A Carta de Paulo aos Gálatas é o nono livro do Novo Testamento e uma das epístolas paulinas de autenticidade mais amplamente aceita. Endereçada a diversas comunidades cristãs na Galácia — região da Anatólia central onde se estabeleceu um povo de origem céltica —, a carta foi redigida em grego e constitui um dos documentos mais apaixonados e teologicamente decisivos de toda a literatura cristã primitiva. Sobre a datação precisa há debate entre os estudiosos: alguns situam a composição entre os anos quarenta e oitenta do primeiro século, identificando os destinatários como comunidades da Galácia do sul fundadas durante a primeira viagem missionária de Paulo; outros localizam os destinatários na Galácia do norte e datam a carta nos anos cinquenta. Uma terceira hipótese, que a tornaria a epístola paulina mais antiga, data-a em torno de 47 ou 48, antes do Concílio de Jerusalém. O que é claro é que o texto foi escrito numa situação de urgência, como o próprio tom impaciente de abertura sugere: Paulo suprime o agradecimento habitual das suas cartas e passa diretamente à reprovação.
O problema de fundo que motivou a carta é a chegada a comunidades já evangelizadas por Paulo de agentes — que ele designa sem cerimônia como perturbadores — que pregavam a necessidade de os convertidos gentios adotarem a circuncisão e as observâncias da Lei de Moisés para pertencerem plenamente ao povo de Deus. Essa posição, que os estudiosos costumaram chamar de judaizante, questiona implicitamente a validade do Evangelho que Paulo proclamava e a própria legitimidade do seu apostolado. A carta é, por isso, simultaneamente uma autoapologia e uma exposição doutrinal: Paulo defende a origem divina da sua missão e desenvolve uma argumentação teológica sobre o papel da Lei na história da salvação.
Nos dois primeiros capítulos, Paulo narra os momentos decisivos da sua trajetória: a sua vida anterior no judaísmo, a sua conversão por revelação direta de Cristo, os seus contatos com os líderes de Jerusalém — Tiago, Cefas e João, que ele denomina as "colunas" — e o reconhecimento mútuo de esferas missionárias distintas. O episódio de Antioquia, em que Paulo confrontou Cefas publicamente por este ter retirado a sua presença da mesa comum com os gentios depois da chegada de enviados de Tiago, é narrado como ilustração concreta do princípio em jogo: a conduta de Pedro não estava em consonância com a verdade do Evangelho. Esse confronto apostólico, preservado com uma franqueza desconcertante, seria retomado exaustivamente pela história da interpretação cristã.
O coração teológico da carta está nos capítulos três e quatro. Paulo recorre à figura de Abraão — não por acaso, o primeiro a receber a promessa divina — para mostrar que a justificação pela fé é anterior à Lei e independente dela: Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça, e esse crédito foi concedido antes da circuncisão, que veio depois como sinal e não como condição. A Lei, acrescida quatrocentos e trinta anos depois da promessa, não a anula nem substitui: foi um pedagogo temporário destinado a conduzir a humanidade até Cristo, momento em que a fé se torna o único acesso à herança da promessa. O batismo é a realidade que incorpora o crente em Cristo e torna irrelevantes as distinções que estruturavam o mundo antigo: não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus. Essa afirmação no versículo vinte e oito do terceiro capítulo tornou-se um dos textos mais debatidos do Novo Testamento, com interpretações que oscilam entre quem a limita ao plano da igualdade salvífica perante Deus e quem a projeta sobre as relações sociais concretas.
O quinto capítulo opõe a liberdade do Espírito à servidão da Lei com imagens de grande força: a liberdade cristã não é licença para a carne mas espaço para o amor que cumpre toda a Lei. O contraste entre as obras da carne — lista de vícios que inclui idolatria, discórdias e invejas — e o fruto do Espírito — amor, alegria, paz, paciência, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio — tornou-se um dos esquemas éticos mais influentes da tradição cristã.
Para Lutero, a Carta aos Gálatas foi o texto-chave da sua compreensão da justificação pela fé, e o seu comentário à carta moldou decisivamente a exegese protestante por séculos. A investigação contemporânea, a partir da chamada Nova Perspectiva sobre Paulo, questionou a leitura luterana, argumentando que Paulo não criticava um judaísmo de méritos mas as marcas identitárias que separavam judeus de gentios. O debate permanece aberto e continua a gerar uma literatura exegética abundante, testemunho da vitalidade incessante de um texto que, em menos de seis capítulos, colocou questões que a teologia cristã ainda não terminou de responder.