A Segunda Carta a Timóteo é um livro do Novo Testamento que se apresenta como testamento espiritual do apóstolo Paulo, redigido em cativeiro enquanto aguardava a execução, endereçado ao seu colaborador mais próximo. O texto transmite a solenidade de uma última palavra: um mestre que sabe estar prestes a morrer confia ao seu discípulo o legado da fé e da missão. A referência a Latinismos no texto — termos como paenula para o manto e membrana para os pergaminhos — e os nomes romanos de três cristãos que enviam saudações a Timóteo em Éfeso, Pudente, Lino e Cláudia, apontam para Roma como local de composição, enquadramento que corresponde ao encarceramento com que termina o relato dos Atos dos Apóstolos.
A questão da autoria insere-se no debate mais amplo sobre as cartas pastorais como conjunto. A maioria dos exegetas contemporâneos considera que a Segunda a Timóteo, juntamente com a Primeira e com a Carta a Tito, é de autoria pseudepígrafa, escrita em nome de Paulo por um autor anónimo após a morte do apóstolo. Os argumentos que sustentam essa posição incluem diferenças de vocabulário e estilo em relação às cartas paulinas indiscutíveis, a dificuldade em integrar as situações geográficas e biográficas descritas na cronologia conhecida da vida de Paulo, e a teologia distintiva das cartas pastorais, que constitui segundo muitos estudiosos uma forma própria e autónoma de reflexão cristã, não redutível a um simples desenvolvimento do pensamento paulino. Um estudo de linguística estatística publicado em 2018 por Jermo van Nes reequacionou o debate: concluiu que os chamados hápax legomena das cartas pastorais haviam sido sobrevalorizados nas análises anteriores, e que linguisticamente o texto poderia ter sido escrito por Paulo, por um secretário, por um redator ou por um autor pseudepígrafo, não sendo possível decidir apenas com base em critérios linguísticos.
Entre os que defendem a autoria paulina direta, alguns recorreram à hipótese de uma libertação de Paulo depois do encarceramento romano descrito no final dos Atos, seguida de nova atividade missionária e de um segundo encarceramento em condições mais severas, findo o qual teria sido executado. Essa hipótese, que remonta ao historiador Eusébio de Cesareia na Antiguidade tardia, permite situar as cartas pastorais num período final da vida de Paulo não documentado pelos Atos. O exegeta Jens Herzer propôs uma solução diferente: atribuir a primeira carta a Timóteo a um autor pseudepígrafo e considerar que a Segunda a Timóteo e a Carta a Tito foram redigidas pelo próprio Paulo durante o encarceramento romano descrito nos Atos, sob condições de detenção mais rigorosas do que as que o texto de Lucas sugere, situando a composição no início dos anos sessenta do primeiro século.
O conteúdo da carta distribui-se pelos quatro capítulos com uma lógica progressiva. O primeiro capítulo abre com uma saudação e uma evocação da fé herdada de geração em geração na família de Timóteo — a avó Loide e a mãe Eunice — fé judaica que moldou o filho de um pai grego antes de se transformar em fé cristã. Paulo recorda o dom recebido pela imposição das mãos e exorta a não ter vergonha do testemunho do Senhor nem do apóstolo prisioneiro, mas a participar nos sofrimentos do Evangelho pela força de Deus. O segundo capítulo desdobra imagens militares, atléticas e agrícolas para descrever a exigência da vida apostólica, com ênfase na disponibilidade para o sofrimento como condição do serviço fiel. A advertência contra disputas de palavras e o apelo à pureza doutrinal complementam a exortação.
O terceiro capítulo desenvolve uma descrição dos tempos difíceis que virão nos últimos dias, evocando uma deterioração moral e religiosa que o crente deve resistir agarrando-se firmemente ao que aprendeu e às Escrituras Sagradas, de que se afirma que toda foi inspirada por Deus e é útil para ensinar, corrigir e educar na justiça. Essa afirmação, que pressupõe já uma certa consciência canónica e possivelmente uma coleção das cartas paulinas em circulação, tem sido um dos textos mais invocados nas discussões sobre a inspiração bíblica. O quarto capítulo traz as palavras mais pessoalmente pungentes de toda a carta: Paulo declara que o momento da sua partida chegou, que combateu o bom combate, acabou a sua carreira e guardou a fé. Seguem-se instruções práticas, avisos sobre determinadas pessoas, pedidos de ordem doméstica e as saudações finais, que criam uma última imagem de um homem cercado pela solidão de uns e pela fidelidade de outros, a aguardar o fim com a confiança de quem nada teme.