O Evangelho de Mateus é o primeiro dos quatro evangelhos do Novo Testamento e ocupa, desde o século II, um lugar de primazia entre os escritos canônicos do cristianismo. O autor não se nomeia no texto, e o título com o nome de Mateus foi acrescentado posteriormente, associando a obra a um discípulo mencionado no próprio livro como cobrador de impostos chamado a seguir Jesus. A notícia mais antiga sobre essa atribuição provém de Papias de Hierápolis, que por volta do ano 100 já conhecia o livro sob esse nome. A exegese histórico-crítica contemporânea considera amplamente que o autor é anônimo, e o argumento mais frequentemente invocado contra a autoria do apóstolo Mateus é a dependência do texto em relação ao Evangelho de Marcos: dificilmente uma testemunha ocular recorreria à obra de quem não o era. O evangelista é descrito pela investigação moderna como um cristão de origem judaica, provavelmente um líder comunitário com formação escriturística, que escrevia para uma comunidade situada na Síria, muito possivelmente em Antioquia do Orontes, por volta dos anos 80 ou 90 do primeiro século.
O texto foi composto em grego elevado, mais cuidado do que o de Marcos, com predileção por fórmulas recorrentes, estruturas quiásticas e um sentido narrativo que privilegia a continuidade. As fontes utilizadas pelo autor, segundo a teoria predominante na exegese, são o Evangelho de Marcos, que fornece o esqueleto narrativo, e a chamada Fonte Q, uma coleção de ditos de Jesus partilhada com o Evangelho de Lucas. Aproximadamente metade do texto provém de Marcos, cerca de um quarto da Fonte Q, e o restante constitui material próprio de Mateus, que inclui parábolas, episódios e textos sem paralelo nos outros evangelhos. Entre esses se encontram a narrativa da infância com os magos do Oriente, o episódio do peso sobre Pedro e a formulação da ordem missionária final.
A estrutura do evangelho pode ser lida de diversas maneiras, mas a mais influente identifica cinco grandes discursos de Jesus intercalados com blocos narrativos: o Sermão da Montanha, o discurso missionário, o discurso em parábolas, o discurso sobre a comunidade e o discurso escatológico. Essa disposição quinária evoca os cinco livros do Pentateuco e apoia a imagem de Jesus como novo Moisés, que sobe ao monte e promulga a lei definitiva do Reino de Deus. O prólogo de infância e a narrativa da paixão, morte e ressurreição enquadram esse núcleo didático, dando ao livro uma unidade que combina ensinamento e história.
Do ponto de vista teológico, o evangelista apresenta Jesus como Emanuel, "Deus conosco", título que aparece no primeiro capítulo e ecoa ao longo do texto até a promessa final: "Eu estarei convosco todos os dias até a consumação do século." Jesus é o Messias davídico, o Filho de Deus revelado progressivamente aos discípulos, o Senhor que interpreta a Lei com autoridade própria e não derivada. A Cristologia de Mateus é profundamente enraizada na tradição do Antigo Testamento, com cerca de quatorze citações de cumprimento que identificam episódios da vida de Jesus como realização de profecias bíblicas. A figura de Pedro ocupa lugar central entre os discípulos: é porta-voz do grupo, tipo do crente oscilante entre a fé e a dúvida, e destinatário da promessa sobre a qual a Igreja será edificada, texto que se tornaria o fundamento das afirmações do primado romano.
A ética do evangelho concentra-se na exigência de uma justiça superior, que o Sermão da Montanha articula nas bem-aventuranças e nas antíteses. Mateus não rejeita a Lei, mas aprofunda as suas exigências até ao coração do agente: não basta não matar, é preciso não cultivar a ira; não basta não cometer adultério, é preciso não alimentar o desejo. O duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo é apresentado como resumo de toda a Lei e dos Profetas. A parábola do juízo final, que identifica Cristo com os famintos, os estrangeiros, os doentes e os prisioneiros, tornou-se um dos textos mais convocados na história do pensamento social cristão, da teologia da libertação às encíclicas sociais.
Na tradição litúrgica, Mateus foi o evangelho mais utilizado: o rito romano atribuiu-lhe o Ano A do ciclo trienal de leituras, e durante séculos a maioria das perícopes dominicais era extraída deste livro. O Sermão da Montanha alimentou leituras radicais em comunidades monásticas, movimentos de reforma e figuras como Tolstói, Bonhoeffer e Gandhi. O texto da ordem missionária — "Ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" — tornou-se o fundamento teológico da missão cristã universal e o enquadramento normativo do batismo trinitário em toda a tradição eclesial.