O Evangelho segundo João, o quarto e último dos canônicos, diferencia-se de Mateus, Marcos e Lucas por sua composição tardia, datada geralmente entre 90 e 100 d.C., e por uma teologia densamente reflexiva. Escrito em um grego helenístico com marcas semíticas, apresenta Jesus como o Logos divino pré-existente que se encarna (João 1. 1-18), revelando o Pai ao mundo por meio de sinais e extensos discursos. A narrativa enfatiza a identidade de Jesus como Filho de Deus, cuja missão converge para a "hora" da glorificação na cruz e na ressurreição, interpretadas como sua elevação e o retorno triunfal ao Pai.
Diferente dos sinóticos, focados no Reino de Deus e no ministério galileu, João estrutura sua obra — composta majoritariamente por um Sondergut teológico — em torno de sete sinais milagrosos, como a transformação da água em vinho (João 2. 1-11) e a ressurreição de Lázaro (João 11. 1-44), seguidos por declarações autoritativas do tipo "Eu sou" (pão da vida, luz do mundo). O texto reflete um contexto de tensão com o judaísmo sinagogal pós-70 d.C., visível nas menções à expulsão da sinagoga (João 9. 22; 16. 2), o que denota um debate interno sobre a messianidade de Jesus. A Paixão é retratada como vitória, com um Jesus soberano até o último instante (João 19. 30).
A tradição atribui a autoria ao apóstolo João, associando-o ao "discípulo amado" (João 21. 24), mas a exegese histórico-crítica tende a apontar para um autor anônimo ou para uma "escola joânica" responsável pela redação final, incluindo o capítulo 21. Evidências arqueológicas, como o papiro P52 (ca. 125 d.C.), confirmam sua circulação precoce. O prólogo hínico e os discursos de despedida (João 13. 1-17. 26) ressaltam a unidade com Deus, o mandamento do amor e a vinda do Espírito Paráclito como guia da comunidade.
Na pesquisa contemporânea, prevalece a tese da independência literária de João frente aos sinóticos, embora se detectem ecos de tradições comuns. O evangelho oferece uma cristologia "alta", focada na encarnação e na salvação mediante a fé no Filho, exercendo influência profunda na formação da teologia trinitária e na espiritualidade cristã, apesar das discussões acadêmicas sobre sua unidade literária e o contexto original de sua comunidade.