O Pentecostalismo.
O pentecostalismo clássico, movimento originado na vertente evangélica do protestantismo, distingue-se na história da Igreja contemporânea por enfatizar a experiência direta e pessoal do cristão com Deus mediante o batismo no Espírito Santo. O nome do movimento deriva da festividade de Pentecostes, narrada no segundo capítulo de Atos dos Apóstolos, quando o Espírito Santo foi derramado sobre a comunidade reunida em Jerusalém e concedeu dons espirituais aos primeiros discípulos para a proclamação do Evangelho. Assim como a tradição evangélica, o pentecostalismo afirma a inerrância das Escrituras e a necessidade do novo nascimento mediante o arrependimento e a fé em Jesus Cristo. Distingue-se, porém, por ensinar que o batismo no Espírito Santo, relacionado ao batismo em águas, concede ao cristão capacitação contínua para o testemunho e o serviço.
As origens históricas do movimento remontam ao início do século XX e estão ligadas aos movimentos de santidade e avivamento do século XIX na América do Norte e na Grã-Bretanha. O evangelista Charles Parham formulou a tese de que a glossolalia, isto é, o falar em línguas, constituía a evidência bíblica inicial do batismo no Espírito Santo, compreendendo essa experiência como uma obra da graça distinta da conversão e da santificação. Essa doutrina ganhou projeção mundial a partir de 1906, sob a liderança do pregador afro-americano William J. Seymour, durante o Avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles. A missão caracterizou-se pela integração racial e pela participação ativa das mulheres na pregação e no ensino, desafiando os padrões sociais da época e tornando-se um centro de envio de missionários que difundiram a mensagem pentecostal por vários continentes.
Ao longo de seu desenvolvimento, o movimento dividiu-se em diferentes vertentes devido a divergências soteriológicas e cristológicas. A primeira divisão ocorreu entre os pentecostais da santidade, que preservaram a doutrina wesleyana das três obras da graça, conversão, inteira santificação e batismo no Espírito Santo, e os defensores da obra consumada, liderados por William Durham, que compreendiam a santificação como um processo progressivo iniciado na salvação. Posteriormente, entre os adeptos da obra consumada, surgiu a controvérsia unicista, também chamada doutrina do nome de Jesus. Essa corrente não trinitária rejeitou a formulação dogmática das três pessoas divinas e passou a defender a manifestação de um único Deus na pessoa de Cristo, praticando o batismo exclusivamente em Seu nome e opondo-se à posição trinitária majoritária.
A teologia pentecostal organiza-se em torno do chamado Evangelho Quadrangular, que apresenta Cristo como Salvador, Batizador no Espírito Santo, Médico divino e Rei que em breve voltará. Na soteriologia, a maioria das denominações adota uma perspectiva arminiana, compreendendo a salvação como um dom da graça recebido pela fé individual. A doutrina da cura divina fundamenta-se na expiação de Cristo e considera a saúde física e espiritual uma antecipação da redenção final, embora a maioria das correntes atuais aceite a medicina e a ciência. A escatologia pentecostal é predominantemente pré-milenarista e dispensacionalista, mantendo a expectativa da iminente segunda vinda de Cristo e incentivando a evangelização mundial.
Quanto aos dons espirituais, os pentecostais adotam uma posição continuísta, afirmando que os carismas descritos no Novo Testamento, como profecia, discernimento de espíritos, operação de milagres e variedades de línguas, continuam plenamente ativos para a edificação do corpo de Cristo. O falar em línguas é compreendido de duas maneiras: como evidência inicial do batismo no Espírito Santo e como linguagem individual de oração para a edificação pessoal do fiel. Nos cultos públicos, a manifestação dos dons vocais deve ser acompanhada de interpretação, preservando a ordem litúrgica recomendada pelo apóstolo Paulo em suas cartas aos coríntios.
A liturgia pentecostal caracteriza-se pela expressividade e espontaneidade da adoração, incluindo oração coletiva, imposição de mãos, levantamento das mãos e música contemporânea. Os sacramentos ou ordenanças, como o batismo por imersão e a Ceia do Senhor, tradicionalmente celebrada com suco de uva em observância à temperança, são entendidos como atos simbólicos de obediência e memória, e não como meios que comunicam automaticamente a graça. Algumas denominações também preservam a prática do lava-pés e o uso do véu feminino em obediência às exortações paulinas.
Nas ciências sociais e na eclesiologia contemporânea, o pentecostalismo é reconhecido como um dos movimentos religiosos de crescimento mais rápido no mundo, reunindo centenas de milhões de fiéis, especialmente no Sul Global, na América Latina e na África Subsaariana. Sua expansão entre populações rurais e urbanas periféricas é analisada como uma resposta comunitária aos desafios da modernização e da marginalização social, pois oferece redes de apoio mútuo, restauração da identidade e novas formas de liderança popular. Apesar das críticas de setores protestantes tradicionais à ênfase nas manifestações místicas e dos debates sobre desvios como a teologia da prosperidade, o pentecostalismo consolidou-se como uma força transformadora do cristianismo mundial, influenciando profundamente a religiosidade e a cultura contemporâneas.