O Livro de Ester pertence, no cânon hebraico do Tanakh, ao terceiro grande conjunto de escritos conhecido como Ketuvim, e integra o grupo das cinco Meguilot, os cinco rolos litúrgicos associados às festas do calendário judaico. É lido integralmente na festa de Purim, celebração que comemora a salvação do povo judeu de um genocídio planejado no coração do Império Persa. O livro chegou até nós em três versões distintas: uma hebraica e duas gregas, sendo que as versões gregas ampliam consideravelmente o texto original, acrescentando orações de Ester e Mardoqueu, referências explícitas à piedade dos protagonistas e outros elementos devocionais ausentes do hebraico. Esse contraste é em si mesmo significativo: o texto hebraico, de elevada qualidade literária, é notoriamente parco em linguagem religiosa explícita, e as versões gregas representam, em parte, uma correção deliberada dessa sobriedade.
A narrativa se passa na corte persa de Susa, durante o reinado de Assuero, identificado pelos estudiosos com Xerxes I. O rei repudia a rainha Vasti por sua recusa em comparecer a um banquete real, e uma busca por nova esposa conduz ao palácio a jovem Hadassa, também chamada Ester, judia de origem benjaminita criada pelo seu primo Mardoqueu após a morte de seus pais. Por conselho deste, Ester oculta sua identidade religiosa e étnica na corte. Favorecida pelo eunuco responsável pelo harém e eleita pelo próprio rei, ela é elevada à dignidade de rainha numa cena de intimidade deliberadamente desprovida de pompa cerimonial, contrastando com os festivais exuberantes que atravessam o livro. A estrutura narrativa é, aliás, uma das suas marcas mais sofisticadas: oito banquetes se sucedem ao longo do texto, agrupados em quatro pares que espelham a trajetória da ameaça e da salvação, e a trama inteira obedece a um esquema de inversão progressiva em que tudo o que foi rebaixado se eleva e tudo o que foi exaltado tomba.
A ameaça central emerge quando Mardoqueu recusa-se a prostrar-se diante de Hamã, o grão-vizir elevado pelo rei acima de todos os seus conselheiros. O texto não explicita o motivo da recusa, mas a tradição interpretativa judaica a entende como expressão de fidelidade religiosa: a prostração absoluta pertence somente a Deus. Hamã, ferido em seu orgulho, planeja não apenas a vingança sobre Mardoqueu, mas o extermínio de todo o povo judeu no império, e obtém do rei um édito nesse sentido por meio de sorteio que fixa o décimo terceiro dia do mês de Adar. O rei, retratado como figura maleável e politicamente ingênuo, sela o decreto sem discernir plenamente suas implicações. Enquanto Assuero e Hamã festejam, os habitantes de Susa ficam consternados. Mardoqueu assume então um comportamento público de penitência, instando Ester a interceder junto ao rei. A resposta de Ester passa por um jejum de três dias, partilhado por todos os judeus de Susa, antes de ela arriscar a vida apresentando-se diante do rei sem ter sido convocada. A cena da audiência, especialmente desenvolvida na versão grega, é um dos momentos de maior tensão dramática do livro.
A salvação se consuma por uma série de reviravoltas que o texto apresenta com ironia fina e calculada: Hamã, convocado para honrar Mardoqueu, vê-se obrigado a conduzir em triunfo aquele cuja morte havia planejado; a forca que mandou erguer para Mardoqueu torna-se o instrumento de sua própria execução; e o édito de extermínio é contrabalançado por um segundo édito que concede aos judeus o direito de se defender. O desfecho combina a elevação de Mardoqueu ao posto de Hamã e a instituição da festa de Purim como celebração anual da libertação, com troca de presentes e banquetes que replicam, no registro da alegria, os banquetes reais que abriram a narrativa.
Do ponto de vista histórico-crítico, a maioria dos estudiosos considera o livro uma composição literária de alta elaboração artística, provavelmente redigida no século III antes de Cristo, em ambiente de diáspora judaica oriental, como resposta às ameaças de perseguição que as comunidades judaicas enfrentavam no contexto das guerras dos diádocos após Alexandre Magno. As incongruências históricas são numerosas: a esposa de Xerxes I conhecida pelas fontes gregas era Amestris, de ascendência persa nobre, e vários detalhes dos éditos reais narrados no livro contradizem a prática administrativa do Império Aquemênida. A ausência do nome de Deus no texto hebraico, único caso na Bíblia, foi interpretada de formas diversas, sendo a mais sugestiva a de que o leitor é convidado a reconhecer por si mesmo a providência divina operando anonimamente por detrás dos acontecimentos humanos.
Na tradição cristã, a recepção do livro foi ambivalente, mas rica em tipologia. Ester foi cedo lida como prefiguração de Maria: assim como a rainha intercede perante o rei pela salvação de seu povo, Maria intercede perante Deus pela redenção da humanidade. Essa leitura atravessou o pensamento patrístico, medievo e litúrgico, deixando rastros na iconografia das catedrais, nos rituais de coroação das rainhas medievais e nos comentários de figuras como Hrabano Mauro e António de Pádua. Para além da tipologia mariana, o livro convoca a Igreja a reconhecer que a salvação opera frequentemente por caminhos inesperados, por figuras que parecem marginais, e que a fidelidade silenciosa pode ser, em certas horas da história, a forma mais radical de testemunho.