Concílio de Calcedônia.
O Concílio de Calcedônia, convocado pelo imperador Marciano em 451 e realizado na Basílica de Santa Eufêmia, foi o quarto concílio ecumênico da Igreja e o ponto culminante das grandes controvérsias cristológicas da Antiguidade. Com a participação de mais de quinhentos bispos ou seus representantes, foi a maior assembleia eclesiástica da época. Seu principal objetivo era reafirmar a fé definida nos Concílios de Nicéia e Éfeso, corrigindo tanto os erros que separavam excessivamente a humanidade e a divindade de Cristo quanto aqueles que acabavam confundindo ou absorvendo uma na outra.
A controvérsia mais imediata surgiu em torno dos ensinamentos de Eutiques, um arquimandrita que, ao combater o nestorianismo, passou a defender que, após a Encarnação, existia em Cristo apenas uma natureza. Segundo essa visão, a natureza humana teria sido absorvida pela natureza divina. Essa posição recebeu apoio do patriarca Dióscoro de Alexandria e foi favorecida no controverso sínodo de Éfeso de 449, posteriormente chamado pelos seus opositores de Latrocinium (Concílio dos Ladrões). Nessa reunião, os representantes do Papa Leão I foram ignorados, e Flaviano, Patriarca de Constantinopla, foi deposto e violentamente agredido.
A situação mudou após a morte do imperador Teodósio II. Seu sucessor, Marciano, juntamente com a imperatriz Pulquéria, decidiu revisar as decisões do sínodo de 449 e convocou um novo concílio para restaurar a unidade doutrinária da Igreja. Nesse contexto, ganhou grande importância o Tomo a Flaviano, carta doutrinária enviada anteriormente pelo Papa Leão I, que apresentava uma formulação equilibrada da fé cristológica.
O principal resultado do Concílio de Calcedônia foi a definição dogmática sobre a pessoa de Cristo. Os bispos declararam que Jesus Cristo é perfeito em Sua divindade e perfeito em Sua humanidade, sendo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Afirmaram também que Ele possui alma racional e corpo humano, é consubstancial ao Pai segundo a divindade e consubstancial a nós segundo a humanidade.
Para expressar essa verdade, o concílio proclamou que Cristo é uma única pessoa, o Filho eterno de Deus, existente em duas naturezas, divina e humana. Essas duas naturezas permanecem unidas "sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação". Essa fórmula tornou-se uma das mais importantes da teologia cristã, pois preserva ao mesmo tempo a plena divindade de Cristo, Sua plena humanidade e a unidade de Sua pessoa.
Além das definições doutrinárias, o concílio aprovou vinte e sete cânones disciplinares destinados a organizar a vida da Igreja, regular a atuação do clero e reforçar a autoridade dos bispos sobre os mosteiros de suas regiões. Uma das decisões mais debatidas foi aquela que mais tarde receberia o nome de cânone 28. Esse texto concedia à Sé de Constantinopla privilégios de honra e amplas competências jurisdicionais em diversas regiões do Império, justificando tal posição pelo fato de Constantinopla ser a "Nova Roma".
Os representantes do Papa protestaram contra essa decisão, e Leão I recusou-se a reconhecer sua validade. Para ele, a primazia da Igreja de Roma não dependia da importância política da cidade, mas de sua ligação apostólica com São Pedro. Essa divergência marcou um importante capítulo na longa discussão sobre a autoridade e a organização da Igreja.
Apesar da clareza alcançada pela definição de Calcedônia, sua recepção não foi pacífica. Diversas comunidades cristãs do Oriente rejeitaram a fórmula das «duas naturezas», considerando que ela se afastava da linguagem utilizada por Cirilo de Alexandria. Essas Igrejas, conhecidas hoje como Igrejas Ortodoxas Orientais, preferiram falar de uma única natureza encarnada do Verbo de Deus, segundo a tradição miafisita. Como consequência, estabeleceram-se divisões duradouras entre essas comunidades e as Igrejas que aceitaram as decisões do concílio.
Essa separação enfraqueceu a unidade religiosa do Império Bizantino e teve profundas repercussões na história do Cristianismo oriental. Ainda assim, para as tradições católica, ortodoxa bizantina e grande parte do Cristianismo histórico, o Concílio de Calcedônia permanece como a formulação clássica da doutrina cristológica, afirmando que, em Jesus Cristo, a natureza divina e a natureza humana permanecem plenamente distintas, mas perfeitamente unidas na única pessoa do Filho de Deus.