Uma oração pela intervenção de Deus.
¹Por que Te manténs distante, ó Senhor?
Por que Te escondes nos tempos de angústia?
²O ímpio, na sua soberba, persegue o pobre;
Que sejam apanhados nos próprios planos que imaginaram.
³Pois o ímpio se gloria do desejo do seu coração
E bendiz o avarento, A quem o Senhor abomina.
⁴O ímpio, por causa da soberba do seu rosto, não busca a Deus;
Deus não está em nenhum dos seus pensamentos.
⁵Os seus caminhos são sempre tormentosos;
Os Teus juízos estão muito acima, fora da sua vista;
Quanto a todos os seus inimigos,
Ele sopra com desprezo contra eles.
⁶Diz no seu coração: “Não serei abalado,
Pois jamais estarei em adversidade.”
⁷A sua boca está cheia de maldição, engano e fraude;
Debaixo da sua língua há malícia e vaidade.
⁸Senta-se nos esconderijos das aldeias;
Nos lugares secretos assassina o inocente;
Os seus olhos espreitam secretamente o pobre.
⁹Fica à espreita em segredo, como um leão na sua toca;
Fica à espreita para apanhar o pobre;
Apanha o pobre Quando o atrai para a sua rede.
¹⁰Agacha-se e se humilha,
Para que o pobre caia por causa dos seus fortes.
¹¹Diz no seu coração:
“Deus Se esqueceu;
Escondeu o Seu rosto
E jamais verá.”
¹²Levanta-Te, ó Senhor;
Ó Deus, ergue a Tua mão;
Não Te esqueças dos humildes.
¹³Por que o ímpio despreza a Deus?
Diz no seu coração:
“Tu não exigirás contas.”
¹⁴Tu o viste, Pois observas a malícia e a opressão,
Para retribuí-las com a Tua mão.
O pobre se entrega a Ti;
Tu és o ajudador do órfão.
¹⁵Quebra o braço do ímpio e do homem perverso;
Busca a sua maldade até que não encontres nenhuma.
¹⁶O Senhor é Rei para todo o sempre;
As nações pereceram da Sua terra.
¹⁷Senhor, Tu ouviste o desejo dos humildes;
Prepararás o coração deles
E farás o Teu ouvido ouvir,
¹⁸Para julgar o órfão e o oprimido,
A fim de que o homem da terra não volte a oprimir.
O décimo Salmo do Livro dos Salmos (integrado ao Salmo nove na Septuaginta e na Vulgata Latina sob a designação "Ut quid Domine recessisti") constitui a segunda metade do poema acróstico alfabético hebraico iniciado no capítulo anterior, desdobrando-se em dezoito versículos no Texto Masorético. Enquanto o Salmo nove celebra a vitória régia e comunitária sobre os inimigos externos, o Salmo dez transita do louvor triunfal para o lamento pungente, focando a opressão interna e a arrogância do ímpio que devora o vulnerável. Sob a perspectiva da engenharia literária e teológica veterotestamentária, esta perícope explora o mistério do aparente silêncio divino ("Por que te conservas ao longe, Senhor?"), oferecendo um retrato psicológico e moral detalhado da impiedade que atua sob a ilusão da impunidade.
O desenvolvimento poético organiza-se em torno da denúncia do opressor e da confiante invocação do Juízo divino. Na primeira seção (versículos um a onze), o salmista descreve o perfil do ímpio: soberbo, cobiçoso e prático ateu funcional ("Deus não está em nenhum dos seus pensamentos"), que arma ciladas em locais ocultos como um leão na sua toca para tragar o pobre e o órfão, dizendo no seu coração que o Altíssimo tudo esqueceu. Na seção central e conclusiva (versículos doze a dezoito), irrompe a súplica imperativa: "Levanta-te, Senhor; ó Deus, ergue a tua mão e não te esqueças do humilde". O poema reitera a fé na realeza eterna do Senhor ("O Senhor é Rei eterno e para sempre"), afirmando que Ele atende ao desejo dos humildes, fortalece o seu coração e faz justiça ao órfão e ao oprimido, para que o homem terreno não mais espalhe o terror.
A recepção litúrgica e eclesiológica do Salmo dez possui marcante presença nas tradições judaica e cristã. No judaísmo, o poema é recitado durante os Dez Dias de Arrependimento (Aseret Yemei Teshuva), e o seu versículo dezesseis integra as orações do Pesukei Dezimra, do Maariv e do Shemá ao deitar. No Novo Testamento, a caracterização da boca do ímpio no versículo sete ("A sua boca está cheia de maldição, de enganos e de fraude") é citada pelo apóstolo Paulo na acusação universal de Romanos três versículo catorze. Na tradição Monástica Ocidental, a Regra de São Bento (530 d.C.) alocou a recitação desta segunda metade do acróstico para o ofício de Prime das quartas-feiras, inspirando também o hino métrico Wie meinst du's doch, ach Herr, mein Gott (SWV 106) de Heinrich Schütz. Sob o prisma do desígnio salvífico, o Salmo dez consolida a garantia de que nenhum clamor do aflito permanece inaudito perante o Trono da Justiça divina.
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