Um salmo de Davi, quando fugia de Absalão, seu filho.
¹Senhor, como se multiplicam os que me afligem!
Muitos são os que se levantam contra mim.
²Muitos dizem da minha alma:
“Não há salvação para ele em Deus.”
Selá.
³Mas Tu, ó Senhor, és um escudo ao meu redor,
A minha glória e Aquele que exalta a minha cabeça.
⁴Clamei ao Senhor com a minha voz,
E Ele me ouviu desde o Seu santo monte.
Selá.
⁵Deitei-me e dormi;
Despertei, porque o Senhor me sustentou.
⁶Não terei medo de dez milhares de pessoas
Que se puseram contra mim ao redor.
⁷Levanta-Te, ó Senhor;
Salva-me, ó meu Deus;
Pois Tu feriste todos os meus inimigos no osso da face;
Quebraste os dentes dos ímpios.
⁸A salvação pertence ao Senhor;
A Tua bênção está sobre o Teu povo.
Selá.
O terceiro Salmo do Livro dos Salmos (designado Domine quid multiplicati sunt na Vulgata Latina) atua como a primeira oração individual de lamentação e cântico matutino de confiança no Saltério, composto por oito versículos. Dotado da primeira titulação explícita da coleção, o texto vincula-se ao dramático episódio histórico em que o rei Davi foge de seu próprio filho Absalão, constituindo um modelo teológico de súplica no qual o penitente busca o amparo do Altíssimo mesmo sob o peso da disciplina divina. Sob a perspectiva da engenharia literária e hermenêutica veterotestamentária, esta perícope introduz formalmente pela primeira vez no Saltério a instrução musical e meditativa Sela (após os versículos dois, quatro e oito), além de estabelecer um vigoroso contraste estrutural entre a fuga do filho revoltoso no início deste poema e o refúgio seguro no Filho revelado no encerramento do Salmo dois.
O desenvolvimento poético organiza-se através da superação da angústia inicial pela certeza do socorro divino. Na primeira seção (versículos um a três), o salmista expõe o recrudescimento de seus adversários e a afronta daqueles que declaram não haver salvação para ele em Deus, ao que o rei responde aclamando o Senhor como o seu escudo, a sua glória e Aquele que exalta a sua cabeça. Na seção central (versículos quatro e cinco), a oração no monte santo é atendida com o dom da paz interior: o salmista deita-se, dorme e acorda em segurança, sustentado pela providência matutina. Por fim (versículos seis a oito), desfaz-se o temor diante de milhares de opositores, culminando na súplica para que o Criador se levante, quebre os dentes dos ímpios — metáfora da frustração dos conselhos de Aitofel — e derrame a Sua bênção sobre o povo, pois do Senhor vem a salvação.
A recepção litúrgica e musical do Salmo três é de notável relevância nas tradições judaica e cristã. No judaísmo, integrou as preces do Shemá ao deitar (Bedtime Shema) e a liturgia da Havdalá, enquanto na Igreja Ortodoxa Oriental abre o solene bloco dos "Seis Salmos" do Orthros (Matinas). Na tradição Monástica Ocidental, a Regra de São Bento (530 d.C.) consagrou o Salmo três como o salmo de abertura de todo o ano litúrgico no ofício de Vigílias, mantendo-se na Liturgia das Horas comooração do primeiro Domingo. A profundidade de sua mensagem de confiança matutina inspirou expressivas composições da música sacra erudita, destacando-se o hino Ach wie groß ist der Feinde Rott (SWV 099) de Heinrich Schütz, a cantata Domine quid multiplicati sunt (H.172) de Marc-Antoine Charpentier, o grand motet (S.37) de Michel-Richard Delalande para a Capela Real de Versalhes e o moteto Jehova, quam multi sunt hostes mei de Henry Purcell. Sob o prisma do desígnio salvífico, o Salmo três pré-figura a Paixão e a Ressurreição do Messias, que repousa na morte para despertar vitorioso sob a proteção do Pai.
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