Um cântico de louvor.
¹Cantem ao Senhor um cântico novo,
Porque Ele tem feito maravilhas;
A Sua mão direita e o Seu santo braço Lhe alcançaram a vitória.
²O Senhor tornou conhecida a Sua salvação;
Manifestou abertamente a Sua justiça
Aos olhos das nações.
³Ele Se lembrou da Sua misericórdia
E da Sua verdade para com a casa de Israel;
Todos os confins da terra
Viram a salvação do nosso Deus.
⁴Celebrem com júbilo ao Senhor, toda a terra;
Deem brados de alegria, exultai
E cantem louvores.
⁵Cantem louvores ao Senhor com a harpa;
Com a harpa e com a voz de um salmo.
⁶Com trombetas e ao som da corneta,
Celebrem com júbilo diante do Senhor, o Rei.
⁷Ruja o mar e a sua plenitude;
O mundo e os que nele habitam.
⁸Batam palmas os rios;
Alegrem-se juntamente os montes
⁹Diante do Senhor,
Porque Ele vem julgar a terra;
Com justiça julgará o mundo
E os povos com equidade.
O nonagésimo oitavo Salmo do Livro dos Salmos (designado Salmo noventa e sete na Septuaginta e na Vulgata Latina) é um hino de exaltação régia e jubilação cosmológica ("Cantate Domino"), composto por nove versículos no Texto Masorético. Integrante do grupo dos Salmos Reais que aclamam o Altíssimo como o Rei soberano de toda a criação, o poema destaca-se pelo apelo inicial ao canto de um "novo cântico" (shir chadash), expressão que a tradição rabínica e o Midrash Tanchuma interpretam sob uma perspectiva eclesiológica e escatológica, apontando para o cântico definitivo que será entoado após a redenção final. Sob a perspectiva da engenharia literária veterotestamentária, a perícope convoca não apenas Israel, mas toda a Terra e os elementos da natureza — o mar, os rios e os montes — para celebrarem a vitória e a salvação reveladas aos olhos das nações.
O desenvolvimento poético organiza-se em uma triunfal gradação de louvor que se estende da história de Israel até à totalidade da criação. Na primeira seção (versículos um a três), o salmista celebra a salvação operada pela destra e pelo braço santo do Senhor, lembrando a Sua misericórdia e fidelidade para com a casa de Israel, um testemunho de redenção que alcança os confins da terra e ecoa diretamente no cântico do Magnificat (Lucas 1. 54). A seção intermediária (versículos quatro a seis) incita uma explosão de louvor litúrgico e musical, convocando harpas, trombetas e o som do shofar para aclamar o Rei perante a assembleia. Por fim (versículos sete a nove), a própria criação assume voz poética: o mar ruge, os rios batem palmas e os montes regozijam-se perante o Senhor, que vem para julgar a terra e os povos com justiça e equidade.
A recepção litúrgica do Salmo noventa e oito desdobra-se do judaísmo — onde constitui o quarto salmo recited no Kabbalat Shabbat e provê versículos para a liturgia do Rosh Hashaná — à tradição cristã, na qual serve como cântico vespertino (Cantate Domino) no Livro de Oração Comum e na liturgia copta do Agpeya. Sua vibrante linguagem poética inspirou universais hinos natalinos, notadamente "Joy to the World" (adaptado por Isaac Watts em 1719 sobre melodia atribuída a Haendel), além de magistrais composições eruditas de Claudio Monteverdi, Marc-Antoine Charpentier, Dieterich Buxtehude, Heinrich Schütz, Antonín Dvořák (nos seus Cantos Bíblicos) e, contemporaneamente, de Arvo Pärt e Andrew Lloyd Webber. Sob o prisma do desígnio cristão, o Salmo noventa e oito pré-figura o advento definitivo do Messias, que vem ao mundo para restaurar a ordem criação e julgar a humanidade sob o cetro da perfeita justiça.
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