A Carta de Paulo aos Filipenses é uma epístola paulina do Novo Testamento, atribuída a Paulo e a Timóteo como coremetente. É endereçada à comunidade cristã de Filipos, cidade da Macedónia — região que corresponde ao nordeste da Grécia atual — onde Paulo, acompanhado de Silas e possivelmente de Lucas, fundou a comunidade por volta dos anos 50 a 52, durante a segunda viagem missionária. A visita não decorreu sem dificuldades: Paulo e Silas foram acusados de perturbar a cidade e acabaram presos, episódio narrado com pormenor nos Atos dos Apóstolos. A comunidade de Filipos manteve com Paulo uma relação de afeto e apoio material que ele próprio descreve com uma ternura raramente igualada nas suas cartas, e foi precisamente essa ligação que motivou a correspondência preservada no texto canônico.
A questão da unidade literária da carta é um dos debates mais persistentes da introdução ao Novo Testamento. A partir dos anos sessenta do século XX consolidou-se entre os estudiosos a hipótese de que o texto canônico reúne fragmentos de duas ou três cartas distintas. Um dos argumentos mais frequentemente invocados é a mudança abrupta de tom entre os capítulos um a dois, de caráter sereno e afetivo, e a secção do terceiro capítulo, marcada por uma advertência apaixonada contra aqueles que insistiam na circuncisão como condição de salvação. Outro indício é a aparente incongruência cronológica relacionada com a figura de Epáfrodito: no segundo capítulo é apresentado como alguém que esteve à beira da morte durante um período prolongado longe dos filipenses, enquanto no quarto capítulo se menciona a sua chegada recente junto de Paulo. Esses desajustes levaram muitos exegetas a propor que a compilação numa única carta terá sido obra do primeiro organizador do corpus paulino. Independentemente dessa questão, é consensual que os materiais que compõem a carta são autenticamente paulinos e foram redigidos provavelmente entre os anos 50 e 62, mais provavelmente durante o encarceramento em Roma.
O hino do segundo capítulo, conhecido na teologia e na liturgia como o hino kenótico, é o texto mais celebrado e debatido de toda a carta e um dos mais influentes de todo o Novo Testamento. Trata-se de um poema que descreve o movimento descendente e ascendente de Cristo: existindo na forma de Deus, não considerou como algo a ser retido a igualdade com Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo e tornando-se semelhante aos homens; humilhou-se até à obediência da morte e da morte de cruz; por isso, Deus o exaltou e lhe conferiu o nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre e toda a língua confesse que Jesus Cristo é Senhor. A origem desse texto anterior ao próprio Paulo foi sugerida pelo teólogo alemão Ernst Lohmeyer em 1928 e tornou-se posição amplamente aceita: o hino teria sido composto em ambientes cristãos já na segunda metade dos anos trinta, o que o tornaria um dos documentos mais antigos sobre a fé cristã em Cristo. O debate sobre o seu significado cristológico — se afirma a preexistência divina de Jesus, se é uma forma de teologia adâmica que contrasta Jesus com o primeiro Adão que quis apossar-se da igualdade com Deus, se implica uma real igualdade com Deus antes da incarnação — continua vivo e constitui um campo privilegiado da cristologia contemporânea.
A carta é atravessada por um tom de alegria que contrasta com as circunstâncias dramáticas em que foi escrita. Paulo está preso, enfrenta incerteza sobre o desfecho do seu processo, tem adversários dentro das próprias comunidades cristãs e contempla a possibilidade da morte como libertação e encontro definitivo com Cristo. Diante de tudo isso, convida os filipenses a regozijar-se em todas as circunstâncias e formula uma das máximas mais citadas da espiritualidade cristã: tudo posso naquele que me dá força. A secção ética do terceiro e do quarto capítulo exorta à unidade, ao pensamento são, à generosidade e à paz que supera todo o entendimento.
Na liturgia cristã, a passagem do segundo capítulo é lida no Domingo de Ramos em várias tradições, constituindo a preparação teológica para a contemplação da paixão de Cristo como ato de esvaziamento e obediência voluntária. O quarto capítulo, com a exortação à alegria e à paz, é proclamado no Domingo Gaudete do tempo do Advento, situando a espera da vinda de Cristo num horizonte de esperança confiante. Para a tradição cristã, a Carta aos Filipenses é, acima de tudo, um testemunho de que a fé genuína não dissolve o sofrimento mas transforma o modo como ele é habitado.