Uma oração pela restauração.
¹Senhor, Tu tens sido favorável à Tua terra;
Tens restaurado a sorte de Jacó.
²Tens perdoado a iniquidade do Teu povo;
Tens coberto todos os seus pecados. Selá.
³Tens retirado toda a Tua ira;
Tens desviado o ardor da Tua indignação.
⁴Restaura-nos, ó Deus da nossa salvação,
E faze cessar a Tua ira contra nós.
⁵Estarás irado contra nós para sempre?
Prolongarás a Tua ira por todas as gerações?
⁶Não tornarás a vivificar-nos,
Para que o Teu povo se alegre em Ti?
⁷Mostra-nos a Tua misericórdia, ó Senhor,
E concede-nos a Tua salvação.
⁸Ouvirei o que Deus, o Senhor, falará,
Pois Ele falará de paz ao Seu povo e aos Seus santos;
Mas que não voltem novamente à insensatez.
⁹Certamente a Sua salvação está próxima dos que O temem,
Para que a glória habite em nossa terra.
¹⁰A misericórdia e a verdade se encontraram;
A justiça e a paz se beijaram.
¹¹A verdade brotará da terra,
E a justiça olhará desde o céu.
¹²Sim, o Senhor dará o que é bom,
E a nossa terra produzirá o seu fruto.
¹³A justiça irá adiante d'Ele,
E nos colocará no caminho dos Seus passos.
O octogésimo quinto Salmo do Livro dos Salmos (designado Salmo oitenta e quatro na Septuaginta e na Vulgata Latina) é uma oração penitencial e um hino de restauração atribuído aos filhos de Coré ("Benedixisti Domine terram tuam"), composto por treze versículos no Texto Masorético. Contextualizado historicamente no retorno do cativeiro babilônico ou nos tempos de restauração sob Neemias, o poema reflete o contraste entre a memória do favor divino passado e as agruras do presente pós-exílico. Sob a perspectiva da engenharia literária e teológica veterotestamentária, a perícope atua como uma elegia nacional e uma súplica messiânica, intercedendo pelo cessar definitivo da ira do Altíssimo para que a salvação resplandeça sobre a Terra de Israel.
O desenvolvimento poético e teológico estrutura-se em uma gradação de profunda sensibilidade. Inicialmente, a voz comunitária rememora o perdão concedido às iniquidades de Jacó e a remoção do furor divino, suplicando em seguida por um novo avivamento ("Não nos reviverás outra vez, para que o teu povo se alegre em ti?"). Na seção final (versículos oito a treze), o poema atinge o seu ápice oracular e lírico: o salmista põe-se à escuta da promessa de paz de Deus, culminando na célebre alegoria em que a misericórdia (Chesed) e a verdade (Emet) se encontram, e a justiça (Tzedek) e a paz (Shalom) se beijam. A verdade brota da terra enquanto a justiça olha desde os céus, assegurando que o Senhor concederá o bem e a terra produzirá o seu fruto.
A recepção litúrgica e artística do Salmo oitenta e cinco é de notável riqueza. No judaísmo, integra os ritos penitemciais das Selichot e a liturgia de Yom Kippur, enquanto no cristianismo é associado ao tempo do Advento — servindo de Introito no Domingo Gaudete — e às matinas do Natal. A emblemática imagem do beijo entre a Justiça e a Paz ("Four Daughters of God") tornou-se um dos temas alegóricos mais difundidos na arte ocidental do Renascimento e do Barroco, representada por mestres como Tiepolo e Laurent de La Hyre, além de inspirar motetos de Marc-Antoine Charpentier, paráfrases hínicas de Paul Gerhardt (EG 283) e hinos de John Milton. Sob o prisma do desígnio cristão, o poema profetiza a perfeita convergência entre a justiça divina e a paz reconciliadora plenamente manifestadas na encarnação e no sacrifício de Cristo.
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