Que todos os povos louvem ao Senhor.
Para o Mestre; com música de cordas. Um Salmo, um Cântico.
¹Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe;
Faça resplandecer o Seu rosto sobre nós. Selá.
²Para que o Teu caminho seja conhecido na terra,
E a Tua salvação entre todas as nações.
³Louvem-Te os povos, ó Deus;
Louvem-Te todos os povos.
⁴Alegrem-se e cantem de júbilo as nações,
Porque julgarás os povos com justiça
E governarás as nações da terra. Selá.
⁵Louvem-Te os povos, ó Deus;
Louvem-Te todos os povos.
⁶Então a terra dará o seu fruto,
E Deus, o nosso Deus, nos abençoará.
⁷Deus nos abençoará,
E todos os confins da terra O temerão.
O sexagésimo sétimo salmo, de acordo com a ordenação canônica do Texto Massorético hebraico, constitui um dos mais expressivos hinos de ação de graças e apelo universal do saltério bíblico. Na contagem preservada pela Septuaginta grega e pela Vulgata Latina, a peça recebe a numeração de Salmo sessenta e seis, sendo identificada na tradição litúrgica ocidental pelo seu incipit latino Deus misereatur. A arquitetura literária do poema, estruturada originalmente em sete versículos no idioma hebreu, apresenta uma refinada disposição concêntrica que converge para a afirmação teológica do versículo central, o qual exalta o julgamento reto e o governo soberano do Altíssimo sobre todas as nações. A costura exegética desenvolve-se a partir de um nexo simétrico que enquadra o texto: inicia-se com uma fervorosa imploração pela misericórdia e pelo resplendor da face divina sobre o povo eleito, transitando por estribilhos de aclamação coral, e culmina com a constatação prática da bênção do Criador manifesta na fecundidade e na colheita da terra.
Sob a ótica da hermenêutica cristã e da eclesiologia patrística, o alcance deste salmo transcende o particularismo nacional de Israel, sendo interpretado como um claro vaticínio da difusão ecumênica do Evangelho. A súplica do salmista para que o caminho do Senhor seja conhecido em toda a terra encontra seu cumprimento definitivo na missão apostólica confiada por Jesus Cristo e na subsequente expansão da Igreja, onde a herança e as promessas divinas, outrora ouvidas em figura, realizam-se visivelmente na comunhão de diversos povos. A investigação técnico-crítica do texto tem motivado diferentes vertentes interpretativas ao longo dos séculos, que buscam contextualizar sua origem a partir de cenários históricos específicos, como o cerco de Senaqueribe a Jerusalém ou os triunfos da revolta macabaica, enquanto a crítica formal de cunho cultual prefere associar a gênese do poema às liturgias festivas de gratidão pelas colheitas agrícolas.
A expressividade formal e o profundo simbolismo do Salmo sessenta e sete conferiram-lhe uma presença notável nas diversas tradições litúrgicas e artísticas do cristianismo e do judaísmo. Na práxis hebraica, a contagem exata de quarenta e nove palavras no original motivou sua recitação mística durante o período do omer, originando a tradição cabalística de transcrever seus versículos na forma geométrica de uma menorá. No catolicismo ocidental, Bento de Nursia integrou a peça de modo permanente nas laudes dominicais e cotidianas de sua regra cenobítica, mantendo-se como um salmo invitatório na moderna Liturgia das Horas, além de figurar no lecionário da Missa em festividades do ciclo do Advento e da Páscoa. Essa universalidade reflete-se igualmente na hinódia reformada, por meio das paráfrases métricas e corais de eclesiásticos como Martinho Lutero e Henry Francis Lyte, e nas elaborações polifônicas e modernistas de compositores sacros que estendem o legado musical do texto desde Thomas Tallis e Michel-Richard de Lalande até as vanguardas do século vinte com Charles Ives.
SALMO 67
Ao mestre de música. Com instrumentos de cordas. Salmo. Cântico.
¹Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe; faça resplandecer sobre nós o seu rosto. Selá.
²Para que o teu caminho seja conhecido na terra, e a tua salvação entre todas as nações.
³Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te todos os povos.
⁴Alegrem-se e exultem as nações, pois julgas os povos com justiça e guias as nações sobre a terra. Selá.
⁵Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te todos os povos.
⁶A terra deu o seu fruto; Deus, o nosso Deus, nos abençoe.
⁷Deus nos abençoe, e todos os confins da terra o temam.
A versão grega e a Vulgata Latina trazem: “Deus tenha misericórdia de nós”, e, no lugar de Selá, repetem: “Leitura: tenha misericórdia de nós.” No restante, concordam suficientemente com o texto.
Trata-se de uma oração do povo de Israel, que busca uma manifestação do favor divino para consigo, a fim de que, por meio dele, como em um modelo diante de todas as nações da terra, o conhecimento da bondade de Deus se torne conhecido para a glória e magnificência do próprio Deus.
Neste salmo são tratados principalmente três pontos:
Primeiramente, os israelitas pedem a graça e a benevolência de Deus (versículos 1, 6 e 7).
Em seguida, apresenta-se a razão desse pedido: para que os caminhos de Deus sejam conhecidos por toda a terra (versículos 2 e 4).
Por fim, deseja-se que todos os povos nele se alegrem, o louvem por toda parte e lhe prestem obediência (versículos 3, 4, 5 e 7).
“Deus nos favoreça.” A palavra hebraica “favor” possui um significado mais amplo do que “misericórdia”. A misericórdia se aplica às situações de aflição; o favor, porém, não apenas às adversidades, mas também às circunstâncias de prosperidade. Por isso, é mais apropriado traduzir: “Deus nos favoreça”, do que: “Deus tenha misericórdia de nós.”
“Abençoe-nos.” Isto é, faça-nos o bem.
“Faça resplandecer sobre nós o seu rosto.” A serenidade do rosto é, em sentido figurado, um sinal de benevolência e favor. Assim, dizer: “Faça resplandecer sobre nós o seu rosto” equivale a dizer: “Favoreça-nos”; apenas se acrescenta a imagem do semblante sereno como manifestação exterior do favor que se conserva no íntimo para com aquele que é amado.
Não é sem razão que, em primeiro lugar, eles suplicam pela graça e pelo favor de Deus. Se ele não favorecer alguém, é impossível que essa pessoa seja salva. Em primeiro lugar, é certo que todas as coisas estão em suas mãos, de modo que nenhum mortal pode fazer qualquer bem a si mesmo sem ser auxiliado por ele. Esse auxílio não pode ser merecido, como se Deus se tornasse devedor de alguém; tampouco pode ser obtido por troca equivalente ou conquistado pela força.
Além disso, é igualmente certo que aquilo que não pode ser merecido, comprado por qualquer preço nem adquirido pela força é concedido em abundância unicamente por esse favor, de modo que nada falta àquele que dele participa.
Por isso, o salmista acrescenta imediatamente: “E nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o seu rosto”, isto é, manifeste a sua bondade por meio de seus benefícios.
O mesmo ensina Paulo: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8). Pois como Deus abandonaria aqueles a quem favorece? Vemos o que os reis concedem aos que lhes são queridos. Quanto mais, então, não carecerão de bem algum aqueles que Deus jamais poderá abandonar?
Há, portanto, duas considerações principais neste trecho.
Antes da bênção, isto é, da beneficência de Deus, o salmista coloca o seu favor e a sua graça, e não o mérito de nossa justiça. Assim aprendemos a reconhecer, em todos os benefícios divinos, não aquilo que merecemos, mas o quanto Deus nos favorece.
Em seguida, ao favor de Deus ele une a bênção e a beneficência, para nos persuadir de que certamente participarão da bênção divina todos aqueles que Deus acolhe com o seu favor.
Esta passagem pertence à segunda parte do salmo, na qual se apresenta a razão do pedido feito no primeiro versículo, isto é, por que o povo suplica que a graça e a benevolência divinas se manifestem sobre ele.
Eles não dizem: “Para que nos vá bem e sejamos admirados entre todas as nações.” Buscam algo muito mais elevado. Antes de tudo, desejam que Deus seja conhecido. Querem que, em si mesmos, como em um modelo vivo, resplandeça quem é o verdadeiro Deus.
É esse mesmo sentimento que leva os santos, quando estão em meio às tentações, a temerem mais a obscuração do nome divino do que qualquer perigo que possa recair sobre eles. Assim também aqui, pedem sobretudo que a graça de Deus se manifeste neles para que, por seu intermédio, o conhecimento de Deus se propague entre as demais nações.
Israel era o povo de Deus, no qual se tornava visível quem Deus é, assim como o caráter do pai se manifesta no filho, ou como o modo de governar revela o caráter de um governante. Pois, assim como a infidelidade e a impiedade de um povo trazem desonra ao nome de Deus, também, quando um povo parece abandonado por Deus, isso leva os ímpios a formarem uma opinião errada a respeito dele.
Além disso, eles não dizem simplesmente: “Para que Deus seja conhecido na terra”, mas: “Para que o teu caminho seja conhecido na terra.”
Por “caminho de Deus” entendem o modo de agir e o procedimento pelo qual Deus costuma guardar e proteger, com perfeita fidelidade e bondade, o seu povo que permanece fiel à sua aliança.
É nesse sentido que o Salmo 25 afirma que todos os caminhos do Senhor são bondade e fidelidade para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos.
É também nesse sentido que acrescentam:
“E entre todas as nações, a Tua salvação.”
Isto é, para que todos conheçam quão poderoso e fiel Deus é para salvar os seus.
Não falam daquela bondade e providência pelas quais Deus governa todas as coisas em geral, como em Mateus 5, onde se diz que ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, mas da bondade que manifesta de modo especial para com aqueles que o temem.
Somos, portanto, ensinados acerca do que devemos conhecer em Deus e para qual finalidade tendem todas as obras que as Escrituras registram sobre sua inefável bondade para com Israel. Elas não foram escritas para que investiguemos os aspectos mais ocultos da essência e da natureza divina, nem os seus juízos insondáveis, mas para que aprendamos e abracemos fielmente aquilo que é útil e necessário para a nossa salvação.
Por essa razão, o salmista propõe que o caminho de Deus seja conhecido não por meio de sua ira e indignação contra os ímpios, mas por meio de sua bondade.
Ninguém é conhecido como bom por aquilo que faz apenas ocasionalmente, mas pelo que lhe é próprio por natureza.
Deus não se ira por natureza; sua ira se manifesta em resposta ao pecado, para que os maus sejam castigados. Sua bondade, porém, pertence à sua própria natureza: não é passageira nem ocasional, mas eterna.
Assim também, o caráter de um pai não é corretamente conhecido quando ele repreende o filho, mas quando demonstra seu amor e sua bondade para com ele. A disciplina é um ato temporário e motivado por uma circunstância específica; já o favor e a beneficência revelam um afeto permanente e natural.
Da mesma forma, especialmente para aqueles que ainda são menos instruídos, a graça de Deus para com o seu povo se torna mais claramente conhecida por meio de suas bênçãos manifestas do que por meio da vara da disciplina.
Acrescentam também por quem desejam que o caminho e a salvação de Deus sejam conhecidos.
“Na terra”, dizem eles, isto é, por todos os habitantes da terra. Isso é expresso de modo ainda mais claro quando acrescentam:
“Entre todas as nações, a Sua salvação.”
Quão distante desse sentimento estavam os judeus que reivindicavam exclusivamente para si a comunicação do conhecimento divino e invejavam que ele fosse concedido aos gentios. Daí surgiu a rivalidade dos judeus contra os gentios no início do reino de Cristo.
Se, porém, tivessem verdadeiramente reconhecido a verdade e desejado a glória do nome divino conforme o ensino desta passagem, teriam recebido com grande alegria a verdade do reino dos céus e desejado que esse conhecimento do caminho e da salvação de Deus fosse concedido a todos os povos da terra.
Entretanto, pode-se perguntar como, a partir daquilo que Deus realizou em favor de Israel, as nações poderiam conhecer o caráter de sua bondade e fidelidade. Ainda que as Escrituras testemunhem o grande favor de Deus para com Israel, disso não se segue imediatamente que os gentios devessem esperar que Deus lhes demonstrasse o mesmo favor.
Em primeiro lugar, como já foi dito, o caráter de Deus é conhecido por aquilo que ele revelou em favor de seu povo.
Em segundo lugar, porque Deus é imutável e não faz acepção de pessoas. Antes, como Pedro declarou a Cornélio, “em qualquer nação, aquele que o teme e pratica a justiça lhe é aceitável.” Assim, os gentios não apenas podem conhecer a bondade de Deus por meio do que ele fez em Israel, mas também podem esperar essa mesma bondade, desde que se entreguem a ele pela fé e dele dependam.
Além disso, essa fidelidade e verdade de Deus, outrora manifestadas para com Israel, derramaram-se muito mais abundantemente sobre o mundo inteiro por meio de Cristo nos últimos tempos, de modo que o conhecimento da salvação de Deus — isto é, de que Deus é o Salvador de todos os que nele creem — tornou-se claríssimo.
Assim está escrito:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que n'Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
O Espírito Santo revelou antecipadamente essas coisas ao profeta; por isso, ele propôs este salmo para ser entoado na congregação dos fiéis.
“Louvem-Te os povos, ó Deus; louvem-Te todos os povos.”
Estas palavras, juntamente com as que seguem, pertencem à terceira parte do salmo.
Aqui parece ser apresentado o próprio propósito para o qual deve conduzir o conhecimento de Deus: que Deus seja louvado e celebrado por todos.
Embora o verdadeiro conhecimento de Deus conduza à vida eterna, o seu fim último é a glória de Deus. Por isso também o apóstolo, em Efésios 1, afirma que toda a graça do Novo Testamento, concedida mediante a eleição divina e o conhecimento de Cristo, tem um único propósito: o louvor da glória e da graça de Deus.
E com razão. Para esse fim devem convergir todas as coisas, tanto as que dizem respeito à felicidade presente quanto à felicidade eterna. Todas as coisas foram criadas para esse propósito. Tudo o que não conduz a esse fim deve ser considerado verdadeiramente diabólico.
Este versículo possui uma força expressiva notável.
Em primeiro lugar, pela apóstrofe dirigida a Deus na expressão “a ti”. É como se dissesse: “A ti louvem os povos, e não aos deuses falsos, pois somente tu és o verdadeiro Deus.”
Em seguida, porque não diz: “Nós te louvaremos, ó Deus”, mas: “Louvem-te os povos; louvem-te todos os povos.” Dessa forma, manifesta o profundo desejo de um coração piedoso, que anseia ardentemente que Deus seja louvado e engrandecido por todos os povos de toda a terra.
Finalmente, pela repetição dessas palavras, que voltam a aparecer neste versículo e novamente no versículo 5. Com isso, o salmista demonstra que esse ensino jamais pode ser suficientemente enfatizado. Não basta dizê-lo uma única vez; é proveitoso repeti-lo continuamente.
Primeiramente, deve-se observar neste trecho o mesmo princípio anteriormente apresentado: Deus é o fim para o qual se dirige este versículo. Assim como havia dito: “Para que o teu caminho seja conhecido na terra”, agora acrescenta: “Louvem-Te os povos, ó Deus.” O conhecimento de Deus é colocado como o fim para o qual devem ser conduzidos os corações dos homens. Portanto, não é suficiente que Deus seja conhecido pelos homens se, juntamente com esse conhecimento, não houver também o devido louvor. O conhecimento de Deus não alcança seu propósito quando não produz a correta doutrina, mas apenas quando leva ao louvor de Deus. Tampouco Deus julga digna do seu favor uma fé desprovida dessa confissão.
Além disso, deve-se observar que, visto ser o principal propósito de Deus em todas as suas obras que a glória do seu nome seja proclamada, também é dever dos santos declarar isso em todas as ocasiões. Assim, não apenas pedem que Deus seja conhecido em Israel, mas que ele seja conhecido entre todas as nações, por toda parte.
“Louvem-Te os povos, ó Deus.” Os santos desejam que Deus seja reconhecido por todos e celebrado, porque percebem que esse é o verdadeiro benefício: que todos os seres humanos aprendam a conhecer Deus. Este é o bem supremo da vida, que todas as terras possam experimentá-lo. Por isso, suplicam para que Deus seja conhecido entre todos, como eles próprios já o haviam experimentado.
Segue-se naturalmente o louvor e a ação de graças, isto é, a manifestação da alegria interior. Portanto, aqueles que não se alegram em Deus tampouco podem louvá-lo verdadeiramente. A verdadeira alegria sempre acompanha a fé, a esperança e a salvação; por isso, onde não há esse afeto, não pode haver sincero fervor.
A mesma verdade é confirmada quando, logo depois, acrescenta:
“Alegrem-se e exultem as nações.”
Isso significa que o conhecimento de Deus não consiste apenas em uma confissão exterior ou em palavras pronunciadas pelos lábios, mas em um coração que verdadeiramente se alegra em Deus.
A tradução hebraica corresponde ao sentido da versão grega e da tradução latina.
“Louvem-Te os povos, ó Deus.” Não há nada mais alegre nem que produza maior contentamento do que o conhecimento do verdadeiro Deus, o qual concede aos homens mortais o seu favor e os enriquece com benefícios. Dessa fonte procedem todas as alegrias verdadeiras e todas as felicidades. Por isso, nada contribui tanto para produzir alegria quanto o conhecimento de Deus.
“Alegrem-se e exultem as nações.” Como a bondade de Deus consiste na salvação dos homens, e Deus quer ser celebrado como Salvador, é apropriado que, onde quer que esse ensinamento seja ouvido, os povos imediatamente se alegrem, exultem e se regozijem. Pelo contrário, nada produz tanta tristeza e terror quanto a ira de Deus contra os ímpios.
E a razão dessa alegria é acrescentada em seguida:
“Pois julgas os povos com equidade e guias as nações sobre a terra.”
Essas palavras mostram que Deus governa os homens com justiça e dirige os povos por sua providência.
“Julgas os povos com equidade.” Não se refere aqui ao juízo pelo qual Deus condena os ímpios, mas ao governo justo pelo qual rege o mundo. É por isso que se acrescenta:
“E guias as nações sobre a terra.”
O verbo “julgar” é empregado no sentido de governar. Assim, o significado é que Deus governa os povos com justiça, ordem e prudência.
É por essa razão que os fiéis encontram motivo de alegria: sabem que o governo do mundo não foi entregue ao acaso nem aos homens, mas pertence ao próprio Deus.
Consequentemente, ainda que vejamos muitas injustiças entre os homens, devemos manter firmemente a convicção de que Deus governa retamente todas as coisas segundo sua providência. É isso que sustenta os piedosos em toda aflição e lhes proporciona verdadeira alegria, pois reconhecem que todas as coisas são dirigidas pela sábia providência de Deus e, por isso, têm motivo para se alegrar e exultar nele.
“Sobre a terra.” A expressão “na terra” (בארץ) não exclui as coisas celestiais, mas combate o erro daqueles que imaginam que Deus não se ocupa das realidades terrenas. Entre esses se encontram também os que citam indevidamente o Salmo 115: “Os céus são os céus do Senhor, mas a terra ele deu aos filhos dos homens.”
Que grande consolação não trará aos mortais aflitos a certeza de que Deus cuida, por sua providência, não apenas das coisas celestiais, mas também das terrenas, protegendo e governando os seus não somente na vida futura, mas também nesta vida presente?
A expressão hebraica “na terra” (בארץ) também pode ser entendida como referência à terra inteira, para que compreendamos a providência universal de Deus, pela qual ele governa e dirige todos os povos da terra. Também nesse sentido é afirmada a glória do verdadeiro Deus e excluída a pretensão dos deuses falsos.
“A terra deu o seu fruto.”
David Kimhi lê o verbo no futuro e, conforme seu costume, entende esta passagem como uma referência à futura libertação dos judeus. Segundo ele, depois da destruição de todos os ímpios, a terra se tornará universalmente fértil.
Não negamos que a fertilidade da terra seja um dom de Deus; contudo, entendemos que o Espírito Santo fala aqui de outra espécie de fecundidade.
Por “terra”, compreendem-se os habitantes da terra. Eles produzem o seu fruto quando reconhecem, adoram, proclamam e louvam a Deus.
É provável, porém, que “terra” designe mais especificamente os habitantes da terra de Canaã, isto é, o povo de Israel, cujo fruto consiste na piedade, no culto e no louvor a Deus.
Essa interpretação parece ser confirmada pelas palavras que seguem:
“Deus, o nosso Deus, nos abençoe; Deus nos abençoe, e todos os confins da terra o temam.”
Ser abençoado equivale a tornar-se fecundo. E quem é essa “terra” fica evidente quando o salmista diz: “a nós.”
Percebe-se claramente que essas palavras são pronunciadas com o mesmo sentimento que inspirou o início do salmo. O sentido é:
“Conceda Deus que esta terra, isto é, o Teu povo, produza os frutos da piedade. Abençoe-nos o nosso Deus, para que, por nosso exemplo, todos os confins da terra comecem a adorá-lo.”
Nas Escrituras, o verbo hebraico “temer” (ירא) é frequentemente empregado no sentido de prestar culto e obedecer a Deus.
A repetição tanto da bênção quanto do nome de Deus revela a intensidade desse desejo. Ao mesmo tempo, manifesta a profunda alegria da alma fiel, que se gloria ao dizer:
“O nosso Deus.”
Observe-se também como o salmista une a alegria em Deus e o temor de Deus.
Pela alegria são excluídas a desconfiança, a tristeza e a ansiedade; pelo temor, são afastados o desprezo e a falsa segurança.
Assim ensina também o Salmo 2:
“Sirva ao Senhor com temor, e regozije-se com tremor.”
Portanto, este salmo deve ser cuidadosamente meditado por nós, que, dentre os gentios, fomos incorporados ao povo de Deus.
Ele nos chama, juntamente com todas as nações, ao conhecimento do verdadeiro Deus, abandonando os ídolos; e expõe com extraordinária clareza a essência da verdadeira piedade.
Primeiramente, ensina de onde procede o conhecimento de Deus e em que ele consiste.
Depois, mostra quais são os seus frutos: o louvor de Deus, a alegria e a exultação do espírito em Deus, e o culto que lhe é devido.
Esse culto é apresentado como um culto inseparável do temor de Deus.
Não se trata do culto dos hipócritas, que pensam honrar a Deus apenas por meio de cerimônias exteriores, vestimentas, cânticos e gestos, fingindo adorá-lo, enquanto sua própria vida demonstra o contrário.
Quem verdadeiramente cultua a Deus também obedece à sua vontade; e, porque o teme como um filho teme a seu pai, afasta-se do mal.
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