A Carta a Tito é uma breve epístola do Novo Testamento que integra o conjunto das três cartas pastorais, juntamente com as duas dirigidas a Timóteo. O texto apresenta-se como obra de Paulo de Tarso, endereçada a Tito, colaborador do apóstolo que havia sido encarregado de organizar as comunidades cristãs na ilha de Creta. A carta, composta de três capítulos e quarenta e seis versículos, partilha com a Primeira Carta a Timóteo um vocabulário, temas e estrutura argumentativa tão próximos que muitos estudiosos propõem a mesma autoria para ambas, designando por vezes o seu autor anónimo simplesmente como "o Pastor". O debate sobre a autoria paulina das cartas pastorais é um dos mais persistentes da introdução ao Novo Testamento: a maioria dos exegetas contemporâneos considera-as pseudepígrafas, redigidas por um autor desconhecido do período pós-paulino, entre os anos oitenta e cem da era cristã; uma minoria defende a autoria direta de Paulo, recorrendo por vezes à hipótese de um secretário qualificado como Lucas, o que explicaria as diferenças estilísticas face às cartas indiscutivelmente paulinas.
Tito não é mencionado nos Atos dos Apóstolos, mas aparece na Carta aos Gálatas como companheiro de Paulo na viagem a Jerusalém, e nas cartas aos Coríntios como emissário responsável pela reconciliação da comunidade coríntia com o apóstolo. Segundo Eusébio de Cesareia, foi o primeiro bispo de Creta. A sua cabeça foi transferida para Veneza durante a invasão sarracena da ilha no século IX e conserva-se na Basílica de São Marcos. A situação pressuposta pela carta é a de um Tito deixado em Creta para resolver o que faltava e estabelecer presbíteros em cada cidade, enquanto Paulo se propunha passar o inverno em Nicópolis. Para os defensores da autoria paulina, essa visita a Creta teria ocorrido após uma libertação do primeiro encarceramento romano, numa fase da vida de Paulo não documentada pelos Atos.
O conteúdo da carta organiza-se em torno de três grandes preocupações que se sucedem com clareza. A primeira ocupa a segunda metade do capítulo inicial e diz respeito aos requisitos dos líderes comunitários: Tito deve estabelecer em cada cidade homens irrepreensíveis, casados uma só vez, cuja família seja exemplo de ordem e fidelidade, capazes de ensinar a sã doutrina e de refutar os que a contradizem. O texto usa de forma aparentemente equivalente os termos presbítero e bispo para designar os responsáveis locais, o que reflete uma fase da organização eclesial em que a distinção entre os dois títulos ainda não estava consolidada. A insistência na solidez doutrinal dos líderes está diretamente ligada à presença em Creta de propagadores de ensinamentos errôneos, especialmente de origem judaica, que perturbavam famílias inteiras com especulações estéreis.
A segunda secção, ocupando o capítulo dois, apresenta as exortações de comportamento para os diferentes grupos que compõem a comunidade: os homens mais velhos devem ser sóbrios e dignos; as mulheres mais velhas devem educar as jovens para a vida familiar e a fidelidade conjugal; os jovens devem ser sensatos; os escravos devem trabalhar com integridade para que a doutrina cristã não seja desacreditada. No centro desse conjunto de instruções encontra-se uma confissão cristológica de grande beleza: a graça de Deus manifestou-se para a salvação de todos os homens, ensinando-nos a renunciar à impiedade e a viver com sobriedade, justiça e piedade neste século, aguardando a bem-aventurada esperança e a manifestação gloriosa do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, que se entregou por nós para nos resgatar de toda a iniquidade.
A terceira secção, no início do capítulo três, dirige a atenção para o comportamento dos cristãos no interior da sociedade mais ampla: obediência às autoridades, disponibilidade para toda a boa obra, mansidão no trato com todos, sem insultos nem disputas. O fundamento teológico é expresso com precisão: não fomos salvos por obras de justiça que tivéssemos praticado, mas pela misericórdia de Deus, mediante o banho da regeneração e da renovação pelo Espírito Santo. Esse horizonte de graça gratuita é, para a carta, o fundamento e o critério da vida cristã em todos os seus aspetos. Para a tradição eclesial, a Carta a Tito constitui um documento fundamental sobre a estrutura ministerial das comunidades e sobre a articulação entre fé, vida moral e testemunho público, que continua a ser invocado em reflexões sobre o ministério ordenado e a responsabilidade dos líderes cristãos.