Um cântico ao Rei santo.
¹O Senhor reina; tremam os povos.
Ele Se assenta entre os querubins;
Estremeça a terra.
²O Senhor é grande em Sião
E está exaltado acima de todos os povos.
³Exaltem o Teu grande e temível nome,
Porque Ele é santo.
⁴A força do rei também ama o juízo;
Tu estabeleces a equidade;
Executas juízo e justiça em Jacó.
⁵Exaltem o Senhor, nosso Deus,
E adorem diante do escabelo dos Seus pés,
Porque Ele é santo.
⁶Moisés e Arão estavam entre os Seus sacerdotes,
E Samuel, entre os que invocavam o Seu nome;
Eles invocaram o Senhor,
E Ele lhes respondeu.
⁷Ele lhes falou na coluna de nuvem;
Eles guardaram os Seus testemunhos
E o estatuto que Ele lhes havia dado.
⁸Tu lhes respondeste, ó Senhor, nosso Deus;
Tu foste para eles um Deus que perdoava,
Embora vingasses os seus feitos.
⁹Exaltem o Senhor, nosso Deus,
E adorem no Seu santo monte,
Porque o Senhor, nosso Deus, é santo.
O nonagésimo nono Salmo do Livro dos Salmos (designado Salmo noventa e oito na Septuaginta e na Vulgata Latina) conclui o bloco dos Salmos Reais ou de Entronização (Salmos noventa e três a noventa e nove), proclamando a soberania do Altíssimo com a declaração solene "O Senhor reina; tremam os povos" ("Dominus regnavit"). Composto por nove versículos no Texto Masorético e privado de título original — embora a Septuaginta o atribua a Davi —, o poema exalta a majestade de Deus entronizado entre os querubins em Sião, destacando o Seu amor pela justiça e a Sua santidade inalcançável. Sob a perspectiva da engenharia literária e teológica veterotestamentária, a perícope sobressai-se pelo tríplice refrão "Ele é Santo" (versículos três, cinco e nove), estrutura lírica que antecipa o Trisagion profético e fundamenta o conceito da santidade transcendente do Deus da aliança.
O desenvolvimento poético organiza-se em torno do contraste entre a majestade do Rei cósmico e a Sua graciosa revelação na história de Israel. Na primeira seção (versículos um a cinco), a comunidade é convocada a exaltar o Senhor e a prostrar-se perante o estrado de Seus pés — referência ao Templo, à Arca ou à própria Sião —, celebrando o poder divino que estabelece a equidade em Jacó. A seção intermediária (versículos seis a oito) introduz uma particularidade única no Saltério ao invocar nominalmente Moisés, Arão e Samuel como os grandes intercessores do povo; o poema recorda como o Altíssimo lhes falava na coluna de nuvem e lhes respondia às orações, revelando-se como um Deus perdoador, mas também como Aquele que pune as transgressões humanas para preservar a Sua pureza moral.
A recepção litúrgica do Salmo noventa e nove estende-se do judaísmo — onde constitui a quinta oração do Kabbalat Shabbat, provê versículos para a retirada do Rolo da Torá e inspira a tríplice aclamação da Kedushah — à tradição cristã Ocidental e Oriental, sendo recitado na liturgia das horas (Hora Nona no rito copta). Sua profunda ressonância teológica motivou paraphrases hínicas, como "König ist der Herr" de Maria Luise Thurmair, bem como motetos de Heinrich Schütz (SWV 197) e composições contemporâneas de grupos como Sons of Korah. Sob o prisma do desígnio cristão, o Salmo noventa e nove aponta para o Reino messiânico de Cristo, onde a perfeita santidade divina se harmoniza com a intercessão mediadora para conduzir os remidos à adoração no monte santo de Deus.
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