O Evangelho de João é o quarto dos evangelhos canônicos do Novo Testamento e ocupa, na história da teologia cristã, um lugar singular pela profundidade da sua reflexão sobre a pessoa de Jesus e pela originalidade da sua linguagem. Distingue-se claramente dos três evangelhos sinóticos — Mateus, Marcos e Lucas —, que partilham entre si estrutura narrativa, material e perspectiva, enquanto João apresenta um universo teológico e literário próprio. A data de composição situa-se, segundo a grande maioria dos estudiosos, no final do primeiro século, entre os anos 90 e 100, embora alguns pesquisadores defendam uma datação anterior à destruição de Jerusalém em 70. O fragmento de papiro mais antigo que contém texto deste evangelho, conservado na Biblioteca John Rylands em Manchester, foi descoberto no Egito e data provavelmente da primeira metade do século II, o que constitui o limite superior mais seguro para a datação da obra.
A questão da autoria é uma das mais complexas da introdução ao Novo Testamento. A tradição eclesial antiga, apoiada no testemunho de Irineu de Lyon, identificou o autor com o apóstolo João, o filho de Zebedeu, aquele que no texto aparece designado como o "discípulo amado" — o que tornaria o evangelho obra de uma testemunha ocular. A exegese histórico-crítica contemporânea questiona amplamente essa identificação, argumentando que a linguagem elevada, as longas meditações teológicas e as diferenças consideráveis em relação à tradição sinótica tornam improvável que um pescador da Galileia seja o autor direto do texto na forma em que chegou até nós. Uma hipótese alternativa aponta para o chamado Presbítero João, mencionado por Papias de Hierápolis, como figura distinta do apóstolo e possível responsável pela redação. A solução hoje mais amplamente aceita postula a existência de uma escola ou comunidade joanina que, reunida em torno da autoridade de uma figura de testemunha privilegiada, foi elaborando o texto ao longo do tempo, com sucessivas camadas de redação. O capítulo vinte e um, que apresenta um encerramento próprio após o que parece ter sido o final original no versículo trinta do capítulo vinte, é geralmente atribuído a um redator posterior que acrescentou também a tradição do discípulo amado como fundamento da autoridade do evangelho.
O prólogo constitui um dos textos mais densos e influentes de toda a Escritura cristã. Em forma de hino, anuncia os grandes temas que percorrerão o evangelho: o Logos, a Palavra eterna que estava com Deus e era Deus, tornou-se carne e habitou entre nós. Essa afirmação da encarnação do Verbo é o eixo em torno do qual toda a cristologia joanina gira. Ao contrário dos evangelhos sinóticos, que narram o nascimento ou o batismo de Jesus como ponto de partida, João recua até antes de toda a criação, convocando o primeiro versículo do Génesis — "no princípio" — para afirmar que Jesus não tem apenas uma origem histórica mas uma existência eterna na intimidade do Pai. O prólogo funciona como uma abertura musical que antecipa os motivos que serão desenvolvidos ao longo dos vinte e um capítulos.
O corpo do evangelho organiza-se em duas grandes partes. A primeira, que vai do segundo ao décimo segundo capítulo e é frequentemente chamada o Livro dos Sinais, narra a atividade pública de Jesus através de sete sinais — milagres deliberadamente escolhidos e interpretados teologicamente — e de longas conversas e discursos que deles decorrem. Esses sinais incluem a transformação da água em vinho nas bodas de Caná, a cura do filho de um funcionário real, a multiplicação dos pães, a cura de um cego de nascença e, como culminação, a ressurreição de Lázaro. Cada sinal aponta para além de si mesmo e é acompanhado de uma reflexão que revela quem é Jesus: o pão da vida, a luz do mundo, a ressurreição e a vida. A segunda parte, do décimo terceiro ao vigésimo capítulo, narra os acontecimentos da última noite, a lavagem dos pés, os longos discursos de despedida, a oração sacerdotal de Jesus pelo seus discípulos e por todos os que virão a crer por meio deles, seguida da paixão, morte e ressurreição.
Para a tradição cristã, o Evangelho de João é indispensável. A sua afirmação de que Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho único tornou-se uma das fórmulas mais citadas do Novo Testamento. A teologia do Paráclito — o Espírito da verdade que continuará a missão de Jesus na comunidade dos crentes — fundamentou a compreensão pneumatológica da Igreja. E a oração pela unidade de todos os crentes à imagem da unidade do Pai e do Filho tornou-se texto de referência ecumênica incontornável. Cedo designado pelos Pais como o evangelho espiritual por excelência, João continua a ser, dois milênios depois, uma fonte inexaurível de contemplação e reflexão teológica.