegos recuperam a vista; que os coxos andam; que os leprosos são purificados; que os surdos ouvem; que os mortos ressuscitam; que o Evangelho é anunciado aos pobres.’” O sentido das palavras do Mestre seria que nossa persuasão deve fundamentar-se no prodígio, isto é, numa simples manifestação de poder? Não; nada é mais estranho ao pensamento e ao método de Jesus Cristo. O prodígio, por si só, não estabelece a verdade de uma doutrina, pois não se poderia contestar que o poder do mal também possa ter manifestações extraordinárias. O maravilhoso bruto, por assim dizer, provaria o mal e o erro tanto quanto o bem. Nossos livros santos não falam dos milagres do Anticristo, “produzindo o erro eficaz”? Além disso, os prodígios se dirigem aos olhos e não ao coração; apelam ao homem exterior e não ao homem interior. Por isso, a fé que se apoia neles não tem nada de profundo e sólido. Jesus Cristo foi abandonado por aqueles que n’Ele haviam crido apenas com base em Seus atos miraculosos; eles Se apegavam aos Seus passos quando Ele multiplicava os pães; não se reencontraram quando Ele morria por eles na cruz. Se Ele tivesse querido fundar a fé em prodígios, tê-los-ia prodigalizado em vez de recusá-los à curiosidade de Seu povo. Quando os judeus Lhe pedem sinais exteriores e extraordinários de Sua missão, Ele os trata como geração incrédula e lhes declara que não lhes será dado outro sinal senão o milagre do profeta Jonas. Em várias ocasiões, Ele proclamou a impotência do prodígio. A conclusão da parábola do rico mau e de Lázaro é que o homem endurecido não se converteria, mesmo que um morto ressuscitasse. “Felizes”, dizia Jesus a Tomé, “os que creram sem ter visto!”. São Paulo resumia todas essas considerações, com sua ousadia habitual de linguagem, quando dizia: “Os judeus pedem prodígios, e os gregos querem sabedoria”. Em outras palavras, os primeiros querem ver a verdade com os olhos do corpo, e os segundos com os olhos da inteligência natural. Uns e outros são homens da vista, e não conseguem alcançar o mundo invisível, onde a alma, levada sobre as asas da fé, contempla essas coisas que olho nenhum viu e ouvido nenhum ouviu.
Essas coisas que olho nenhum viu e ouvido nenhum ouviu, o que seriam senão a própria revelação de Deus, daquilo que constitui Sua essência? Ora, o fundo de Seu ser não é Seu poder. — Ele é, sem dúvida, o Altíssimo e o Todo-Poderoso; mas, quando vocês pronunciaram essas palavras, ainda não O nomearam de verdade. Seu nome, Sua essência, é o amor. Segue-se que um prodígio que é apenas prodígio revela, sim, Seu poder, mas não Seu amor; ora, ignorar Seu amor é não O conhecer. O prodígio, portanto, não pode produzir a fé verdadeira, pois a fé conhece Deus e O possui. O que dizemos de Deus dizemo-lo igualmente d’Aquele que veio em Seu nome e que é a imagem expressa de Sua pessoa. Em consequência, os sinais mais brilhantes, por si sós, não fariam um cristão.
E, no entanto, dir-se-á, Jesus Cristo apela às Suas obras: “Se vocês não creem em Mim, creiam em Mim por causa dessas obras”. Sua resposta a João Batista faz claramente alusão aos Seus milagres. Concordo, mas cairíamos num grave erro ao assimilar as obras de Jesus Cristo a simples prodígios, a simples manifestações de Seu poder. Não há uma só que não faça resplandecer Seu amor. Percorram os milagres enumerados em nosso texto; eles não nos transportam para uma esfera infinitamente mais elevada do que a do maravilhoso? Eles não nos fazem entrar na pura e serena região da caridade? Nenhum deles é destinado a excitar apenas a admiração ou o espanto; eles em nada se assemelham ao vão prodígio que o tentador sugeria a Jesus, quando O instava a lançar-Se do alto do templo, para que os anjos O sustentassem em suas mãos. Esses milagres são todos marcados por uma bondade benfazeja. Para curar esses cegos, esses doentes, Ele Se aproximou deles com terna compaixão; por eles, Ele negligenciou os ricos e os poderosos; Ele os distinguiu no meio das multidões que se apinhavam em Seus passos, e ouviu sua queixa apesar dos murmúrios de Seus discípulos. Ele parou para tocar com Suas mãos esses pobres leprosos repelidos pelo povo; Ele lhes mostrou a mais solícita piedade e chorou com a viúva de Naim por seu filho antes de ressuscitá-lo.
É assim que, em cada um desses milagres, brilha um raio de Seu amor. Todos eles, em conjunto, nos remetem ao milagre que os domina, àquele que Ele mesmo designa como o milagre por excelência. “O Evangelho”, diz Ele, “é anunciado aos pobres!”. O Evangelho! Vocês compreendem tudo o que esse único termo encerra! O Evangelho não é o amor que se derrama na riqueza de Seus dons; é o amor que convém a uma raça infeliz e condenada, tal como aquela que nos é descrita em alguns traços no relato sagrado, a uma raça que conta tantos desgraçados, doentes, presa de tantos males diversos e que, enfim, está votada à morte. Quando, desses males exteriores, passamos às misérias interiores, das quais eles são apenas o símbolo demasiado fiel; quando consideramos essa venda de cegueira que está sobre os olhos do homem, essa lepra do pecado que o devora, essa paralisia da vontade que o torna incapaz de todo bem, essa morte moral que o atinge no fundo do seu ser, como ainda pretender que nada de extraordinário tenha acontecido em sua história? Quem não compreenderia que as manifestações do amor divino devem, elas mesmas, ser surpreendentes e extraordinárias, como o mal que é preciso curar? Em todo caso, não é a consciência que algum dia acreditará que tudo está na ordem, que o mal não passa de um acidente ou da condição do progresso. Isso são invenções de um espírito hábil em enganar-se. A consciência sente bem que o mal é um ato culpável que se deve imputar à criatura livre; ela mede sua extensão e sua gravidade pelo sofrimento que disso experimenta. Essa convicção é nela uma flecha afiada, cuja ponta não poderia ser arrancada. Seria realmente preciso violentá-la para que ela pusesse em dúvida o primeiro de nossos dogmas, aquele que mais escandaliza o orgulho humano. Ela crê na queda com toda a sua energia e com toda a dolorosa pungência de seus remorsos.
O Evangelho, que pressupõe a queda, põe diante de nossos olhos essas manifestações surpreendentes e extraordinárias do amor divino, destinadas a reerguer a raça decaída. Já não se trata simplesmente do amor que cria, mas daquele que salva, que perdoa e que Se dá! O Evangelho é o bom pastor que busca a ovelha desgarrada no fundo de um deserto; quando se sabe de onde Ele desce e até onde Ele desce, compreende-se que um amor assim só pode manifestar-se suspendendo as leis da ordem natural, e que Ele não Se deixará deter por nenhuma delas para realizar Sua obra imensa. Pois bem! o que há aí que possa provocar as reclamações de uma consciência reta como a de João Batista? Vou lhes dizer o que abalaria uma tal consciência: seria o pensamento de que há no céu um Deus poderoso e livre e, na terra, um ser infeliz e perdido, e que esse Deus julga Sua dignidade comprometida em abandoná-lo ao curso natural das coisas, porque esse curso natural foi determinado pelas leis da criação. Ah! é esse Deus, escravo de leis inflexíveis, que minha consciência rejeita, pois de duas uma: ou Ele não é livre, ou Ele não é bom. No primeiro caso, Ele não passa de um testa-de-ferro da lei natural; no segundo, Ele não é o ideal da bondade, e eu, que concebo esse ideal, valho mais do que Ele; numa e noutra alternativa, minha consciência se indigna e protesta. E que lhe importa a imutabilidade física, por assim dizer? O que ela precisa é do que eu chamaria de imutabilidade moral, aquela que faz com que o Deus de amor seja fiel a Si mesmo, à Sua essência, e que, para me salvar, Ele transtornará, se for preciso, o céu e a terra. Que é esse transtorno, se eu o comparo à mudança apavorante que se operaria em Deus, para que Ele recusasse Sua mão e Seu coração a uma pobre criatura caída, em nome de Sua dignidade, como o frio e majestoso soberano da criação? Um Deus assim não é Aquele “no qual não há sombra de mudança”. A sombra mais gelada e mais sombria se estendeu sobre Sua face; para mim, Ele já não é senão um objeto de pavor. Vê-Lo seria realmente morrer. O Deus que a consciência reclama é, portanto, Aquele que subordina a ordem natural a Seus desígnios misericordiosos; é Aquele que tem o direito de ter compaixão e que, de fato, teve compaixão. Assim, o sobrenatural não é um apêndice, um acréscimo na religião; é sua primeira crença, é a própria fé no Deus livre e amoroso, para o qual meu coração se lança. O Deus da minha consciência é o Deus que Se chama caridade.
Essa caridade nos aparece tanto mais admirável quanto mais absolutamente desinteressada ela é e quanto mais recai sobre seres mais miseráveis e mais degradados. A glória do amor mede-se por seus rebaixamentos. Quanto mais ele desce às últimas profundezas do sofrimento, mais se eleva aos olhos da consciência. Esse desinteresse absoluto, manifestado pela compaixão por tudo o que é frágil, desprezado, é o traço mais régio do amor. Vocês compreendem agora por que Jesus dá, como última prova da grandeza de Sua missão, que o Evangelho é anunciado aos pobres? O fato de Ele ter vindo ao meio de nossa raça caída e aviltada já era um primeiro e surpreendente rebaixamento. Pois bem: dentro dessa raça, Suas preferências foram por seus filhos mais infelizes, os mais ignorantes, os mais desprezados; Ele viveu com eles, fez Sua a dor deles, deu-Se a eles mais do que a qualquer outra classe. Estas simples palavras: “O Evangelho é anunciado aos pobres” apresentam-nos, portanto, o amor redentor em sua expressão mais alta e em seu redobramento, por assim dizer; elas no-Lo mostram descendo da morada da glória à morada da condenação, e depois descendo ainda, nessa última morada, para derramar-Se, antes de tudo, sobre o que ela encerra de mais miserável e de mais desprezado. É quando Ele chega a esse último grau, a esse último fundo da desventura e da pobreza humana, que Ele brilha com o mais vivo esplendor; é aí que o divino irradia com maior resplendor; é aí que melhor se revela a glória do Evangelho. Essa prova parte das profundezas de Deus para chegar às profundezas da alma humana. Com efeito, de um lado ela nos revela, não um simples atributo de Deus, como Seu poder, ou Sua grandeza, ou Sua onisciência; ela nos revela Seu próprio ser, revela-nos Seu coração, Seu coração de Pai. Além disso, não há mais nada. De outro lado, é o que há de mais acessível à nossa alma, é o que a alcança de modo mais seguro e mais íntimo. Não é questão de ciência, mas de consciência. O Evangelho anunciado aos pobres é compreendido, acolhido, recebido pelos pobres, porque ele atinge, no homem, o que ele tem de mais fundamental, seu coração, sua própria alma. Uma tal caridade corresponde à imagem de Deus que há em nós e que se confunde com o ideal moral que é a própria substância da consciência; esta se reanima e desperta diante das comoventes e supremas manifestações do amor divino, sobretudo quando as contempla em Jesus.
Vocês veem esse homem de rosto suave e sereno, cuja fronte está cingida de pureza como por uma auréola, cujo olhar atravessa os corações? Ele está rodeado de publicanos, de gente de má vida; trazem-Lhe os doentes em suas esteiras, os possessos clamam a Ele, os cegos chamam, e eis a pobre pecadora que se aproxima, com os olhos em lágrimas e, no entanto, cheia de esperança. Todas as dores Lhe fazem cortejo. Ele as atrai irresistivelmente. Escutem-No. Assim como o orvalho desce sobre uma terra queimada, assim desce Sua palavra sobre o coração dos desolados. “Ó vocês todos os cansados, ó vocês que estão sobrecarregados, venham a Mim”, disse Ele, “venham, e Eu lhes darei descanso”; e eles vieram, porque Ele não falava como os escribas e os fariseus; eles foram curados e consolados. Ele abraça todos os sofrimentos deles em Suas infinitas misericórdias. Ele tem compaixão das multidões que não têm o que comer e das ovelhas dispersas de Israel que estão sem pastor. Ele tem pão para a fome delas e palavras de vida eterna para a alma delas. Ele cura os doentes e perdoa os pecados. Por toda parte onde se chora, Ele vai para chorar e para socorrer; em Seus traços pálidos e em Seu olhar profundo, vi a marca de todas as dores de uma raça perdida. Assim avança o grande pastor das ovelhas, cercado pelo rebanho dos desolados; Ele Se mostra amigo, irmão e libertador deles, até o dia em que dará Sua vida por eles. Oh! como não exclamar com os judeus que O viram chorar junto ao túmulo de Lázaro: “Vejam como Ele os ama!” Não há aqui mais do que um amor humano? Não é esta a caridade de um Deus no que ela tem de mais comovente e de mais sublime? Vocês perguntam se Jesus era de fato Aquele que devia vir? Não é Ele quem sua alma esperava e pedia? Vocês conseguem imaginar um ser mais amoroso, mais santo, mais pronto a socorrer? O ideal de seus corações se elevaria mais alto? Caiam, pois, a Seus pés e adorem.
Dir-se-á talvez que a consciência estava mais satisfeita na época em que João Batista enviava seus discípulos a Jesus Cristo do que mais tarde, depois da cruz e da ressurreição? Não é assim. Ao contrário, é junto ao madeiro maldito e junto ao sepulcro vazio que ela encontra sua suprema satisfação. Eu sei: ao passar diante da cruz, o judeu que quer uma manifestação de glória terrena exclama: “Escândalo”, e o grego sutil que quer uma verdade puramente lógica diz: “Loucura”. Mas nem um nem outro falaram em nome da consciência. Ela sabe muito bem que, se a queda é uma tragédia pavorosa, a reparação não pode ser um idílio. Em toda parte e sempre ela reclamou a salvação pelo sacrifício. Às vezes essa reclamação foi misturada a erros grosseiros; a humanidade, e mesmo a humanidade cristã, demasiadas vezes atribuiu a Deus seus próprios sentimentos; viu uma vingança misteriosa onde há uma santa reconciliação operada por um grande sacrifício. A consciência sem dúvida protesta contra os erros e os exageros desta ou daquela teologia, mas mostrem-lhe a cruz do Evangelho, aquela em que o Homem de dores aceita a morte que não mereceu e fez a livre oblação do amor que reconduz a Deus, sobre esse altar sangrento, o coração da raça rebelde; mostrem-lhe “o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”, e ela se apega a essa cruz como à sua única tábua de salvação; ela só crê em seu perdão depois que ele foi assim selado. Todas as vezes que se elimina a noção do sacrifício redentor no drama do Calvário, entra-se em contradição não apenas com o ensinamento dos apóstolos, mas ainda com as aspirações profundas e universais da consciência humana. Mostrem-lhe o divino supliciado, mostrem-lhe Jesus orando e perdoando na hora da agonia, carregando em Seu coração compassivo o fardo de nossas transgressões, cobrindo o crime de Seus carrascos com um amor ainda maior, e vocês ouvirão de novo esse grito do centurião: “Verdadeiramente este homem é o Filho de Deus”. Eis o veredito da consciência sobre o rei coroado de espinhos, e é assim que ela aclama o que há de mais prodigioso nesse terrível sobrenatural da cruz.
Está tudo terminado para ela? Não; ela sabe bem que não é possível que o Justo por excelência permaneça no sepulcro, e que o salário do pecado seja a parte definitiva d’Aquele que, até mesmo em Sua morte, levou a santidade ao seu ponto culminante! Basta a simples noção de justiça para não admitir que Jesus permaneça deitado no pó. Se, ao terceiro dia, o amor redentor reaparece vitorioso da morte como do pecado, atestando por um fato retumbante que o resgate oferecido pela raça condenada foi aceito, a consciência explode numa alegria divina, pois é isso que ela esperava. Se a pedra do sepulcro não foi removida, nada nos confirma a redenção, “nossa fé é vã, somos os mais infelizes dos homens”, e sobre essa pedra podemos escrever, como nosso epitáfio: “Sem Deus, sem esperança”. Não se trata, portanto, simplesmente de obter uma nova assinatura no contrato que proclama nosso perdão. O próprio contrato não é ratificado sem a ressurreição. Mostrem, pois, à consciência humana que o sepulcro está vazio; do contrário, ela buscará outro Messias que não Jesus. Ó vocês que pensam de outro modo! Vocês então não sabem o que é a morte e o seu pavor, e não compreenderam que desordem espantosa ela revela em nossa condição moral. Se vocês sabem de fato o que é morrer, para uma raça destinada à vida eterna, vocês não considerarão como coisa indiferente que os laços do túmulo tenham sido quebrados com poder pelo novo Adão! Em todo caso, falem apenas por vocês mesmos, vocês que proclamam indiferente a ressurreição de Cristo, e não se apresentem como porta-vozes da consciência cristã.
Vocês veem: ela não pode satisfazer-se com uma noção banal do amor e da justiça, como a que se encontra em todas as doutrinas humanas, como um resíduo insípido e sem cor. O que ela precisa é do amor redentor com o seu mistério, com a sua loucura, com os seus rebaixamentos e os seus triunfos; o que ela precisa é da cruz e da ressurreição! Nós, portanto, nos apoderamos da grande prova moral e interna para estabelecer o que parece mais estranho à natureza humana, o que a ultrapassa infinitamente, e ousamos dizer que, no fundo, ela sempre e em toda parte pediu o que lhe foi concedido neste Evangelho sobrenatural, do qual zomba uma teologia superficial que não soube ler o livro da alma melhor do que o livro da revelação. Deem-nos consciências retas e profundas como a do Batista, e vocês verão se elas se contentam com menos. Mesmo que um anjo lhes oferecesse outro Evangelho que não o antigo, elas o repeliriam; estejam certos de que, no dia em que, no mundo e na Igreja visível, a consciência tiver retomado seu vigor nativo, vocês verão todas as formas, mais ou menos atraentes, de um cristianismo diminuído desaparecerem e se dissolverem diante da energia de suas aspirações, como a estopa se consome numa chama ardente.
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Edmond de Pressensé
Título original: Le surnaturel devant la conscience.
Revue Chretienne, 1865.
Nota do título pelo autor: "Estas poucas páginas são apenas um esboço deste vasto tema. Publico-as para refutar uma crítica dirigida à nossa linha de pensamento nas recentes conferências de Paris, demonstrando que é possível enfatizar a importância crucial do sobrenatural sem abandonar a justificação moral."