16.junho.2026
Um argumento contra a abolição do cristianismo.
Um Argumento para Demonstrar que a Abolição do Cristianismo na Inglaterra Pode, nas Circunstâncias Atuais, Ser Acompanhada de Alguns Inconvenientes e Talvez Não Produza os Muitos Bons Efeitos que se Propõem por Meio Dela. Escrito no Ano de 1708.
Estou muito consciente de quão grande fraqueza e presunção é raciocinar contra o humor e a disposição gerais do mundo. Lembro-me de que foi com grande justiça e o devido respeito à liberdade tanto do público quanto da imprensa que se proibiu, sob diversas penalidades, escrever, discursar ou fazer apostas contra o — mesmo antes de ter sido confirmado pelo Parlamento; pois isso era considerado uma tentativa de se opor à corrente do povo, o que, além de ser uma tolice, constitui uma violação manifesta da lei fundamental que faz dessa maioria de opiniões a voz de Deus. Da mesma forma, e exatamente pelas mesmas razões, talvez não seja nem seguro nem prudente argumentar contra a abolição do cristianismo, num momento em que todos os partidos parecem tão unanimemente decididos sobre essa questão, como não podemos deixar de admitir por suas ações, seus discursos e seus escritos. Contudo, não sei como, seja por afetação de singularidade ou pela perversidade da natureza humana, acontece infelizmente que não consigo concordar inteiramente com essa opinião. Mais ainda: mesmo que eu tivesse certeza de que uma ordem já tivesse sido expedida para minha imediata acusação pelo Procurador-Geral, ainda assim confessaria que, na presente condição de nossos assuntos internos e externos, ainda não vejo a necessidade absoluta de extirpar a religião cristã de nosso meio.
Talvez isso pareça um paradoxo grande demais até mesmo para a nossa sábia e paradoxal época suportar; por isso, tratarei do assunto com toda a delicadeza e com a máxima deferência para com essa grande e profunda maioria que sustenta opinião diferente.
E, no entanto, os curiosos podem observar quanto o espírito de uma nação está sujeito a mudar no espaço de meio século. Ouvi algumas pessoas muito excêntricas afirmarem com toda certeza que a opinião contrária era, ainda em sua memória, tão popular quanto esta o é agora; e que um projeto para abolir o cristianismo teria então parecido tão singular e sido considerado tão absurdo quanto seria, nos dias de hoje, escrever ou discursar em sua defesa.
Portanto, reconheço livremente que todas as aparências estão contra mim. O sistema do Evangelho, seguindo o destino de outros sistemas, é geralmente considerado antiquado e desacreditado; e a massa ou conjunto do povo comum, entre os quais parece ter desfrutado de seu crédito mais duradouro, agora se tornou tão envergonhada dele quanto as classes superiores; pois as opiniões, como as modas, sempre descem dos indivíduos de posição para a classe média e, desta, para o povo em geral, onde finalmente são abandonadas e desaparecem.
Mas aqui não gostaria de ser mal compreendido e, por isso, devo tomar a liberdade de recorrer a uma distinção usada pelos escritores do lado oposto, quando diferenciam os trinitários nominais dos trinitários reais [1]. Espero que nenhum leitor me considere tão insensato a ponto de me levantar em defesa do cristianismo real, tal como, segundo os autores daqueles tempos, existia na antiguidade primitiva e exercia influência sobre as crenças e ações dos homens. Tentar restaurá-lo seria, de fato, um projeto extravagante; seria cavar os próprios alicerces; destruir de um só golpe toda a engenhosidade e metade da erudição do reino; romper toda a estrutura e constituição das coisas; arruinar o comércio, extinguir as artes e as ciências juntamente com aqueles que as professam; em suma, transformar nossos tribunais, bolsas de comércio e lojas em desertos; e seria tão absurdo quanto a proposta de Horácio [2], quando aconselha os romanos, em massa, a abandonarem sua cidade e procurarem uma nova morada em alguma região remota do mundo, como remédio para a corrupção de seus costumes.
Portanto, penso que essa cautela era, em si mesma, completamente desnecessária (e a inseri apenas para evitar qualquer possibilidade de objeção capciosa), pois todo leitor imparcial compreenderá facilmente que meu discurso se destina apenas à defesa do cristianismo nominal, visto que o outro foi, há algum tempo, inteiramente deixado de lado por consentimento geral, por ser considerado totalmente incompatível com todos os nossos atuais projetos de riqueza e poder.
Mas por que, então, deveríamos abolir o nome e o título de cristãos, embora a opinião e a determinação gerais sejam tão veementemente favoráveis a isso, confesso que não consigo (com a devida submissão) perceber a necessidade dessa consequência. Contudo, visto que os defensores desse projeto prometem vantagens tão extraordinárias para a nação e apresentam muitas objeções plausíveis contra o sistema do cristianismo, examinarei brevemente a força de ambos os argumentos, concederei a eles o maior peso possível com justiça e oferecerei as respostas que me parecem mais razoáveis. Depois disso, pedirei licença para mostrar quais inconvenientes podem possivelmente resultar de tal inovação, na presente condição de nossos assuntos.
Primeiramente, uma das grandes vantagens propostas pela abolição do cristianismo é que ela ampliaria e consolidaria consideravelmente a liberdade de consciência, esse grande baluarte de nossa nação e da religião protestante, que ainda se encontra excessivamente limitada pelo clericalismo [3], apesar de todas as boas intenções do legislador, como recentemente constatamos por um severo exemplo. Pois é amplamente divulgado que dois jovens cavalheiros de grande promessa, brilhante inteligência e profundo discernimento, os quais, após um exame minucioso das causas e dos efeitos e pela simples força de suas capacidades naturais, sem a menor tintura de erudição, descobriram que não havia Deus e, generosamente, comunicaram suas ideias para o bem público, foram há algum tempo, por uma severidade sem precedentes e com base em não sei qual lei obsoleta, processados por blasfêmia. E, como já foi sabiamente observado, uma vez que a perseguição começa, ninguém vivo sabe até onde ela pode chegar ou onde irá terminar.
Em resposta a tudo isso, com a devida deferência a juízos mais sábios, penso que tais argumentos demonstram antes a necessidade de uma religião nominal entre nós. Os grandes espíritos gostam de tratar com irreverência os mais elevados objetos; e, se não lhes for permitido ter um deus para insultar ou renegar, falarão mal das autoridades, atacarão o governo e lançarão críticas contra o ministério, o que estou certo de que poucos negarão ser de consequências muito mais perniciosas, de acordo com o dito de Tibério: DEORUM OFFENSA DIIS CURAE [4]. Quanto ao caso particular relatado, penso que não é justo argumentar com base em um único exemplo; talvez não se possa apresentar outro semelhante. Contudo (para consolo de todos os que possam temer perseguição), sabemos que a blasfêmia é proferida livremente milhões de vezes em cada café e taberna, ou em qualquer outro lugar onde se reúna boa companhia. Deve-se admitir, de fato, que destituir um oficial inglês nascido livre apenas por blasfêmia foi, para usar a expressão mais branda possível para tal ato, um exercício muito elevado de poder absoluto. Pouco se pode dizer em defesa do general; talvez ele temesse que isso pudesse ofender os aliados, entre os quais, ao que sabemos, pode ser costume nacional acreditar em Deus. Mas, se ele raciocinou, como alguns fizeram, segundo o princípio equivocado de que um oficial culpado de blasfêmia poderia, em algum momento, avançar a ponto de promover um motim, tal consequência não deve de modo algum ser admitida; pois certamente o comandante de um exército inglês dificilmente será obedecido por soldados que o temam e reverenciem tão pouco quanto temem e reverenciam uma divindade.
Também se objeta contra o sistema do Evangelho que ele obriga os homens a crerem em coisas difíceis demais para os livre-pensadores [5] e para aqueles que se libertaram dos preconceitos que geralmente se prendem a uma educação limitada. A isso respondo que os homens deveriam ser cautelosos ao levantar objeções que refletem desfavoravelmente sobre a sabedoria da nação. Acaso não é permitido a todos crer livremente no que desejarem e publicar sua crença ao mundo sempre que julgarem conveniente, especialmente se isso servir para fortalecer o partido que está com a razão? Será que algum estrangeiro imparcial, ao ler as tolices recentemente escritas por Asgil [6], Tindal [7], Toland [8], Coward [9] e quarenta outros, imaginaria que o Evangelho é a nossa regra de fé e que foi confirmado pelos Parlamentos? Existe alguém que realmente creia, ou diga que crê, ou deseje que se pense que diz crer, uma única sílaba dessas doutrinas? E alguém é recebido de forma pior por causa disso, ou considera a falta de fé nominal um obstáculo para alcançar qualquer cargo civil ou militar? E se existirem uma ou duas antigas leis adormecidas contra ele, não estão elas hoje tão obsoletas que os próprios Empson e Dudley [10], se ainda estivessem vivos, considerariam impossível colocá-las em execução?
Também se argumenta que existem, segundo os cálculos, neste reino, mais de dez mil párocos, cujas rendas, somadas às dos meus senhores os bispos, seriam suficientes para sustentar pelo menos duzentos jovens cavalheiros de espírito, prazer e livre-pensamento, inimigos do clericalismo, dos princípios estreitos, da pedanteria e dos preconceitos, que poderiam ser um ornamento para a corte e para a cidade; e, além disso, um grande número de teólogos fisicamente aptos poderia servir de reforço para nossa frota e nossos exércitos. Isso realmente parece uma consideração de certo peso; mas, por outro lado, várias coisas também merecem ser consideradas. Primeiro, se não pode ser julgado necessário que, em determinadas regiões do país, como aquelas que chamamos de paróquias, exista ao menos um homem capaz de ler e escrever. Além disso, parece um cálculo equivocado supor que as rendas da Igreja em toda esta ilha sejam suficientemente grandes para sustentar duzentos jovens cavalheiros, ou mesmo a metade desse número, segundo o atual e refinado modo de vida; isto é, concedendo a cada um uma renda que, na linguagem moderna, os deixaria em situação confortável. Mas ainda há, por trás desse projeto, um mal maior; e devemos tomar cuidado para não repetir a insensatez da mulher que matou a galinha que todas as manhãs lhe punha um ovo de ouro. Pois, diga-se, o que seria da raça humana na próxima geração se nada tivéssemos em que confiar além da descendência escrofulosa e consumptiva produzida por nossos homens de espírito e prazer, que, depois de desperdiçarem seu vigor, saúde e patrimônio, são forçados, por algum casamento desagradável, a remendar suas fortunas arruinadas e transmitir à sua posteridade tanto a degeneração física quanto a polidez? Ora, aqui estão dez mil pessoas reduzidas, pelas sábias regulamentações de Henrique VIII, à necessidade de uma dieta simples e de exercício moderado, sendo elas as grandes restauradoras de nossa estirpe; sem as quais a nação, em uma ou duas gerações, se transformaria em um vasto hospital.
Outra vantagem proposta pela abolição do cristianismo é o ganho evidente de um dia em cada sete, que atualmente estaria inteiramente perdido e, consequentemente, tornaria o reino um sétimo menos relevante em comércio, negócios e prazer; além da perda para o público de tantas estruturas imponentes atualmente nas mãos do clero, as quais poderiam ser convertidas em teatros, bolsas de comércio, mercados cobertos, dormitórios coletivos e outros edifícios públicos.
Espero ser perdoado por uma palavra severa se chamar isso de mera objeção capciosa. Reconheço prontamente que existe um antigo costume, desde tempos imemoriais, de as pessoas se reunirem nas igrejas todos os domingos, e que as lojas ainda são frequentemente fechadas com o propósito, ao que se supõe, de preservar a memória dessa antiga prática; mas é difícil imaginar como isso poderia constituir um obstáculo aos negócios ou ao prazer. E se os homens dedicados ao prazer forem obrigados, um dia por semana, a jogar em casa em vez de frequentarem a casa de chocolate? [11] As tabernas e os cafés não permanecem abertos? Poderia haver ocasião mais conveniente para tomar uma dose de remédio? Não é esse o principal dia para os comerciantes fecharem as contas da semana e para os advogados prepararem suas petições? Mas eu realmente gostaria de saber como se pode alegar que as igrejas estão sendo mal utilizadas. Onde há mais encontros e compromissos galantes? Onde existe maior preocupação em ocupar o lugar mais destacado, com maior exibição de elegância no vestuário? Onde ocorrem mais reuniões de negócios? Onde se realizam mais negociações de toda espécie? E onde se encontram tantas facilidades ou incentivos para dormir?
Há ainda uma vantagem, maior do que todas as anteriores, proposta pela abolição do cristianismo: a de extinguir completamente os partidos entre nós, eliminando aquelas distinções facciosas entre alta e baixa igreja [12], entre whigs e tories [13], entre presbiterianos e membros da Igreja da Inglaterra, que hoje constituem tantos entraves mútuos aos assuntos públicos e frequentemente levam as pessoas a preferirem satisfazer a si mesmas ou prejudicar seus adversários em vez de promover os interesses mais importantes do Estado.
Confesso que, se fosse certo que uma vantagem tão grande resultaria para a nação por meio desse expediente, eu me submeteria e permaneceria em silêncio; mas alguém dirá que, se as palavras fornicação, embriaguez, fraude, mentira e roubo fossem, por ato do Parlamento, eliminadas da língua inglesa e dos dicionários, todos nós acordaríamos na manhã seguinte castos e sóbrios, honestos e justos, amantes da verdade? Seria essa uma conclusão razoável? Ou, se os médicos nos proibissem de pronunciar as palavras sífilis, gota, reumatismo e cálculo renal, tal expediente serviria, como tantos talismãs, para destruir as próprias doenças? Acaso o espírito partidário e as facções estão enraizados no coração dos homens apenas em frases tomadas da religião, ou não repousam sobre princípios mais profundos? E será nossa língua tão pobre que não possamos encontrar outros termos para expressá-los? Serão a inveja, o orgulho, a avareza e a ambição nomenclaturas tão inadequadas que não possam fornecer denominações para aqueles que as possuem? Não serviriam hajduques e mamelucos, mandarins e paxás, ou quaisquer outras palavras formadas ao acaso, para distinguir os que estão no governo daqueles que gostariam de estar, se pudessem? O que, por exemplo, seria mais fácil do que alterar a forma de falar e, em vez da palavra igreja, transformar em questão política saber se o monumento está em perigo? Porque a religião estava mais à mão para fornecer algumas expressões convenientes, será nossa imaginação tão estéril que não consigamos encontrar outras? Suponhamos, por amor ao argumento, que os tories favorecessem Margarita, os whigs a senhora Tofts e os moderados Valentini [14]; não seriam margaritianos, toftsianos e valentinianos marcas de distinção perfeitamente aceitáveis? Os prasinos e venetos [15], duas facções extremamente violentas na Itália, começaram, se bem me lembro, por uma distinção de cores em fitas; e nós poderíamos fazer o mesmo, com igual elegância, em torno da dignidade do azul e do verde, dividindo a Corte, o Parlamento e o reino entre eles tão adequadamente quanto quaisquer termos técnicos tomados da religião. E, portanto, penso que há pouca força nessa objeção contra o cristianismo, ou perspectiva de uma vantagem tão grande quanto a que se propõe por sua abolição.
Também se objeta, como um costume muito absurdo e ridículo, que um grupo de homens seja tolerado, e muito menos empregado e remunerado, para bradar um dia em cada sete contra a legitimidade dos métodos mais utilizados na busca de grandeza, riqueza e prazer, os quais constituem a prática constante de todos os homens durante os outros seis dias. Mas essa objeção me parece um tanto indigna de uma época tão refinada quanto a nossa. Consideremos a questão com calma. Apelo ao íntimo de qualquer livre-pensador elegante: ao procurar satisfazer uma paixão dominante, não sentiu ele sempre um estímulo extraordinário ao refletir que se tratava de algo proibido? E, por isso, vemos que, para cultivar esse gosto, a sabedoria da nação teve especial cuidado em fornecer às damas sedas proibidas e aos homens vinhos proibidos. E, de fato, seria desejável que algumas outras proibições fossem promovidas, a fim de aumentar os prazeres da cidade, os quais, por falta de tais expedientes, já começam, segundo me dizem, a enfraquecer e perder o vigor, cedendo diariamente às cruéis investidas da melancolia.
E, para acrescentar outro argumento de natureza semelhante: se o cristianismo fosse de fato abolido, como poderiam os livre-pensadores, os grandes raciocinadores e os homens de profunda erudição encontrar outro tema tão perfeitamente adequado para exibir suas capacidades? De quantas admiráveis produções de espírito seríamos privados por parte daqueles cujo gênio, mediante prática contínua, foi inteiramente direcionado à sátira e aos ataques contra a religião e que, por isso mesmo, jamais seriam capazes de brilhar ou distinguir-se em qualquer outro assunto? Todos os dias nos queixamos do grande declínio do espírito e da inteligência entre nós, e haveríamos de eliminar o maior, talvez o único tema que ainda nos resta? Quem teria suspeitado que Asgil possuía espírito ou que Toland era filósofo, se o inesgotável depósito do cristianismo não estivesse à disposição para lhes fornecer matéria? Que outro tema, em toda a arte ou na natureza, poderia ter feito de Tindal um autor profundo ou lhe proporcionado leitores? É a sábia escolha do assunto que, por si só, adorna e distingue o escritor. Pois, se uma centena de penas semelhantes a essas tivesse sido empregada em favor da religião, teriam imediatamente afundado no silêncio e no esquecimento.
Tampouco considero totalmente infundado, nem minhas apreensões inteiramente imaginárias, que a abolição do cristianismo possa talvez colocar a Igreja em perigo ou, ao menos, obrigar o Senado ao incômodo de aprovar outra votação para sua proteção. Desejo não ser mal compreendido; estou longe de presumir afirmar ou pensar que a Igreja esteja atualmente em perigo, ou que as coisas se encontrem assim no presente estado em que estão. Contudo, não sabemos quão rapidamente isso poderá acontecer quando a religião cristã for revogada. Por mais plausível que esse projeto pareça, pode haver nele algum desígnio perigoso oculto. Nada é mais notório do que o fato de que os ateus, deístas, socinianos [16], antitrinitários e outras subdivisões dos livre-pensadores demonstram pouco zelo pelo atual estabelecimento eclesiástico. Sua opinião declarada é favorável à revogação do teste sacramental [17]; são bastante indiferentes em relação às cerimônias; tampouco sustentam o JUS DIVINUM [18] do episcopado. Portanto, é possível que esse projeto seja concebido como um passo político rumo à alteração da constituição da Igreja estabelecida e à implantação do presbiterianismo em seu lugar, questão que deixo para consideração daqueles que estão no governo.
Por fim, penso que nada pode ser mais evidente do que o fato de que, por meio desse expediente, acabaremos incorrendo precisamente no mal que mais fingimos evitar; e que a abolição da religião cristã será o caminho mais rápido que poderíamos adotar para introduzir o papismo. Inclino-me ainda mais a essa opinião porque sabemos que tem sido prática constante dos jesuítas [19] enviar emissários com instruções para se apresentarem como membros das diversas seitas predominantes entre nós. Assim, está registrado que, em diferentes ocasiões, eles apareceram sob a aparência de presbiterianos, anabatistas, independentes e quacres [20], conforme qualquer desses grupos estivesse em maior evidência. Da mesma forma, desde que se tornou moda desacreditar a religião, os missionários papistas não deixaram de misturar-se aos livre-pensadores; entre os quais Toland, o grande oráculo dos anticristãos, é um sacerdote irlandês, filho de um sacerdote irlandês; e o muito erudito e engenhoso autor de um livro intitulado “Os Direitos da Igreja Cristã” [21] foi, em momento oportuno, reconciliado com a fé romana, da qual continua sendo verdadeiro filho, como demonstram centenas de passagens de sua obra. Talvez eu pudesse acrescentar outros nomes à lista; mas o fato está além de qualquer disputa, e o raciocínio deles é correto. Pois, supondo que o cristianismo seja extinto, o povo jamais ficará satisfeito até encontrar algum outro método de culto, o qual produzirá superstição com a mesma infalibilidade com que esse processo terminará em papismo.
Também se propõe, como uma grande vantagem para o público, que, uma vez descartado o sistema do Evangelho, toda religião será naturalmente banida para sempre e, consequentemente, junto com ela desaparecerão aqueles penosos preconceitos da educação que, sob os nomes de consciência, honra, justiça e semelhantes, são tão propensos a perturbar a tranquilidade das mentes humanas, e cujas noções são tão difíceis de erradicar por meio da reta razão ou do livre-pensamento, às vezes durante todo o curso de nossas vidas.
Aqui, em primeiro lugar, observo quão difícil é livrar-se de uma expressão pela qual o mundo já se afeiçoou, mesmo quando a circunstância que originalmente a produziu desapareceu por completo. Durante alguns anos, se um homem possuísse apenas um nariz desagradável à vista, os profundos pensadores da época encontrariam algum modo de atribuir a causa ao preconceito de sua educação. Dessa fonte diziam derivar todas as nossas ideias insensatas de justiça, piedade e amor à pátria; todas as nossas opiniões sobre Deus ou sobre um estado futuro, céu, inferno e coisas semelhantes; e talvez anteriormente houvesse algum pretexto para tal acusação. Mas cuidados tão eficazes foram desde então tomados para remover esses preconceitos, mediante uma completa mudança nos métodos de educação, que (e menciono isso em honra aos nossos elegantes inovadores) os jovens cavalheiros que agora ocupam a cena parecem não conservar o menor vestígio dessas influências nem uma única raiz dessas ervas daninhas; e, por conseguinte, cessou inteiramente a razão para abolir o cristianismo nominal com base nesse pretexto.
Quanto ao restante, talvez se possa discutir se o banimento de toda e qualquer noção religiosa seria inconveniente para o povo comum. Não que eu compartilhe minimamente da opinião daqueles que sustentam que a religião foi uma invenção dos políticos para manter as camadas inferiores da sociedade sob temor mediante o medo de poderes invisíveis; a menos que a humanidade fosse então muito diferente do que é agora. Pois considero a massa de nosso povo aqui na Inglaterra tão livre-pensadora — isto é, tão firmemente incrédula — quanto qualquer pessoa das mais elevadas posições. Contudo, penso que algumas noções dispersas acerca de um poder superior são de singular utilidade para o povo comum, pois fornecem excelentes recursos para manter as crianças tranquilas quando se tornam irritadiças e oferecem temas de entretenimento durante uma longa e tediosa noite de inverno.
Por fim, propõe-se, como uma vantagem singular, que a abolição do cristianismo contribuirá grandemente para a união dos protestantes, ampliando os termos de comunhão de modo a incluir todas as espécies de dissidentes, que atualmente permanecem fora dos limites por causa de algumas cerimônias que todos os lados reconhecem ser questões indiferentes. Afirma-se que isso, por si só, alcançará eficazmente os grandes objetivos de um plano de inclusão, abrindo um amplo e nobre portão pelo qual todos os grupos poderão entrar; ao passo que negociar com os dissidentes e discutir esta ou aquela cerimônia equivale apenas a abrir pequenas portas laterais e deixá-las entreabertas, pelas quais não mais do que uma pessoa pode passar de cada vez, e ainda assim somente curvando-se, inclinando-se de lado e comprimindo o corpo.
A tudo isso respondo que existe uma inclinação muito querida da natureza humana que costuma apresentar-se como serva da religião, embora não seja sua mãe, sua madrinha nem sua amiga. Refiro-me ao espírito de oposição, que existia muito antes do cristianismo e pode facilmente subsistir sem ele. Examinemos, por exemplo, em que consiste a oposição das seitas entre nós. Descobriremos que o cristianismo não tem nela participação alguma. Acaso o Evangelho prescreve em algum lugar um semblante rígido e afetado, um porte formal e inflexível, uma singularidade de costumes e vestuário, ou formas e modos de falar artificiais e diferentes daqueles adotados pela parte razoável da humanidade? No entanto, se o cristianismo não emprestasse seu nome para servir de barreira e ocupar ou desviar esses humores, eles necessariamente se manifestariam em transgressões às leis do país e em perturbações da paz pública. Há uma porção de entusiasmo atribuída a cada nação que, se não encontrar objetos adequados sobre os quais atuar, irromperá e colocará tudo em chamas. Se a tranquilidade de um Estado pode ser comprada simplesmente lançando aos homens algumas cerimônias para devorar, trata-se de uma aquisição que nenhum homem prudente recusaria. Que os mastins se divirtam com uma pele de carneiro recheada de feno, desde que isso os impeça de atacar o rebanho. A instituição dos conventos em outros países parece, sob certo aspecto, um exemplo de grande sabedoria, pois há poucas irregularidades das paixões humanas que não possam encontrar algum desabafo em uma dessas ordens, as quais funcionam como refúgios para os contemplativos, os melancólicos, os orgulhosos, os silenciosos, os políticos e os mal-humorados, permitindo-lhes consumir-se e evaporar suas partículas nocivas. Para cada um desses tipos, nós, nesta ilha, somos obrigados a providenciar uma seita religiosa distinta a fim de mantê-los tranquilos; e, sempre que o cristianismo for abolido, o legislador terá de encontrar algum outro expediente para ocupá-los e entretê-los. Pois de que adianta abrir um portão tão amplo, se sempre haverá um número de pessoas que considera motivo de orgulho e mérito permanecer do lado de fora?
Tendo assim considerado as mais importantes objeções contra o cristianismo e as principais vantagens propostas para sua abolição, passarei agora, com a mesma deferência e submissão a juízos mais sábios que demonstrei anteriormente, a mencionar alguns inconvenientes que poderão ocorrer caso o Evangelho seja revogado, os quais talvez os idealizadores desse projeto não tenham considerado suficientemente.
Em primeiro lugar, estou plenamente consciente de quanto os cavalheiros dedicados ao espírito e ao prazer são propensos a resmungar e a sentir-se incomodados ao ver tantos clérigos desalinhados cruzando seu caminho e ofendendo sua vista. Mas, ao mesmo tempo, esses sábios reformadores não consideram que grande vantagem e felicidade é para os homens de espírito disporem sempre de objetos de escárnio e desprezo, a fim de exercitar e aperfeiçoar seus talentos e desviar sua melancolia de recair uns sobre os outros, ou sobre si mesmos, especialmente quando tudo isso pode ser feito sem o menor perigo imaginável para suas pessoas.
E, portanto, se, apesar de tudo o que disse, ainda se considerar necessário apresentar um projeto de lei para revogar o cristianismo, eu humildemente proporia uma emenda: que, em vez da palavra cristianismo, se utilizasse religião em geral, o que, a meu ver, atenderia muito melhor a todos os bons objetivos propostos pelos idealizadores desse projeto. Pois, enquanto deixarmos existir um Deus e Sua Providência, juntamente com todas as consequências necessárias que homens curiosos e inquisitivos são propensos a deduzir de tais premissas, não estaremos atacando a raiz do mal, ainda que conseguíssemos aniquilar da maneira mais eficaz possível o atual sistema do Evangelho. Pois de que serve a liberdade de pensamento, se ela não produzir liberdade de ação, que é o único objetivo — por mais remoto que pareça — de todas as objeções levantadas contra o cristianismo? E, por isso, os livre-pensadores consideram o cristianismo como uma espécie de edifício cujas partes possuem tal dependência mútua que, se alguém retirar um único prego, toda a estrutura necessariamente desabará. Isso foi expressado com felicidade por um homem que ouvira falar de uma passagem usada como prova da Trindade, a qual, em um antigo manuscrito, apresentava uma leitura diferente. Ele imediatamente aproveitou a sugestão e, por meio de uma súbita dedução em forma de longo sorites [22], concluiu da maneira mais lógica: “Ora, se é como você diz, então posso continuar bebendo à vontade e desafiar o pároco”. A partir desse exemplo e de muitos outros semelhantes que poderiam facilmente ser apresentados, penso que nada pode ser mais evidente do que o fato de que a controvérsia não é contra determinados pontos difíceis de aceitar no sistema cristão, mas contra a religião em geral, a qual, ao impor restrições à natureza humana, é considerada a grande inimiga da liberdade de pensamento e de ação.
Em suma, se ainda se julgar benéfico para a Igreja e para o Estado que o cristianismo seja abolido, considero, contudo, que seria mais conveniente adiar a execução dessa medida para um tempo de paz e não correr, nesta conjuntura, o risco de desagradar aos nossos aliados, que, por acaso, são todos cristãos e muitos deles, em virtude dos preconceitos de sua educação, tão apegados à religião que fazem questão de ostentar esse título. Se, depois de sermos rejeitados por eles, tivermos de confiar em uma aliança com o turco [23], descobrir-nos-emos grandemente enganados; pois, além de ele estar demasiado distante e geralmente envolvido em guerra com o imperador persa, seu povo se escandalizaria mais com nossa incredulidade do que os nossos vizinhos cristãos. Porque eles não apenas observam rigorosamente o culto religioso, mas, o que é pior, acreditam em Deus; algo mais do que se exige de nós, mesmo enquanto conservamos o nome de cristãos.
Para concluir, seja qual for a opinião de alguns acerca das grandes vantagens para o comércio decorrentes desse projeto favorito, temo seriamente que, dentro de seis meses após a aprovação de uma lei para a extirpação do Evangelho, as ações do Banco e da Companhia das Índias Orientais [24] possam cair pelo menos um por cento. E, visto que isso representa cinquenta vezes mais do que a sabedoria de nossa época alguma vez julgou apropriado arriscar para preservar o cristianismo, não há razão para sofrermos uma perda tão grande apenas pelo prazer de destruí-lo.
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Jonathan Swift
Notas:
[1] Trinitários nominais e reais – Distinção empregada ironicamente por Swift. Os “trinitários nominais” professam a doutrina apenas formalmente, enquanto os “trinitários reais” procuram viver de acordo com suas implicações práticas.
[2] Poeta romano (65–8 a.C.). Swift alude a uma passagem satírica em que se imagina o abandono de Roma como solução para a corrupção moral da sociedade.
[3] Termo polêmico utilizado por críticos do clero para designar a suposta manipulação religiosa e política exercida pelos ministros da religião.
[4] Expressão latina que significa: “As ofensas contra os deuses são assunto dos próprios deuses.”
[5] Adeptos do livre-pensamento, movimento intelectual dos séculos XVII e XVIII que defendia a submissão das crenças religiosas ao exame exclusivo da razão.
[6] John Asgill (Asgil) – Escritor inglês (1659–1738) conhecido por opiniões religiosas heterodoxas.
[7] Matthew Tindal (Tindal) – Deísta inglês (1657–1733), autor de importantes críticas à religião revelada.
[8] John Toland (Toland) – Filósofo e escritor irlandês (1670–1722), associado ao deísmo e ao livre-pensamento.
[9] William Coward (Coward) – Médico e escritor inglês (1657–1725), conhecido por posições materialistas acerca da alma humana.
[10] Administradores do reinado de Henrique VII, famosos pela rigorosa aplicação de antigas leis fiscais.
[11] Estabelecimentos londrinos semelhantes aos cafés modernos, frequentados por políticos, comerciantes e intelectuais.
[12] Correntes distintas dentro da Igreja da Inglaterra, divergindo principalmente quanto à liturgia, à autoridade eclesiástica e à relação com outros grupos protestantes.
[13] Os dois principais partidos políticos ingleses da época. Os Whigs geralmente defendiam maior poder parlamentar e tolerância religiosa protestante; os Tories eram mais ligados à monarquia e à Igreja da Inglaterra.
[14] Cantores e artistas populares na Londres do início do século XVIII. Swift os utiliza para mostrar que facções e rivalidades podem surgir em torno de qualquer assunto.
[15] Facções rivais identificadas pelas cores verde e azul nas corridas de quadrigas do Império Romano e Bizantino.
[16] Seguidores das ideias de Fausto Sozzini (1539–1604), teólogo que rejeitava a doutrina da Trindade.
[17] Exigência legal de participação na comunhão anglicana para ocupar determinados cargos públicos.
[18] Expressão latina que significa “direito divino”. No contexto, refere-se à crença de que o episcopado foi instituído diretamente por Deus.
[19] Membros da Companhia de Jesus, ordem religiosa católica fundada em 1540 por Inácio de Loyola.
[20] Grupos protestantes dissidentes da Igreja da Inglaterra. Os anabatistas defendiam o batismo de crentes; os independentes, a autonomia das igrejas locais; os quacres enfatizavam a experiência religiosa interior.
[21] Obra publicada por Matthew Tindal em 1706, defendendo ampla autoridade do Estado sobre a Igreja.
[22] Forma de argumento lógico composta por uma cadeia sucessiva de proposições que conduzem a uma conclusão final.
[23] Referência ao Império Otomano, principal potência islâmica da época.
[24] Companhia comercial inglesa fundada em 1600, que exerceu enorme influência econômica e política no comércio britânico com a Ásia.