A Primeira Carta de Paulo aos Coríntios é uma das epístolas paulinas do Novo Testamento, redigida em grego, e goza de amplo consenso quanto à sua autenticidade entre os estudiosos. O texto menciona no cabeçalho um coautor chamado Sóstenes, que a exegese contemporânea identifica como o secretário que pôs por escrito as ideias de Paulo sob sua direção. Não foi a primeira correspondência de Paulo com a comunidade de Corinto, como o próprio texto indica ao referir uma carta anterior agora perdida, mas é a primeira que chegou ao cânon. Composta provavelmente durante a estadia prolongada de Paulo em Éfeso, entre os anos 53 e 57, a carta responde a uma dupla fonte de informações sobre a situação em Corinto: notícias transmitidas por pessoas da casa de Cloé e uma carta enviada pela própria comunidade coríntia pedindo esclarecimentos sobre diversas questões.
O contexto histórico da carta é o de uma comunidade fundada por Paulo por volta do ano 50, durante a sua segunda viagem missionária, e que acusava sinais preocupantes de divisão interna, comportamentos incompatíveis com a fé cristã e confusões doutrinárias de diversas ordens. Paulo respondia a esses desafios com autoridade apostólica, mas também com o cuidado de quem se apresenta como arquiteto que lança fundamentos para que outros construam. A estrutura da carta é relativamente clara: depois de uma saudação e uma ação de graças, o texto aborda sucessivamente o problema das divisões internas, a questão da imoralidade, uma série de dificuldades práticas e doutrinárias, e culmina no tema da ressurreição.
As divisões em Corinto constituem o primeiro grande problema que Paulo enfrenta. Facções organizavam-se em torno das figuras de Paulo, Apolo, Cefas e até do próprio Cristo, ameaçando a unidade da assembleia. A resposta de Paulo é uma reflexão sobre a loucura da cruz como critério de discernimento oposto à sabedoria do mundo: Deus escolheu o fraco para confundir o forte, o que não tem existência para aniquilar o que parece existir. Essa teologia da cruz, que atravessa a carta de diversas formas, é o antídoto que Paulo propõe contra o orgulho e o espírito de partido que contaminava a comunidade.
O debate sobre os comportamentos morais incluía um caso de incesto que Paulo manda sancionar publicamente, discussões sobre como resolver litígios entre cristãos e reflexões sobre o corpo humano como templo do Espírito Santo — formulação de enorme pregnância teológica que fundamenta tanto a ética sexual quanto a antropologia cristã. Sobre o casamento, Paulo expressa a sua preferência pessoal pelo celibato à luz do horizonte escatológico que ele aguardava, mas reconhece que o matrimônio é caminho igualmente digno para quem não tem o dom da continência, e apresenta o amor conjugal como um serviço mútuo que cada cônjuge deve ao outro.
O debate sobre as carnes imoladas a ídolos revela a sua metodologia ética: o princípio da liberdade cristã tem de ser temperado pela atenção à consciência do irmão mais fraco. A liberdade que não constrói não é verdadeira liberdade. Sobre o culto, Paulo aborda o uso do véu pelas mulheres durante a oração, as irregularidades na celebração da Ceia do Senhor e a ordenação dos dons espirituais. É nesse contexto que se insere o capítulo décimo terceiro, a ode ao amor que a tradição cristã mais tem citado e meditado: se falo línguas humanas e angélicas mas não tenho amor, sou como bronze que ressoa. A enumeração das qualidades do amor — paciente, bondoso, sem inveja, sem vaidade, que suporta tudo, que espera tudo — tornou-se um dos textos formativos mais influentes da espiritualidade cristã.
O clímax teológico da carta é o capítulo décimo quinto, consagrado à ressurreição. Paulo transmite ali uma das mais antigas fórmulas do querigma cristão, que recebeu e repassa: Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e apareceu a Cefas, depois aos Doze, a quinhentos irmãos, a Tiago e por fim ao próprio Paulo. A datação dessa fórmula pelos estudiosos é objeto de intenso debate, com muitos propondo que remonta aos primeiros anos após a morte de Jesus. Sobre a natureza da ressurreição futura, Paulo elabora a metáfora do grão de trigo que precisa morrer para germinar: haverá um corpo espiritual distinto do corpo físico, assim como há corpos celestes distintos dos terrestres. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e seremos transformados num instante. Para a tradição cristã, esse capítulo é fundacional: a ressurreição de Cristo não é um episódio isolado mas a primícia de uma ressurreição universal que dá sentido à totalidade da existência cristã.