William Tyndale (1494-1536), nascido por volta de 1494 em Melksham Court, no condado de Gloucestershire, Inglaterra, e martirizado em 6 de outubro de 1536 nas proximidades de Bruxelas, foi um dos mais destacados biblistas, filólogos e teólogos da Reforma Protestante. Ele é amplamente celebrado como o pai da Bíblia em língua inglesa, cuja produção revolucionou o acesso às Escrituras e moldou profundamente a literatura e a teologia de expressão inglesa. Sua vida, marcada por um exílio voluntário e pelo trabalho incansável de tradução clandestina, foi guiada por uma espiritualidade evangélica convicta de que a Palavra de Deus deveria ser acessível a todos os cristãos, desde os acadêmicos até o mais simples arador. Seu rigor científico como linguista e seu compromisso inabalável com a verdade bíblica o posicionaram como uma figura central na renovação eclesial e no desenvolvimento do pensamento protestante nas Ilhas Britânicas.
Educado na Katharine Lady Berkeley's School, Tyndale ingressou em 1506 no Magdalen Hall da Universidade de Oxford, onde obteve o grau de Bacharel em Artes em 1512 e o de Mestre em Artes em 1515, ano em que já vivia uma conduta moral considerada exemplar pelos seus contemporâneos. Mais tarde, deu continuidade aos seus estudos na Universidade de Cambridge, consolidando um domínio notável do latim, grego, hebraico, francês, alemão, italiano e espanhol. Embora habilitado ao currículo acadêmico tradicional, Tyndale teceu críticas severas ao ensino escolástico da época, argumentando que a formação universitária priorizava a filosofia pagã em detrimento do estudo direto dos textos sagrados. Por volta de 1521, assumiu o cargo de capelão e preceptor na residência de Sir John Walsh em Little Sodbury, onde suas posições teológicas reformadas provocaram controvérsias com o clero local. Foi nesse período que formulou seu célebre compromisso de fazer com que um jovem condutor de arado conhecesse as Escrituras melhor do que os clérigos de sua era.
Convencido da necessidade de uma tradução vernácula direta dos originais, Tyndale transferiu-se para Londres em 1523 em busca do patrocínio do bispo Cuthbert Tunstall. Diante da recusa da hierarquia católica e das restrições legais impostas pelas Constituições de Oxford contra traduções não autorizadas, ele partiu para o continente europeu em 1524, de onde jamais retornaria. Estabelecendo-se em centros de imprensa como Worms e Antuérpia, concluiu em 1526 a primeira edição impressa do Novo Testamento em inglês traduzida diretamente do texto grego editado por Erasmo de Roterdã. Essa obra, contrabandeada para a Inglaterra em fardos de tecidos, provocou forte reação das autoridades eclesiásticas, que promoveram a apreensão e a queima pública dos exemplares em Londres. Sem desanimar, Tyndale dedicou-se ao aprendizado aprofundado do hebraico e publicou o Pentateuco em 1530 e o livro de Jonas em 1531, tornando-se o primeiro tradutor a empregar a forma Jeová para o Tetragrama Divino em inglês.
A produção teológica de Tyndale desdobrou-se também em tratados dogmáticos e polêmicos de grande alcance. Em "The Obedience of a Christian Man" (1528), sustentou que a autoridade do monarca deveria se sobrepor ao poder papal, obra que chegou às mãos de Henrique VIII e forneceu argumentos para o rompimento da Igreja da Inglaterra com Roma. No entanto, em "The Practice of Prelates" (1530), opôs-se firmemente à anulação do casamento do rei com Catarina de Aragão por considerá-la contrária aos preceitos escriturísticos, atitude que o transformou em alvo de perseguição tanto da Coroa inglesa quanto do Papado. Sua teologia enfatizava a doutrina do pacto divino, a justificação pela fé somente mediante os méritos do sangue de Cristo e o valor dos sacramentos como pregação visível da Palavra, enquanto em suas escolhas lexicográficas optou por termos como "congregação" em vez de "igreja" e "ancião" em vez de "padre", visando restaurar o sentido primogênito dos escritos apostólicos.
Em maio de 1535, após anos de atuação clandestina em Antuérpia, Tyndale foi traído por Henry Phillips e preso pelas autoridades do Sacro Império Romano-Germânico. Mantido por um ano e meio no castelo de Vilvoorde, perto de Bruxelas, ele envolveu-se em debates escritos com o inquisidor Jacobus Latomus, mantendo sua posição teológica e dando continuidade aos seus trabalhos de tradução na cela. Em 1536, foi formalmente julgado por heresia e entregue ao braço secular; atado à fogueira, foi estrangulado e teve seu corpo queimado em 6 de outubro daquele ano, proferindo como últimas palavras a Oração para que Deus abrisse os olhos do rei da Inglaterra. Seu clamor final foi atendido poucos anos depois, quando Henrique VIII autorizou a circulação de Bíblias em inglês baseadas amplamente em sua tradução, como a Bíblia de Matthew e a Grande Bíblia. O trabalho filológico de Tyndale serviu de base direta para cerca de oitenta por cento do texto da posterior Versão Rei Tiago (King James Version) de 1611, perpetuando seu legado como um modelo de rigor técnico colocado a serviço da fé e do testemunho cristão.