O Evangelho segundo Mateus, que abre o cânon do Novo Testamento, é uma obra anônima composta provavelmente entre 80 e 90 d.C., em um contexto judaico-cristão na região da Síria, possivelmente Antioquia. O título foi atribuído posteriormente, associando-o ao apóstolo citado no texto (Mateus 9. 9; 10. 3), embora a exegese histórico-crítica considere improvável a autoria de uma testemunha ocular direta, dada a sua dependência do Evangelho de Marcos. A teoria das duas fontes é amplamente aceita: Mateus utilizou Marcos como estrutura narrativa principal (incorporando cerca de 90% de seu conteúdo), a hipotética fonte Q para os ensinamentos em comum com Lucas, e material próprio, que destaca temas exclusivos como a genealogia, os relatos da infância e parábolas específicas.
Como evangelho sinótico, Mateus compartilha muito material com Marcos e Lucas, mas se distingue por sua organização em cinco grandes discursos que evocam os livros do Pentateuco, apresentando Jesus como o "novo Moisés". A obra retrata Jesus como o Messias davídico e Filho de Deus ("Emanuel", Mateus 1. 23), aquele que cumpre as Escrituras de Israel, mas enfrenta forte resistência das autoridades judaicas, como fariseus e escribas. Essa tensão reflete o ambiente da comunidade mateana, marcada por debates internos no judaísmo e por uma progressiva abertura à missão universal (Mateus 28. 18-20). Entre seus temas centrais estão a "justiça superior" (Mateus 5. 20), expressa na ética do Sermão da Montanha, no discipulado radical e na observância da Torá reinterpretada por Jesus.
Teologicamente, Mateus enfatiza a continuidade com a tradição de Israel, mas interpreta a rejeição a Jesus como uma transferência da liderança para a comunidade dos discípulos, tendo Pedro como figura proeminente (Mateus 16. 18-19). A destruição de Jerusalém em 70 d.C. é lida como consequência dessa resistência, sem significar, contudo, uma exclusão definitiva de Israel. A estrutura narrativa, focada no cumprimento profético e em discursos didáticos, visa a formação da comunidade, promovendo uma eclesiologia que valoriza a obediência, a misericórdia e o alcance a todos os povos. Na exegese contemporânea, discute-se se o grupo ainda se via como parte do judaísmo ou já separado dele, havendo um consenso de que o texto reflete um processo de diferenciação interna.
Apesar de ser criticado pelo uso histórico de certos elementos antijudaicos em sua recepção, Mateus permanece influente por sua profundidade ética — evidente no Sermão da Montanha e no Juízo Final (Mateus 25) — e por sua visão de uma comunidade inclusiva sob a guia do Ressuscitado. Sua posição de destaque no início do cânon consolidou seu papel como o evangelho principal da tradição cristã, inspirando a liturgia, a teologia e a espiritualidade através dos séculos.